10-Jul-2009

As férias na Minha Terra


A Susana Falhas, anfitriã incansável e dedicada a causas comuns :) acaba de lançar mais uma engraçada iniciativa no blogue Aldeia da Minha Vida!


"As férias na Minha Terra" trarão certamente memórias engraçadas ou vivências para partilhar *

Parabéns Susana .. * e Bom fim-de-semana de Sol ;) a tutti*

09-Jul-2009

IV (the end)

Onde chega, pelo à vontade que o caracteriza, é aceite, admirado e acarinhado pelas gentes de bem. Gentes que não sonham que por detrás daquela aparência simpática e afável, demasiado simpática acrescentaria, se encontra um verdadeiro lince, treinado por uma educação que não teve, fruto de uma vida de faz-de-conta na qual chega a acreditar tão cegamente que a realidade deixa de fazer qualquer sentido. Um lince que premedita a jogada seguinte sempre com um só objectivo: encurralar a presa. E quanto mais fugitiva e arisca a gazela, mais o gozo da caça em mudança constante de chumbada.
O discurso é proferido dois decibéis acima do desejado, chamando a atenção mas fazendo-o como que por acaso. Habilmente. Isso e as estórias que repete vezes sem conta e à força de as inventar acaba por ser apanhado em pequenas, digamos que, incongruências. Pequenas. Muito pequenas. Quase nada.
Saco roto de conteúdo, foi a expressão ouvida numa altura em que uma das visadas o apanhou desprevenido por uma vírgula colocada fora de contexto. Escusado será escrever que não o voltou a ver. A aparência não vai, felizmente, durar para sempre. Depois disso? Resta-lhe o não ser lembrado. Mas quem de nada se lembra que pode esperar? Nada.
Lamentando que tal aconteça, até porque é de facto um espécime merecedor de estudo, fica a labeL: short novel. As short as ..
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BORLAS:
Técnica 1
Se o ouvir falar sobre uma casa fantástica que viu para os lados de uma avenida que ninguém conhece, ponha o seu ar mais ausente, pisque os olhos duas vezes, faça um beiço e responda-lhe que lhe havia prometido irem viver para o Dubai. Distraia-o. Isso mesmo.
Técnica 2
Imagine que abordam o facto de você, querida, conduzir um carro que não está de acordo com a condição de a minha mulher isto e aquilo .. sorria. Com aquele sorriso que fazemos quando o nosso filho de 2 anos que acabou de tirar as fraldas de dia, se esquece e .. esse sorriso, sim. Olhe-o nos olhos e mostre-lhe o anelar. No ring? .. continue a sorrir. Sim, calmamente. Depois conte-me se resultou.
Técnica 3
Aponte. Ande de livro e caneta na mala e aponte tudo o que ouve, todos os detalhes e pormenores, as horas e as primeiras versões de qualquer acontecimento. Vai ver que se vai divertir quando terminar esse caderno de apontamentos e tiver de encetar um outro. Ou não.
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A série short novel constituída por quatro pequenos episódios, é pura ficção.
Qualquer semelhança de atitudes ou comportamentos pode, contudo, não ser mera coincidência.

III

Vencido o primeiro round, começa a criar a fantasia desejada. Manipula, conquista, manipula, engana, manipula e consegue. Consegue a ilusão de um futuro que não tem a mínima intenção de partilhar, consegue a creditação de sonhos completos, ele que de tão incompleto cabe de frente num pequeno espelho de bolso, consegue o que se propôs até chegar ao ponto de não-retorno.
Aí é simples.
Esfuma-se no ar. O telemóvel emudece, os emails não têm resposta, as campainhas das portas avariam em simultâneo.
Enganou tantos durante tanto tempo que foi aceite nas famílias, nos respectivos círculos de amigos. Ficam elas a dar justificações e a tentar encontrar desculpas e explicações para o facto de o terem ouvido pronunciar com tal ligeireza as palavras quero-te e amo-te que se tornou banal ouvi-lo da sua boca enquanto lia o jornal ou pedia um café.
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OBS:
preste atenção, vai ver que há um espécime destes bem perto de si. Se assim for não faça rigorosamente nada. Dentro de algum tempo, desaparecerá.
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to be continued

II

Tinha uma verdadeira fixação por mães sozinhas. Mulheres na casa dos quarenta, de preferência. Nem muito novas e irritantes, cheias de cobranças e mimo. Nem demasiado velhas e já endurecidas pela vida em solidão. Com quarenta anos, e sozinhas há algum tempo, com filhos ou sem filhos, as mulheres que lhe caiam na rede ainda tinham na cama o fogo de um corpo de garotas, incansável e insaciável que lhe permitia reviver os tempos áureos em que de manhã não se recordava do nome de quem a seu lado dormia.
Por outro lado eram suficientemente independentes para não lhe perguntarem a que horas chegava para jantar.
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to be continued

08-Jul-2009

I

Quem o conhecia chamava-lhe pura e simples The Gambler .. sem a sofisticação e sedução de um frequentador de casino, mas sempre com a prudência de se estar perante um predador. A pouca estatura não facilitava o perfil musculado que se pretende nestas ocasiões, mas ainda assim, cabelo mergulhado no gel e um no care estudado ao nível do vestuário permitiam-lhe um sucesso invejável, nesta fase da vida a caminho do meio século. Escolhia meticulosamente a sua vítima, avaliava-lhe as manias, traçava-lhe o percurso mediante meia dúzia de informações que recolhia aqui e ali, pronto para o ataque calibrava a sua arma, sempre pronta, mudava se necessário a chumbada, e investia certo do sucesso.
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to be continued

07-Jul-2009


Ninguém pode pronunciar-se acerca da sua coragem quando nunca esteve em perigo
François La Rochefoucauld
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Leio sobre a debandada. Maria João Pires, sensível e maravilhosa pianista, um dos ídolos da princesa lá de casa .. Miguel Sousa Tavares, polémico q.b. ou acima disso mas de quem me confesso admiradora da palavra escrita .. comecei com David Crockett .. sou-lhe fiel em todas as publicações até ao momento, ainda que discordando, ainda que concordando. Saramago .. Nobel da Literatura com responsabilidades maiores pelo prémio .. que não cabem no prémio.
Leio sobre a debandada de pessoas que têm algo a dizer sobre o País onde vivem, onde trabalham, onde era suposto serem felizes com o que têm que é tanto mais que tantos têm.
Foco-me na realidade que me rodeia.
Aposto que Dª Ernestina do pequeno atelier de costura, hoje às moscas, na esquina da rua onde moro, gostaria de poder partir deste País que não a ajuda a sustentar os três filhos que tem em idade escolar. Ainda no outro dia, em conversa na fila da padaria me confidenciava que não sabia como iria manter os três na escola no ano que em breve começa. E por falar em padaria, a Dª Amélia, padeira de sempre, amiga da Minha Avó, senhora que atravessou uma guerra, o fim do regime e tantas outras ondulações perigosas e quase fatais, me dizia também, metendo a colherada na conversa, que parecia impossível como até do pão as gentes tinham de desistir. Ficou-me a frase desistir do pão; já acabou com a fornada de croissants estaladiços às 18h porque ninguém compra. As encomendas de sortido, areias e lagartos de manteiga, caíram para metade do que toda a vida vendeu, e deixou de ter fiambre e queijo e chourição, que os garotos da escola já nem lá entram a pedir o lanche reforçado de antigamente. devia ter ido embora quando ainda tinha idade rematava de sorriso triste por debaixo do lenço branco imaculado que lhe esconde os cabelos igualmente brancos. Da vida.
A televisão fala do número de desempregados o que até há pouco tempo me parecia uma realidade lateral à minha; até os meus amigos começarem a perder empregos sem conseguirem arranjar outros em troca. A princesa lá de casa chegou, na última semana de aulas, com duas notícias tristes: duas das colegas não vão para o liceu. Vão sair de Lisboa com os Pais. Estão desempregados e não têm como pagar as casas, rematava a miúda com olhos de drama.
Aposto que também estes gostariam não de sair de Lisboa, mas do País em busca das promessas de vidas melhores.
Leio a debandada.
E foco-me na minha realidade que ultrapassa em drama qualquer queixa, qualquer achaque ou querela, qualquer desânimo que os que agora viram as costas a Portugal possam estar a sentir.
E estes, os anónimos, continuam por cá a tentar. E a acreditar.
Era bom que alguém lhes desse tempo de antena. Estou certa que teriam algo a dizer. Também.

06-Jul-2009

Há uma certa vergonha em sermos felizes perante certas misérias
Jean de la Bruyère
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Tens de arranjar alguém que te faça isso!, atira-me esta amiga a quem tudo se permite, ao ver-me dedicada, num sábado à tarde, à pilha de roupa para passar a ferro, de sorriso nos lábios.
Credo! Era lá capaz de passar horas aí! continua, a franzir sobrolho, olhando-me qual peça de raridade exposta em prateleira bafienta, enquanto abre a portada da janela da cozinha e acende um cigarro. Sorrio interiormente enquanto dobro com paciência e sem vincos as t-shirts da princesa. Avesso, direito, vira, roda passa, não vinca, mangas para dentro, etiqueta direita. Já está. Continuo com peças maiores e outras mais pequenas, ela de olhos fitos nas minhas mãos, para lá das minhas mãos, da tábua e do ferro, aposto até que para lá da minha cozinha. Bate o tacão no chão e esmaga furiosamente o cigarro no cinzeiro. Olho-a serena. Sei que algo a atormenta. Deixo que me conte o que é.
A princesa toca à porta aberta com os nós dos dedos, ela sorri-lhe em silêncio, abre a porta do frigorifico, iogurte de cereais e prato com pão e queijo, beijo de fugida no braço da mãe, sorrio de novo, bate a porta do frigorifico e a garota corre para atender o telemóvel. Abana o papel, um dos vários papeis presos com ímans na porta do frigorífico, uns com recados, outros com contas, mas abana agora o papel branco rabiscado pela princesa, no vento que entra pela janela e levanta a cinza do cigarro acabado de apagar. I love you mummy, diz o papel ao vento, I love you more than a trillion, gritam as letras coloridas em brincadeira de menina pequena quando ainda mal falava e respondia ao how much? com um duzentos e mil. Rolam cara abaixo duas lágrimas grossas. Chora a minha amiga, empoleirada nos seus saltos de 20cm, outro cigarro em punho, cabelo irrepreensível, maquilhagem sem mancha. Fixa o papel para além do papel e murmura baixinho era lá capaz e no entanto às vezes penso que é tudo o que quero.

03-Jul-2009

balance sheet

Balanço fora da época
Gosto de balanços, eu. Já escrevi isto algures por aqui. Se não neste livro em outro qualquer. Gosto de balanços e desta formazinha irritante de colocar o eu no final das frases. Bom .. antes no fim que no centro. Nada pior que eus no meio de tudo. Ao centro de tudo.
Mas gosto de balanços. E de fazê-los fora de época. E de aprender algo com isso. Ano lectivo superado .. menção honrosa, melhor aluna, excelentes notas. Menina bonita por dentro e por fora, a minha filha. Que mais posso pedir, pensava ontem na cozinha enquanto a ouvia ao telefone com a prima em combinações de férias e dormidas fora, perguntas atropeladas e risinhos de quem esconde segredos. Nada. Não posso pedir mais nada. Mesmo.
Tenho trabalho, tenho saúde. Tenho casa e o meu frigorifico está cheio de comida. O carro parado à porta não é nenhum último modelo, mas anda. E é meu. As prioridades da minha vida passam por coisas simples. Ser feliz, sorrir, trabalhar, amar, acompanhar, criar, enfim, verbos simples de conjugar, seja em que tempo for. Nada de extraordinário. Escrevo que me farto, coisa que adoro fazer. E falo pelos cotovelos para impaciência dos que me amam. Impaciência controlada claro que é tudo gente bem educada ;) .. já tive férias, e ainda vou ter férias. Com a família, entre amigos. A mais-que-tudo muda de liceu este ano, vem um 7º ano a caminho, no liceu dos crescidos .. mais crescidos .. às vezes penso como foi que passaram estes anos todos desde o primeiro dia de aulas do 1º ano que me parece ainda tão próximo :)

Gosto de fazer balanços, eu. E ainda que nem tudo na minha vida seja o mar de rosas que por vezes espelho por aqui, um mar flat sem grandes desavenças, ondas gigantes ou tsunamis, acabo este com um sorriso e um obrigada que murmuro para dentro. Obrigada.
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Have a nice week-end you all *

02-Jul-2009

more shadow than substance*

E se um dia achares que podes voltar atrás, esquece.
Não é para todos o lema nipónico “mais vale voltar atrás que perder-se no caminho”
Para ti, que te perdeste muito antes disso, resta-te seguir por outro. Paralelo.

E se um dia te lembrares de que cor são os meus olhos, fecha os teus.
Vais ver que a imagem desaparece e o lago profundo das lágrimas que já chorei dará lugar ao sol que agora me aquece e me afaga.
Na tua vez.
Em vez de ti.
Apagando-te a sombra.
É isso.
Está apagada a tua sombra.
Em dias de sol.
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* another british saying

just think about it

"considere-se um mundo com um homem no centro. considere-se que não se trata de um homem qualquer mas de um humanista puro. considere-se este um homem perfeito. considere-se que não há conflito semântico entre os vocábulos homem e perfeito – ou seja, ignore-se a antítese. ignorando a antítese é-se forçado, consequentemente, a ignorar todos os lexemas com significado, ainda que remotamente, ligados ao conceito de posições opostas. ignore-se, portanto, as palavras oxímoro, antónimo, desavença, conflito. poder-se-ia forçar o esquecimento da guerra e seus sinónimos. assim seja. consequência: este homem no centro do mundo, sendo perfeito, aperfeiçoou-o. de repente, um mundo antropocêntrico deixou de ser uma ideia renascentista, logo, arcaica. missão: encontrar o homem perfeito. matá-lo."
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Tiago Sousa Garcia em A Portrait of a Man as a Young Artist .. young but mature, i would add.