23 Dec 2008



Novo ano.

Novinho em folha e a estrear. Ali ao virar da esquina. À minha espera. E à espera de tudo o que a minha vontade lhe deite dentro. Um novo ano. Ímpar ainda por cima. Sempre acreditei mais em anos ímpares .. os outros são demasiado redondos ..

Que este que nos "espreita" o seja realmente .. *


Por aqui, Mãe e filha vão, em breve, de férias, com direito a New Year’s Eve. Bem o merecemos ;)
Para um local paradisíaco cujo único problema será: arranjar vontade para de lá regressar.

Mas regressaremos claro .. para vivermos este 2009 como ele merece. De novo. Como novo.

Ficam os nossos Desejos que o Natal seja Santo e em Paz .. e que concretizem as entradas no novo Ano da forma que o desejarem .. ;) nós, é o que tencionamos fazer *

22 Dec 2008



tenho algumas dúvidas sobre quem está mais animado com o Natal este ano .. se a Avó .. se os netos .. ! acho que vou deixá-los entregues uns aos outros e vou tomar um café .. (risos) *


é do cansaço, senhores, é do cansaço .. !

19 Dec 2008

sem tempo para muito mais .. e com um fim-de-semana de reencontros à porta .. desejo que o vosso seja tão bom quanto sei o meu vai ser :)
Hasta Lunes *
PS_ sim, sim, eu sei que tenho um pc em casa mas e tempo senhores? ;)

18 Dec 2008

intimism (xxii)

O cartão de natal feito pela princesa, em escada. Um presépio no degrau superior, a cartolina devidamente dobrada, colada, pintada .. um texto a dourado convida para o Almoço de Natal Pais e Alunos .. mais uma vez surpreende-me a Directora de Turma da minha mais que tudo. Um almoço por ela organizado, promove o convívio entre os Pais, as crianças, os professores deste 6º Ano cujo primeiro período agora termina .. as notas sem mácula, nada mais posso exigir .. se é que exijo assim de verbo feito.
O almoço antecede a festa de Natal preparada pelos Professores e Alunos. Em várias salas quase em simultâneo, toca-se flauta, interpreta-se um Xmas Carol, elevam-se cânticos de Natal no ar frio dos pavilhões decorados.

Gosto do Natal.
Gosto muito de tudo o que esta Quadra proporciona e representa. Mais que em qualquer outra altura do ano .. pelo espírito, pelo significado.
Conseguindo concentrar-me no simples para lá da hipocrisia que tantos denunciam .. é simples. Conseguindo, sem esquecer, ver sorrir todos os que já partiram e me fazem especial falta nesta altura .. é possível.

Pela segunda vez esta semana a minha princesa pede-me que não me atrase. .. não me atrasarei Querida .. até já :)

17 Dec 2008

.. de referir que a da princesa ficou perfeita .. ao contrário da da mãe, completamente mal enjorcada .. a cracker! a cracker ..!
.. so, isto repõe-me a esperança na geração vindoura .. !
Intimism quer dizer intimismo.
Coisa íntima. Do foro particular. Porque a espelho por aqui? Porque sim.
Personal stuff significa pessoal, tralha intransmissível, nicas, tricas, futilidades e bagatelas, dicas minhas. Não percebeu? Porto Editora on-line.

Estou prestável eu ..
E como recebi um correio electrónico com perguntas pertinentes reveladoras de uma preocupação legítima e sincera, quase comovente, com que alguns .. alguns? Não estou certa. O tipo de letra não é delator e o apelido pouco identificativo. Mas dizia, preocupação essa com que me brindam e, em boa verdade se escreva, não se justifica ficar sem resposta, não quero ser responsável por qualquer úlcera em sede de ausência .. quê?!

Ok. É só isto. O resto fica para quando tiver tempo .. oh tempo ;)
"Voyeurismo é uma atitude que consiste em invadir a privacidade das pessoas sem o conhecimento das mesmas. (...) o termo Voyeur vem do francês, que literalmente significa: Cuidar da vida alheia, o que faz com que um voyeur seja muito parecido com outras pessoas que ninguém suporta, os fofoqueiros.


mantive a versão brasileira da coisa de propósito. É que o termo fofoqueiro é um .. must *

tenham juízo, andem!

16 Dec 2008

No quiosque da Olá peço um sundae de caramelo.
O moço solícito e simpático, desejoso de me dar a conhecer a última das últimas, pergunta-me e o filme? .. filme? Que filme? Pergunto de volta. Ao escolher um sundae tem direito a um filme, olhe aqui a lista dos dvd’s disponíveis.

Bloqueei.
Basilar eu.
Só queria mesmo um sundae de caramelo.
Chatice isto ..

15 Dec 2008

eu deixei passar a data em branco .. shame on me .. mas o que me desculpa é que o Autor também .. ;)
Parabéns Caro Hélder, Amigo, Conterrâneo, leitura diária * que venham mais 4 ou tantos quantos os que a vontade lhe ditar!

Xmas crackers? i've tried ..


até à meia-noite .. sim, sim, até às doze badaladas, afincadamente, na mesa da sala, profusão de laços, gomas, mensagens de Natal, papelinhos e rebuçados .. tentei com o primor que via todos os Natais a minha Avó fazê-las, e era tão fácil naquela altura ..

mas ..!

não, não vou mostar o resultado, que adorava fosse tão badalão quanto o da fotografia ... ;)

intimism (xxi)


Último ensaio às 10h de sábado Mummy, informa-me a princesa.

Para a actuação às 11h .. todas as classes de rítmica prontas e vestidas, cabelo bem apanhado, brilhantes e pintura suave. Estou nervosa Mãe .. atira-me à entrada no carro, depois de mais duas horas de estica, pula, salta, roda, pé em ponta braço em arco. Sorrio e preparo-me para mais uma exibição. Desejosa de ver que faz ela com dois meses de aulas, numa turma de crianças mais velhas, a minha pirralha, que este ano deixou o ballet para se dedicar à ginástica rítmica.
Sábado. 08h00 .. salto da cama, preparo-me e acordo-a. Veste o fato por debaixo da roupa, está um frio de rachar e um temporal que só visto. O vento fez estragos, a chuva não pára de cair, a nossa rua já parece um rio respeitando a tradição de todos os anos por esta altura ..

Eu disse 08h00? E eram. Estou certa que eram. Mas na próxima miradela ao relógio da sala en passant direita à cozinha, brinda-me o velho mostrador recuperado com a seguinte informação: faltam vinte minutos para as dez. Hein? Como assim? ..
Um corre-corre, rodopio de mochila com as calças para a actuação, as meias para o aquecimento, mais gel no cabelo que a opção de escadear os longos cabelos este verão foi uma má opção, ganchos em arco, carrapito no cimo da cabeça, blush, pouco baton, estou nervosa mummy .. vai comer, anda, que isso passa .. e tempo?! Oh tempo castrador e inflexível que passa na ponta do ponteiro mais depressa que eu consigo dizer “estamos atrasadas”! e eu falo depressa .. como sabem!
Era só atravessar a rua, direitas ao pavilhão alugado pelo SAD para a apresentação pública das suas alunas. Só atravessar a rua que na loucura da enxurrada pareceu-nos tarefa hercúlea sem um chapéu-de-chuva. Abre o carro, porta bagagens, chapéu preto. Não era difícil mas ao fechar, a chave do carro entalada sabe Deus como, ou nem ele saberá acredito, partiu-se ao meio. Boa! Temos uma de substituição Mummy, grita-me a princesa da entrada do prédio. E eu sei onde está! Ufana e contente, galhofa com a desorganização da mãe .. (já me penitenciei por aqui, nem pensem que o volto a fazer) ;)

10h05 – corre pelo pavilhão fora, as professoras de sorriso radiante acolhem as ginastas para os aquecimentos e último ensaio. Dá-me um beijo repenicado, segredo-lhe o muita m*** da tia Nocas “não te atrases mummy, começamos às 11h00
Aguentei estóica. Juro que sim. Aplaudi, tirei algumas fotografias, cantei ao som dos Abba, adorei todas as coreografias. A classe dos 6 anos, as pré-olímpicas, as meninas de competição, massas, bolas, fitas, arcos.
Ao ouvir o nome dela, a pose em pontas, o braço esticado, o agradecimento de sorriso, os olhos ao longe .. descambei!

Uma mãe não é de ferro .. desengane-se quem pensa o contrário!

12 Dec 2008

pior que a reportagem que fizeste sobre os sem-abrigo de Lisboa mais ou menos na mesma altura, perguntei ao meu irmão, profissional envolvido .. sobre o que se vê aqui.

Muito pior, respondeu-me.

É da época dizem alguns .. é do "com o mal dos outros eu não vivo bem" costumo responder.

Porque além de concertos de natal há por este mundo fora natais sem conserto.

xyz

Quando é grande a necessidade de justificação, como que a lembrar constantemente o interlocutor de algo que se sabe ele não esqueceu, o grau de segurança nas afirmações passa a diminutivo, perde peso, torna-se ridículo e proporciona a fácil identificação da mentira por detrás da verdade que se quer manter, a todo o custo, oculta.

Maldita visão raioZ

;) Bom fim de semana
.. há concerto de Natal no CCB just in case

11 Dec 2008

up close & personal

Saía todos os dias a correr da faculdade à hora do almoço directa ao hospital. Levava no saco de papel uma maçã e as palavras cruzadas que havia recortado do jornal do bar. A avó adoraria poder fazê-las logo que acordasse, estava certa. Subia apressada a íngreme rua, apanhava aquele autocarro no limite do horário e graças ao arranque lento do motorista quando a não via. Sabia-lhe o percurso de cor e todos os dias lhe perguntava: está melhor? ..
Entrava no Hospital sempre à mesma hora, todos os dias, e perante o ar condoído da enfermeira arvorava o seu melhor sorriso de esperança, pura e vã esperança ela sabia, mas como deixar de acreditar?
E se deixasse de acreditar não quereria dizer que desistia?
E desistindo, Deus levá-la-ia mais cedo. Tinha a certeza.
Hoje ia com um aperto no estômago, falta de alimento de certeza que a maçã continuava no saco, não poderia ser mais nada que isso porque não tinha o dom da adivinhação e muito menos conseguia prever o futuro. Portanto, era só e mais nada .. fome! Ouviste bem? perguntava-se na sensação em crescendo que algo se tinha passado depois de ontem. Ontem a avó havia-lhe contado um sonho estranho. Ficara em pânico sem querer ler nas entrelinhas, recusando-se a interpretar. Não.
Hoje a enfermeira não a esperava. Sentiu a falta do seu ar condoído. Correu pelo corredor fora de coração na boca, tentando calar aquela voz. Não era a sua voz. Que voz era aquela?! A porta do quarto da avó estava aberta. Entrou de rompante.
A cama feita, lisa, branca, impessoal.
Como se ninguém a tivesse habitado.
Ou como se há muito tivesse partido.

Another year goes by since you gone Granny, and I still miss You .. I really, really do.

10 Dec 2008

Ainda não são suficientes.

intimism (xx)


Uma manhã inteira para fazer a Árvore de Natal.

Cada ano que passa demoramos mais tempo atira a princesa do reino, na galhofa, fitas douradas no cabelo e estrelinhas soltas agarradas à camisola. O cesto, eu já falei nesta coisa das cestas de natal não já? Claro que sim, mas escrevia, o cesto de Natal sai da despensa carregado de adereços dos quais já não nos lembramos. Os sinos, os ursinhos do tempo da minha avó, uma decoração bem britânica com ares de antigo, as bolas vermelhas, só vermelhas que saltitam pelo chão da sala e se escondem debaixo do sofá e atrás da estante dos livros como se brincassem às escondidas. Os trabalhos feitos pela mais que tudo, cartões de Natal coloridos, fotografias com o Pai Natal na altura em que ainda se tiravam fotografias com o Pai Natal .. mum, olha-me aqui tão pequena! A estrela dourada e enorme com direito a honras de a 4 mãos ser colocada no topo da árvore que primeiro se arma, alisa, esticam-se as hastes e depois se enfeita matematicamente. E digo matematicamente porque a miúda coloca e afasta-se a apreciar o efeito, e este ramo está muito nú, aquele tem coisas a mais, põe e dispõe num desassossego de fitas, bolas, enfeites e colares de pérolas. Todos os anos compramos um pequeno enfeite, e aproveitamos quase todos os de anos anteriores .. memórias de Natais passados, dizia a minha avó, e desejos para Natais futuros .. e lembro-me que na altura eu acreditava que aquela pequena peça para o presépio, ou as fitas que de prateado passavam a dourado naquele ano, encerravam todas as memórias e todos os desejos. E no Natal seguinte, apurávamos quantos os desejos concretizados e os sonhos tornados realidade. E confiávamos.

Mummmmyyyyyyy! Oiço de repente, sinal que me chama há que tempos .. ;) ficou linda não ficou?? Ficou perfeita princesa .. e como brilha a nossa árvore este ano .. pudera .. foram tantas as concretizações e está carregadinha de desejos para o próximo ano .. oxalá ;)

9 Dec 2008

"Opportunities are never lost;
someone will take the ones you miss"


oportunidades há que é melhor, preferível, indispensável .. perder.
Sem despeito mas com um imensurável alívio.

Once again .. thanks time *

pieces (v)

Range o vento na janela, uiva à porta fechada. Salta pela frincha do tempo e invade a assoalhada. A manta rala e curta não tapa o corpo deitado. Há uma malga no chão sujo, pedaços de comida seca e bolorenta, um cheiro a bafio e a suor invade o nariz mais sensível demovendo quem tenta aproximar-se. Cartões espalhados, um gorro de lã e um casaco pequeno nas costas de uma cadeira sem perna. Na mesa de madeira, tosca e torta, um jarro de vidro de boca partida, uma mistela, zurrapa de algo vermelho .. ou negro.
Tosse constante o corpo deitado.
Agonia em leito perto do fim.

Brilham as luzes pela rua. Das janelas abertas, a sala cheia de gente, emana um calor apetecível. A lareira crepita em achas bem colocadas de forma a fazer o lume quente, acolhedor. As meninas da casa vestidas de vermelho, fitinhas brilhantes nos cabelos sedosos, compridos. Rapazolas de fato azul-escuro, camisa branca e gravata desafiam a lei da gravidade em cavalitas no corrimão. Adultos bem vestidos, arranjados, simpáticos e generosos aparecerem com os braços cheios de embrulhos, laços vistosos de todas cores e etiquetas a condizer. Acumulam-se na árvore de Natal enorme, quase a tocar o tecto, decorada em tons de dourado e vermelho. A mesa posta a preceito, toalha de linho, antiga, bordada, brilham os copos e os talheres aos quais alguém puxou o lustro, demoradamente. Há um tchim tchim constante no ar, gargalhadas, brilhos e sorrisos.
Tens visto o Pedro?”, pergunta a voz cansada da avó, cerimoniosamente sentada no cadeirão de cetim, almofada confortável nas costas. O cabelo todo branco está arranjado para a ocasião, as faces num leve pó de arroz marcadas pelas rugas de uma vida e nos olhos uma imensa tristeza. Falta-lhe um filho ali. O seu filho. “Não, mãezinha .. há muito que ninguém o vê”! mente-lhe caridosa a filha mais velha.

Há muito .. ninguém.

5 Dec 2008

intimism (xix)

(imagem da net)

O Tempo é um ser responsável.
Sem sombra de dúvida.
Assim lhe deiamos o tempo necessário para seguir o seu percurso, fazer a sua estrada, corrigir aquela lomba ou saldar o buraco que alguém se encarregou de escavar seguindo em frente sem se preocupar com quem vem atrás.
O tempo. Esse bem inestimável, por vezes, tão pouco considerado, nos ditados que são imensos e até nas lengalengas em boca de criançada. Ultimamente, confesso que tenho pensado ser o tempo uma das melhores dádivas que a vida me concede.
Tempo para me divertir, para pensar, para ler, para acompanhar crescimento da minha filha, para me encantar, para me voltar a apaixonar.
Tempo para me consumir a trabalhar pedindo às horas que se desfaçam em horas, que o dia se prolongue. Tempo para poupar ou para gastar. Para rir .. o que eu gosto de rir, para chorar. Para ouvir, conviver, correr, sair, andar devagar. Tempo para me espantar, para descobrir, para ouvir quem precisa ou interromper.
Para me recompor, sabendo que para chegar à recta que prevejo lá ao fundo onde o sol brilha de novo, vou ter de superar este obstáculo aqui, desacelerar na curva à esquerda, abrandar talvez ou quem sabe fazer um compasso de espera para que o tempo me dê tempo de lá chegar.
Tempo do tempo que tenho para Viver.
Sem conta de deve e haver, sem balanço mas sempre e acima de tudo tentando não perder a razão.
Tempo.
Obrigada.

(que o vosso seja excelente nestes dias que se aproximam)

4 Dec 2008

Claro que podes .. todas as que quiseres, diz-me, simpático, o Miguel à minha incursão num “posso roubar” descarado .. e roubei.
Gérard Dubois
Porque me lembra as gravuras da minha infância com as letras de “B as for ball”. Porque o traje me recorda os conjuntos que vestiam os bonecos que de papel eram feitos e recortados. Porque a inocência do “mundo é uma bola de algodão” deixou de estar na minha mão mas há sempre algo que nos relembra que fomos crianças. E eu tento, sei que tento, e nem me posso queixar muito porque na maioria das vezes .. consigo, manter aceso o pequeno brilho de espanto nos olhos da criança que fui.
Mesmo quando os problemas apertam, as soluções estão tão lá à frente que nem o maior dos optimismos as aproxima e a cretinice ladeia-nos fazendo-nos exasperar. Ou tentando ..

remembering

Recebemos um postal de Barcelona.
De uma amiga querida, muito querida, que por lá trabalha. Que por lá está a viver. A princesa do reino agarra-o e lê-o de um fôlego, confessando de imediato imensas saudades. Da Amiga e da cidade onde nos perdemos por cinco maravilhosos dias aqui retratados ;) engraçado como se despoletam as memórias.
Felizes com as notícias, serviu a lembrança para se ir buscar o diário daquela viagem específica (sim eu sei soa a coisa antiga mas temos um diário de viagens onde escrevemos .. a caneta!) e nos rirmos (ou melhor, ela rir-se .. !) com passagens do género “a mummy, de mapa de metro na mão conseguiu perder-se duas vezes hoje.” .. engraçadinha.

Que por aí sejas tão feliz quanto nós fomos Chérie*

3 Dec 2008

Eu sempre tive dúvidas que um mesmo chapéu servisse várias cabeças.
Acabaram de mas dissipar.
Obrigada :)

intimism (xviii)

Aterramos as duas no sofá, a manta quente e confortável, enrolamo-nos e ficamos naquilo a que chamamos o “melhor momento do dia” .. aproveito todos os minutos em que assim ainda é, certa mas não nostálgica que dias virão em que o farei sozinha e ela em amena cavaqueira no vão de escada ou no café, com amigos, amigas, namorado talvez .. a conversa sai solta e gosto de a observar enquanto me vai contando de que foi feito o seu dia. Trabalhos, estudos, o ensaio da peça de natal do atl, este ano com direito a exibição pública, os exercícios da rítmica, o sarau está à porta, mais trabalhos, a professora de português que só ralha com as raparigas, o professor de música que leva a mão ao peito e faz um esgar de dor de cada vez que a nota da flauta sai desafinada “é um melodramático mãe”, eu rio-me, ela continua, com a presença de uma menina nova na turma, acabada de chegar por transferência e mudança de casa, vive com os avós, ainda ninguém lhe perguntou pelos pais, com medo que a resposta faça desabar as lágrimas que sentem presas nos olhos. Olhos verdes, diz-me a minha filha, ela tem olhos verdes mummy, mas sempre à beira do choro. Passa o assunto para os balneários do SAD, a propósito não sei de quê vem à baila a rapariga que não se despe em frente às outras, por pudor ou vergonha, ninguém sabe muito bem. Já é crescida, tem 15 anos mas bate com as portas da casa de banho e fecha-se lá dentro de cada vez que aparece uma outra, roupas penduradas por todo o lado e um despudor próprio de quem pratica desporto. Não sei como consegues, atirou-me no outro dia quando estávamos só as duas, eu a calçar as meias e a vestir o maillot, ainda era cedo, e eu respondi-lhe como consigo o quê? Achando que ela se estava a referir a um qualquer exercício que fazemos na aula, sabes que os exercícios para o sarau são dificílimos mummy? .. aceno a cabeça para não a interromper. De repente pára, absorta num qualquer pensamento, pergunto-lhe “so?” ao que me pergunta de volta (mania hereditária esta) “porque é que algumas mulheres têm vergonha de mulheres mummy?” … quedando-me eu no pensamento de quantas já conheci na vida com vergonha delas próprias. Falo-lhe da educação recebida, dos tabus, da preservação da intimidade a que sempre a aconselhei, no facto de muitas não gostarem de si mesmas e por isso não gostarem de se expor, prelecção exaustiva notando-lhe um sorriso a despontar, matreiro, olhinhos ternos ao rematar, a despropósito, ou talvez não: “é tão bom que sejas tu a minha mãe mummy” .. consciente que este pedaço de felicidade que partilhamos por sermos quem somos se deve a um acidente de percurso. Nada mais.
E eu dou Graças por seres a minha filha .. todos os dias.

2 Dec 2008

.. descobri no Tim o Projecto da Patrícia Lino .. Obrigada Tim, Boa Sorte Patrícia .. que se concretize a mais valia com que nos brinda!
Obrigada Miguel. Esta vem a calhar, hoje.

What's the day for today? Freedom, they said.

"Saibão quantos este publico instrumento virem, que sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil oito centos e setenta e dous, aos vinte e hum dias de Maio do dito nesta Freguesia de Santa Anna do Pirapetinga Termo da Leopoldina Comarca do Rio Novo e Provincia de Minas, em meo Cartorio compareceo perante mim escrivão, O cidadão Vicente Ferreira da Silva morador nesta Freguesia do meo conhecimento e das testemunhas abaixo assignados perante as quaes por elle foi dito que é Senhor, e possuidor de hum escravinho de nome Pedro, de idade de oito meses e quatro dias, filho de sua escrava Silvana, ao qual concede plena liberdade como se nassesse de ventre livre, isto de muito sua livre e espontanea vontade, e de como assim o disse me pedio este instrumento em meo livro de nottas para a todo o tempo constarem o qual assigna com as testemunhas, com migo Manoel Jose de Magalhaens, escrivão que escrevi e assigno em publico e razo."


Carta de liberdade ao filho de uma escrava.
Data: 1872
Há precisamente 136 anos.
Parece muito mas se olharmos à nossa volta percebemos que não é.
E que há uma imensidão de coisas para fazer.
Coisas que não passam por algo tão linear quanto assinar os destinos da vida de alguém.

28 Nov 2008

mulheres .. !

Juntam-se as amigas num almoço. A conversa versa sobre nada e sobretudo sobre tudo. Fala-se dos filhos, das conquistas e das perdas, das saudades de outras coisas, dos projectos, do Natal, da Passagem do Ano, da crise, dos apertos, dos empregos e dos chefes, e a conversa cai, aos trambolhões, na internet. Elogiam-se as páginas pessoais. Engraçado tema de conversa em pleno século de tecnologias. Apreçam-se os textos e os temas. Critica-se.
O mulherio é insuportavelmente exímio na arte da tosquiadela, como espero que todos saibam.
Aquela que se espelha e se espalha “se a criança um dia vem a saber nunca lhe perdoará” atira a Maria, acutilante como sempre e leitora atenta de tudo e de nada, “Não sejas mazinha” respondo-lhe .. A outra que ataca de forma brilhante tudo quanto é política .. já que políticos temos poucos “gostava de escrever assim!”. A senhora das letras, que escreve como poucas, as imagens, fotografias e afins que nos encantam o olhar. Os blogues a quatro, oito, doze mãos, sempre valiosos quando o que se pretende é informação variada tal como variado o ponto de vista sobre a mesma. As páginas de poesia, aqui estamos de acordo, há duas ou três das boas no nosso universo de leitura.
Os pseudo-literários, intelectualismo de alcatifa, cujos autores arremessam postas de pescada à cabeça dos desacautelados, com um humor duvidoso pretending to be ironic .. (Credo Meninas .. !) os verdadeiramente literários, onde aprendemos sempre qualquer coisa que mais não seja as últimas novidades em termos de publicações, os levezinhos e agradáveis com anedotas e citações, os que nos fazem por vezes verter uma lágrima e até aqueles com quem não perdemos dois minutos de leitura, os outros que servem de “embraiagem”, apuradíssima técnica de favo-de-mel a escorrer das letras, ou os copy-pastes assinados, sem indicação de autor, leia-se o autor real tenha ele dez anos ou um século, atitude a raiar a arte da patetice.
Nossa Senhora, dissemos isso nós? Dissemos.
Depois os outros que pressupõem a existência de alguém realmente conhecedor, possuidor daquilo que chamamos “caco” e “bagagem”, onde fazemos descobertas de temas interessantes, ou recordamos outros tantos. As zangas na internet, o bate porta dos ofendidos das caixas de comentários, o ridículo do “keep on reading” depois de uma atitude dessas, amém ao site meter, mais gargalhadas, as querelas blogliticas e os recados. Como diz alguém que todas gostamos de ler “quem nunca mandou um recado que atire o primeiro post”. Actualizam-se informações sobre quem escreve com quem, quem saiu e quem entrou da blogosfera, os que conhecemos e os outros. À distância do acontecimento, rio-me, que assunto! E que diferença dos assuntos que provavelmente pautaram as conversas das nossas mães quando tinham a nossa idade.
Numa coisa estamos todas de acordo.
Foi difícil arranjar um tema em que estivéssemos mas neste estamos .. irredutíveis.
Os comentadores das nossas páginas merecem-nos sempre uma resposta. Sejam da pandilha ou não. Conhecidos ou amigos ou não ou nem. Com “nicks” portugueses, estrangeiros ou simplesmente anónimos.
É uma questão de princípio. Porque sim.
E fica o recado dado ;)

Agora vou de fim-de-semana xl que isto de destilar fel não é para mim .. deixou-me a modos que .. exaurida ;)
Nice week end to you all *

27 Nov 2008

"Hope is a belief in a positive outcome related to events and circumstances in one's life"
Porque não sei o que me custou mais:
se ter acreditado que não choravas, se ver-te chorar .. se saber porque choras.
Abraço Meu *

homage (ii)

Foto de LB nos Outros Olhares

Passa pela última vez sob as arcadas que o protegeram da chuva nos últimos trinta anos.

Leva ainda na boca o sabor amargo do champanhe e da fruta cristalizada do bolo-rei com que lhe fizeram a festa de despedida. Recorda os olhos húmidos da secretária que amarfanhava o lenço de papel com cheiro a eucalipto. Os sorrisos forçados dos colaboradores a quem não foi dada qualquer explicação. Os outros, consternados, lamentando a partida que não se julgaria para já.
As palmadas nas costas soaram-lhe a castigo, e os beijos sentidos a intimidade forçada.
Passa pela última vez sob as arcadas que o guiaram nos últimos trinta anos.
Recorda com nostalgia quantas vezes as percorreu a correr, devagar, com enfado, desejando estar em outro lugar, quantas vezes conjecturou o futuro, quantas vezes pensou em como seria este dia.
O dia da reforma.
Passa assim uma vida. Trinta anos de trabalho. Ensombrasse-lhe o olhar ao pensar como iria reagir a família, se a tivesse. .. que fará doravante? Haverá futuro?

Percorre-as.
Calmamente.
Saboreando a última vez.
Arcadas, companheiras de vida.

26 Nov 2008

it's xmas time ..

.. era um tempo mágico
.. as últimas semanas do mês de Novembro eram tempos mágicos ..
Da despensa da avó saíam como que por milagre uma série de pequenas cestas de verga.
Cestas com um cheio característico. O cheiro do Natal.
E todos os anos, por esta altura, ela esforçava-se por decifrar de onde vinha aquele brilho, aquela .. neve assim que as cestas eram colocadas no chão da cozinha.
Convenientemente embrulhadas as pequenas figuras de gesso, pintadas à mão, preparavam-se para tomar os seus lugares no presépio forrado a musgo apanhado no quintal. Um presépio decorado com pinhas, folhas amarelas secas dentro dos livros, uma prata amachucada e depois alisada que fazia de rio, pequenas ovelhas, pastores, meninos e meninas de prendas na mão, os Reis Magos, camelos e vacas e burros .. e a “casa” do Menino Jesus.
Era com um cuidado ensinado e quase de respiração suspensa que se desembrulhava a pequena manjedoura, o Menino e seus Pais, aquela vaca e aquele burro que tinham honras de com o seu bafo quente aquecerem a figura do pequeno bebé envolto num pano branco. Era um fim-de-semana de alegria antecipada, a decoração da casa levava um dia inteiro, com estrelas brilhantes feitas de papel e fitas de todas as cores a pender das portas. Na entrada principal uma grande coroa feita por ela com a ajuda da avó em pequenas e delicadas folhas verdes, pintalgada de vermelho e branco, dava as Boas-Festas aos visitantes. A vela acendia-se perto do presépio e assim ficava até à noite do dia 24 de Dezembro por altura do nascimento do Menino.
Não havia Pai Natal .. a expressão era-lhe então desconhecida. As compras eram feitas em conjunto, grandes sacos e papel de embrulho para que em casa, uns dias antes do grande dia, serem todas embrulhadas com etiquetas personalizadas.
Os desenhos no papel pardo de sua autoria e a avó comprava grandes rolos de ráfia para fazer laços e prender os embrulhos cuidadosamente. Avolumavam-se junto à árvore de Natal e ela sabia de cor para quem era cada um deles.Eram tempos diferentes, sem dúvida.
A alegria da surpresa só ultrapassada pelo pequeno-almoço copioso com direito a plum-pudding no dia 25 de Dezembro, quando ainda meio estremunhada e de camisa de noite às avessas chegava à sala e via as suas próprias prendas por abrir ..Tempos em que tudo tinha o cheiro da castanha assada, das filhós a fritar, das fatias douradas carregadas de açúcar .. do bacalhau que até se comia com gosto na consoada, e dos tachos ao lume, carregados de couve e batata, a gotejar perante o “desespero” alegre da avó que “no hands for all of this .. no hands at all”.

.. tempo de férias e de celebração.
Tempo da Missa do Galo à meia-noite em ponto,
casacos grossos, cachecóis e gorros de lã,
e o beijinho no pé do bebé que tinha acabado de nascer para salvar os homens
.. dos homens.
Tempo de Natal.
texto já editado em Novembro de 2007.

25 Nov 2008

homage

"Para ensinar há uma formalidade a cumprir: saber."
Eça de Queirós, Povoa do Varzim, 25 de Novembro de 1845
Parabéns Mestre*

readings (viii)

Gostei :) .. e tenho por princípio um respeito imperturbável aos riscos contínuos da minha condução .. Este, promete!
Ora espreitem *

readings (vii)

.. passou a vício assumido passar por aqui para me deliciar com a brilhante conjugação de imagens .. :)
A Paula Crespo continua a escrever maravilhosamente .. sem tiques e laivos de outra coisa qualquer que não seja o escrever maravilhosamente ;)
Há várias pessoas que me encantam com o dom que têm em captar numa câmara muito para além do que os meus olhos abarcam .. O Luís, é certamente uma delas.
Hilariante, alegre, jocoso, acutilante, perspicaz, oportuno, talentoso, astuto .. é preciso mais? Duvido. Basta atestar aqui ao que me refiro ;)

(ii)

Tocou-lhe Beethoven, uma pequena parte da 9ª .. lembrando-se como se de memória fosse feita, onde colocar os dedos, (88 teclas dizia-lhe o professor de piano na infância).
Olhos fechados e corpo ligeiramente inclinado ao som das notas que lhe saem dos dedos, soltas e livres, ansiando por respirar.

Escuta-a de respiração suspensa e no final levanta-se, abrupto, “onde vais” pergunta-lhe em tom doce .. buscar o padre responde-lhe, fazendo-a sorrir.
És doido sabias?

24 Nov 2008

easier? what do you mean by easier?

Após uma conversa de fim-de-semana com uns amigos da “velha” guarda, dei por mim a pensar que a acusação banal hoje em dia versus a educação é o facilitismo.
O Hoje contrariando o Antigamente ou o “no meu tempo”. E as conclusão de quem, obviamente não tem crianças no 6º ano de escolaridade ;), é que facilitando nada de “bom” poderemos esperar.
Dediquei-me ao exercício de apuramento desta verdade que oiço e leio cada vez com mais frequência.
Eis as conclusões:

(A criança em questão é a minha filha que acabou de fazer 11 anos e frequenta o 2º ano do 2º ciclo)
Testes para a primeira semana de Dezembro
Português
Matéria: toda a conjugação verbal, formação de palavras por prefixação, sufixação, aglutinação, justaposição, graus dos adjectivos e complementos.
Texto com perguntas de interpretação. Pequena composição sujeita a tema no final.
Ciências da Natureza
Tabela dos Nutrientes e Roda dos Alimentos. Aparelho digestivo do homem, da vaca e da galinha.
A partir dos resultados de uma experiência feita em laboratório responder a questões relacionados com os mesmos.
Inglês
Toda a matéria desde o início do ano com enfoque no Presente Simple and Continuous.
The possessive case (pronouns, adjectives).
História e Geografia de Portugal
30 páginas – desde Lisboa Quinhentista até às reformas pombalinas.
Matemática
Paralelogramos – trapézios e não trapézios – construção e classificação de triângulos por ângulo e lado. Identificação e construção de simetrias.
Facilitado? Mas há mais:
Trabalho para Estudo Acompanhado – leitura de um livro por trimestre, resumo e análise de acordo com as directrizes dadas pela Professora.
Trabalho para EVT - a decoração da escola para o Natal (trabalho conjunto de várias turmas) e pequeno artesanato para a venda na quermesse da escola.
Educação Muscial - três peças em flauta, com um teste teórico pelo meio, uma das peças para actuação nos festejos natalícios do Concelho.
Educação Física - ao abrigo do Programa Pessoa, acrescem 90 minutos semanais às aulas correntes. Testes físicos de velocidade e endurance em todas as aulas, 3x por semana, e um teste teórico no final de cada período lectivo.
Moral: trabalhos de pesquisa e constituição de cartazes, textos, sensibilizando para a causa escolhida - este período lectivo: a igualdade.
Início das Aulas: 08h15 – final: 16h10 à excepção de um dia por semana.
TPC diários de todas as disciplinas do dia.
Facultado? Condescendente? Não me parece. Que não tenham já que decorar os rios e afluentes ou efluentes, as linhas de caminho-de-ferro até Benguela ou os cognomes de todos os reis de todas as dinastias com o detalhes de quem casou com quem mais que uma vez, quem morreu e quem se matou é uma coisa.
Que acusem as crianças de hoje de beneficiarem de um ensino facilitado é outra completamente diferente. Como dizia um comentador deste diário há uns tempos largos atrás, a propósito de um post semelhante: se tivéssemos na nossa altura passado por tudo isto havíamos certamente engrossado as estatísticas de insucesso escolar.
think about that ;)

contesting me

Desafiam-me a Amiga Luísa e o meu conterrâneo ;) Hélder Robalo, para me descrever em termos musicais .. ou por outra, para adaptar a meia dúzia de respostas algumas das minhas músicas preferidas. Estive tentadíssima em responder tal qual o Samuel .. os discos e os livros back home não têm coerência alguma, coitados, que o diga a esforçada arrumação que tentei fazer este fim-de-semana .. Mas.. pensando em consciência, há sempre alguém que points out do universo de som que me acompanha há anos. Este alguém que conheci através de mão amiga que me disse “ouve isto! Vais gostar.” E Gostei. Imenso.

Diane Schuur
És homem ou mulher? More than you know
Descreve-te: i’ve got beginner’s luck
O que as pessoas acham de ti? Nice work, if you can get it
Como descreves o teu último relacionamento: who will the next fool be?
Descreve o estado actual da tua relação: it’s magic
Onde querias estar agora? Over the rainbow
O que pensas a respeito do amor? Easy living
Como é a tua vida? Life is good
O que pedirias se pudesses ter só um desejo? How deep is the ocean?
Escreve uma frase sábia: consider the point from both ends

É para passar a tantos quantos queiram fazer o exercício ;)

Thanks mates *

21 Nov 2008

intimism (xvii)

Dedico-me à televisão.
E como sempre que me disponho a um passatempo desta natureza acabo por me assarapantar com o que passa no orgulhoso ecrã plano não sei quantas polegadas que ostenta o móvel estrategicamente colocado na minha sala. Móvel, agora reparo, já carregado de livros, numa invasão de espaço que não lhes pertence, como se pouco houvesse na estante onde os arrumo. Tenho para mim a teoria que de vontade própria são revestidos, em vez de lombadas, e silenciosamente, a meio da madrugada, invadem espaços alheios numa usurpação silente da qual um olho menos atento não dá conta.
Observo as lombadas decidindo-me este final de semana por uma arrumação criteriosa dos que para ali estão, lidos, por ler, relidos ou a reler. Esforço-me por prestar atenção, parando uns minutos em cada canal. Alguém que escreveu um livro fala de boca cheia nos elogios que deve ter recebido no seu lançamento, Pergunto-me se os receberá pelas leituras. Coisa feia a soberba. Muda-se o canal, apruma-se a vontade. Uma novela brasileira. Fantásticas as interpretações de quem não sei quem seja nem que papel interpreta. Não conheço a estória, difícil de entender assim. Novo canal e mais uma novela, desta vez portuguesa .. com umas outras quantas na fila. Esta está a terminar dizem-me as letras cor-de-rosa no canto superior do ecrã “último episódio”, e aparece alguém que era suposto ter morrido, ou talvez não, havia sido substituído por outro alguém com o objectivo de se vingar não sei de quê, e a menina grávida ostenta uma barriga considerável, há uma senhora de cadeira de rodas desaparecida há 12 anos num acidente de barco, caras consternadas, um outro na prisão, enfim, confusão a mais para os meus pobres neurónios habituados a coisas mais .. básicas.
Relanço o olhar de novo às lombadas, está ali um que procurava há uns tempos .. cidade sitiada de Lispector, prometi emprestá-lo. Vem-me à memória a quantidade de livros que já emprestei, pssst com um v de volta na ponta s.f.f., amanhã tenho umas chamadas telefónicas a fazer. .. os canais continuam a passar indiferentes à vontade do meu dedo, o comando em laivos de vida pára numa entrevista. Gosto de entrevistas eu. Principalmente com entrevistadores inteligentes. Não era o caso.
Está uma moldura torta, bem perto dos livros, levanto-me para a endireitar, a princesa de óculos escuros e grandes head-phones nos ouvidos, o nosso primeiro passeio de helicóptero apanhado no instante da aterragem .. carinha satisfeita, feliz. Pego num livro ao calha, desistindo da empreitada televisiva a que me tinha proposto. Verdade seja escrita, sem grande entusiasmo ou vontade. Abro-o igualmente ao calha e leio:
"Well, what have you there?" Mr. Dark squinted. "A Bible? How Very Charming, how childish and refreshingly old-fashioned."
"Have you ever read it, Mr. Dark?"
Something Wicked This Way Comes .. Ray Bradbury

Ainda no outro dia, era capaz de jurar, havia afirmado não ter nada deste escritor. Acho que vou antecipar a arrumação livreira. Ninguém se entende nesta desorganização. Nem os livros, os pobres ..

Falava de quê eu hoje? .. ah .. televisão não era? Seria .. ;)
Tenham um excelente fim-de-semana .. nós, imbuídas do espírito, vamos dar asas à imaginação * como alguém me disse há dias: “caminho aberto, terreno para criares o que te apetecer”. É isso mesmo que preciso.

Até segunda .. *

20 Nov 2008

quem é que encomendou as maiúsculas nos nomes dos blogueurs hein?
(já emendei o meu, safa .. a coisa em capital soa-me a gritaria .. !)

public service (vi)

é melhor darem aqui uma espreitadela se estiverem a pensar em sair de casa no próximo week-end ;)

intimism (xvi)

Nada prometo.
Esgotei a dose de promessas em alturas devidas e nas outras.
Entreguei, algumas vezes, o credo em mãos alheias e de todas me arrependi.
Gostava de ser como certas pessoas que conheci que de nada se arrependem.
Custa-me a crer que possa ser verdade.
E se o não for, será uma mentira.
Na verdade, não gostava nada de ser assim.

Vociferei, acusei acusando-me, chorei e sofri e quando pus um ponto, converteu-se em ponto final.
Parágrafo.
Na outra linha com letra grande, dizia a professora, ternamente, nos ditados semanais.
As outras linhas que escrevo começam invariavelmente com dois pequenos pontos .. uma pausa. Assimilo as palavras que me ocupam a mente e ao tentar transpô-las para o papel parecem-me quase sempre grandes demais. Pesadas.

Nada prometo, começava assim o texto, e o meu diário pergunta-me agora baixinho para não me interromper o fio do pensamento, ele sabe o quanto eu detesto quando isso me acontece, pergunta-me ele então quase em surdina que raio tem o que estás a escrever com inicio do texto, hein? Olho-o nos olhos, furiosa. Já que me interrompeste, avança tu, atiro-lhe em letras levemente azuis, texto corrido como quando escrevo depressa. Avança ele cioso do seu papel e da oportunidade. Lamenta que lha dê de menos. Recosto-me na cadeira e observo o esforço. Sente-se observado, começa a corar. Pára de olhar para mim, refila, sorrio eu e acendo um cigarro. Anda lá, oh brave one. Quero ler-te.

"Nada prometes. Porque de todas as promessas em que acreditaste algumas ficaram pelo caminho? Talvez. Porque de todas as que fizeste de algumas desististe? Quem sabe .. nada prometes, porque a mais bela promessa que algum dia fizeste é a que todos os dias concretizas .. as outras? talvez quando nada esperares. "

Atira, melodramático, a caneta pela mesa.
Solene inclina-se numa mesura caricata. És um tolo, murmuro, fechando-o. .. e tu, uma descrente de ti, grita!

19 Nov 2008

(i)

reapareceste na altura certa, tu, disse-lhe sorridente, estava a precisar de uma dose de loucura na minha vida.
Ele sorriu, afagando-lhe os dedos esguios, e perguntou de chofre: ainda tocas piano?
"Democracia Directa refere-se ao sistema onde os cidadãos decidem directamente cada assunto por votação.
Em Democracias Representativas, em contraste, os cidadãos elegem representantes em intervalos regulares, que então votam os assuntos em seu favor."


e nenhuma delas carece de período experimental Cara Drª, obrigada.

18 Nov 2008

À Luísa :)

Porque eu queria saber escrever assim, por imagens .. :) Obrigada pelos momentos, pela partilha *


Sentada na laje de pedra tantas vezes percorrida, olhar perdido naquele sol que se resguarda nas águas paradas, atenta ao grasnar das gaivotas em terra, virá tempestade?
.. sentada, pernas suspensas no rio, acolhedor o marulhar sereno da pequena vaga que bate na pedra. Recorda. Outras vidas por ali passadas, correrias de horários a cumprir, passeio de amor com amor, a namorada que acena, ferrenha a tabela apertada do último barco do dia, o rapaz parte mas o seu coração ficou, certamente, do lado de cá .. a criança debruçada que tenta tocar na água perante o olhar atento da mãe, aventura arriscada plenamente protegida. O casal idoso de mão dada ele conta-lhe um detalhe da história que começa com “foi daqui que .. “ ela sorri, já o ouve mal, mas sente-lhe a cadência ternurenta das palavras.
Sentada na laje de pedra, tantas vezes percorrida.
a não perder .. digo eu ;)

post insuportável (i)

Não questiono a sonsice que nos afecta por alturas do Natal.
E não a questiono por uma razão muito simples: vejo-a ao meu redor a partir de finais do mês de Novembro até ao final do ano com uma raízes, ralas e finas, pelo Janeiro adentro, para depois secar no vaso qual flor sem água e sem cuidados de jardineiro.
Mas .. longe de criticar a noção e consequente acção, acabo por dar graças pela sua existência. E isto por uma outra razão muito simples também .. se de todas as demandas levadas a cabo por estas alturas, de todos os consumos, de todos os sacos amarrados e entregues nas Igrejas, nos ATL ou nos lares de acolhimento, de todas as iniciativas que nos chegam por email para colaborar em presentes solidários, e outras de feiras e festas com intuitos beneméritos, se de toda a vontade em ajudar ainda que seja terreno virgem pelo resto do ano, resultar um Natal mais feliz e preenchido com o que de facto, e realmente, faz falta (coisa que, penso não estar muito longe da verdade, perdoem-me se assim não for e falarei por mim apenas, mas coisa que nenhum de nós sabe realmente o que seja) já valeu a pena! Àquelas almas mais cépticas que me atiram um “sabes lá se isso lá chega” quando me sabem a participar no Banco Alimentar ou em outra acção similar, costumo responder que se só chegar um quilo de arroz, já se justifica o esforço de muitos.
Portanto, longe de criticar e apontar como vejo fazer com frequência, sendo que ponteiros em riste, quase que aposto, provêm de quem não faz rigorosamente nada, nem no Natal nem nos restantes trezentos e sessenta e quatro/cinco dias do ano, eu incentivo, empolgo e empolgo-me, contribuo, ajudo e organizo.
Chamem-me “fingida”.

17 Nov 2008

i still believe ..

"If you can, help others; if you cannot do that, at least do not harm them. "

His Holliness The Dalai Lama

i'm just human and you?

Mummy, já começou! Grita a princesa da sala, enquanto me atarefo de volta dos tabuleiros do jantar. Queres ajuda? .. sorrio perante a oferta. Invariavelmente respondo-lhe que sim e aparece de braços estendidos. Leva o tabuleiro dela, eu o meu, e aterramos no sofá prontas para ver a reportagem anunciada, sobre o Racismo, que a princesa diz não existir. Pelo menos não na minha vida! afiança à Tia mais nova com quem tinha estado a conversar sobre o assunto. A Tia ri-se, responde-lhe um ainda bem, mas vais ver que te surpreendes logo quando passar na TV, assegura-lhe perante o ar entendido da pirralhapré-adolescente ;)
E surpreendeu. Pela negativa, obviamente.
O pai do menino branco que empurra com violência o menino negro do baloiço porque o seu filho quer andar. A rapariga brasileira conotada de prostituta. O rapaz cigano que, formação tem mas falta-lhe pelos vistos a habilitação principal: a cor de pele. Os políticos entrevistados que defendem “cada um no seu lugar”, ainda gostava de saber se quando lhes aparecer um médico negro, amarelo, vermelho ou às cores para lhes salvar a vida do filho, o vão “colocar no seu lugar”. Comecei a ferver, em surdina, à medida que passavam as imagens, as lágrimas, a revolta, a inconsequente lógica que parece pautar o discurso de quem defende que Portugal é dos portugueses. O ignóbil tatuado de bigode a lembrar outros bigodes que clama viver a sua família em Portugal há mais de 800 anos e portanto, tipo causa-efeito, tem muito mais direito de ser português do que qualquer negro que cá nasça e obtenha um bilhete de identidade. Fosse eu a entrevistadora e ousaria perguntar-lhe de quantos anos mais precisará para perceber a história. De quantas mais revisões? 800 anos parece-me suficiente.
Ser português.
Ser português será porventura discriminar? Maltratar e ofender? Amarfanhar e difamar? Chegar a matar? E orgulhar-se disso? e incentivar isso? E onde está a bandeira orgulhosa de tais feitos?

Sou portuguesa. Mas ontem disse-o baixinho, quase para mim, enquanto picava o bife com o garfo dando-me conta que de repente, havia perdido o apetite.
.. nada a fazer. Começo a deixar-me inundar pelo espírito .. fica o aviso que a maioria dos posts a publicar, doravante, serão insurportáveis .. mais ainda ;)


Imagem da net
Where the tree tops glisten

and children listen

14 Nov 2008

Semajnfino ;)

Vamos começar por assistir ao vivo e a cores a uma das melhores vozes actuais, fortemente influenciada pelo jazz, que no seu próprio timbre de afectação quase infantil, resulta, quanto a mim, num exercício delicioso. Falo de Lisa Ekdahl, hoje no CCB.

Depois, saco de week-end no porta-bagagem do sapito que, impaciente pela viagem, nos levará à Nazaré. Passeio mais que prometido à princesa do reino :) “Quem sabe não temos a sorte de apreciar o local onde estacou o cavalo de D. Fuas” (rio-me) .. “desde que não esteja nevoeiro mummy” responde-me a pirralha! Ops .. pré-adolescente, é o termo politicamente correcto acho .. ;)

Excelente fim-de-semana a todos!
Have fun .. *
O wordpress.com anda a piscar-me o olho .. um dia ainda me mudo e não, isto não tem a ver com a publicidade dos pacotinhos de açúcar: hoje ainda não é o dia! ;)

13 Nov 2008

intimism (xv)

Atraca pela última vez em Lisboa o Queen Elizabeth.
Portentoso, imponente entra o porto ladeado de pequenos barcos, quais pajens respeitosos a um distância cerimoniosa. Alinham-se os cadetes abrem ala ao capitão. Fardas brancas imaculadas brilham no sol de inverno, baixo, luminoso.
Atraca pela ultima vez em Lisboa o Queen Elizabeth e de repente, “não mais que de repente” voa-me a memória para o tabuleiro pintado à mão com figuras da família Real, minha Avó, e as histórias que me contavas detalhadas sobre a vida de cada um. Salta-me de repente a memória para as fotografias onde a farda branca imaculada daquele tio na Royal Navy está já amarelecida, não tão imaculada. Vai-se o pensamento para o “yes dear ..” com que começavas os relatos da família que é a minha.
Vai-se a memória para junto de ti no abraço apertado que ainda sinto a cada chegada .. a cada partida.
Atraca pela última vez em Lisboa um pedaço da tua história Avó, “ours, my dear .. ours” e estou certa que gostarias de o saber.

may I go now?

Há gente sensível.
Há, de facto, gente muito sensível e com essas e outras particularidades de feitio temos de saber lidar.
Quer as entendamos quer não.
Há gente que enfia chapeladas alheias como se fossem as suas, numa troca baldroca de chapéus que, já não havendo muitos, ainda assim servem, com mais ou menos cabelo.
Gente que toma as dores do alheio porque as suas, atrevo-me a epilogar, são demasiado pesadas.
Gente que se ofende quando a “ofensa” não lhes é dirigida e gente que se abespinha, mão na anca e pé no chinelo à mínima elevação de tom. De discórdia.
Há gente tão sensível que por vezes pasmo como conseguem andar na rua, parar no semáforo ou subir as escadas do autocarro.
Gente que opina, que julga e emite verdadeiros certificados de sabedoria doentia, prontos a atirar à cabeça de qualquer incauto, assim lhe saibam o nome para preencher a única linha que ficou em branco.
Gente.
Há ainda outra gente, ou tenho para mim que é a mesma, que se empapa de um superior espírito de cruzada assim se aflorem aqueles princípios e regras pelos quais gostam de advogar viver, esquecendo-se que a parte fundamental desses mesmos princípios e valores é a circunspecção. Palavra que, não sabem o que significa.
Gente.
Gente para quem a educação é palavra de arremesso contra a classe dos Professores, o respeito traduz-se no medo com que lidaram com os progenitores, e a conversa .. bom a conversa são meia dúzia de gritinhos histéricos e mãozinhas no ar enquanto redemoinham olhos num “sou bom, sou muito bom, sou o melhor” terminando num estridente “uh uh”.

Retirem-me do cenário por favor que eu ainda sei para o que compro bilhetes.
Ainda.

12 Nov 2008

intimism (xiv)

Mummy .. ?
Sim Querida?
Posso pedir-te um favor?
Claro.
(sorriso trocista pelo ar sério e compenetrado da menina .. não a conhecesse e não reconheceria a ironia)
Não voltes a escrever sobre a mãe do Dinizzzzz pode ser?
Óbvio. Mas porquê?
Porque foi ele o "par de jarra" que me saiu na actuação de Natal. Só pode ser castigo!

(Gargalhada)

porque ..

Pôs-me a pensar a Luísa, com este texto brilhante.
No que somos, no que merecemos ou não, no que propiciamos aconteça no país onde vivemos e até que ponto influenciamos de facto as decisões que em nosso nome são tomadas, nos são impostas, pelas quais temos de reger a nossa vida em sociedade para que vivamos .. em sociedade.
Já estive mais certa que a mudança está para breve. Mas continuo imbuída de um espírito que me leva a em vez de criticar e atirar saraiva ao próximo, em vez de me remeter ao “fado”, e ao “é assim porque sim”, tentar, por minúsculos que sejam os meus movimentos no panorama nacional, restaurar e acreditar nas melhorias.
E ao ler o texto da Luísa fogem-me os neurónios para a melhor explicação que algum dia li sobre o que é este “meu” País :)
Enjoy *
- Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança.
Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acovarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
- Quem?...
- Portugal.
Eça de Queirós "A Ilustre Casa de Ramires"

11 Nov 2008

eu sei .. Mestre

What we have we prize not to the worth
Whiles we enjoy it, but being lacked and lost,
Why, then we rack the value, then we find
The virtue that possession would not show us
Whiles it was ours.
William Shakespeare

do desinteresse (v)

Paradas no estacionamento do pequeno centro comercial onde nos abastecemos quinzenalmente de tudo o que não se pode comprar no mercado (chamem-me antiga ..) à espera da manobra esquerda-direita-avança e recua com que o senhor, dono de um sedan maior que o local escolhido para estacionar, tentava sair da camisa-de-onze-varas onde se enfiara.
Literalmente.
Atrás de nós, vários carros à espera do mesmo, ainda que sem o privilégio de assistir à manobra.
Abro ligeiramente o vidro, desligo o som do rádio para poupar os tímpanos à interferência que o mesmo faz no subsolo ;) e espanto-me com a senhora dona de uns cinquenta e tal anos, carro novo e luzidio cheio de mossas e riscos, que me tenta ultrapassar pela esquerda sabe-se lá para quê .. mistério a mente de uma condutora de fim-de-semana eu sei .. e a minha falta de paciência para perceber mentes alheias vai na directa proporção da hora do fim-de-semana em que as mesmas tentam surpreender-me.
Olha-me de alto a baixo, não sei à procura do quê, estou sentada for Christ!, e abana a mão no ar como que a enxotar uma mosca. Avança mais um rodado de pneu para ficar entalada entre o meu carro e o pilar que veda o acesso aos chicos espertos dos nossos descontentamentos, ups, estacionamentos! Ao tentar recuar bate, obviamente, no meu carro. Aliás teria de ser feita de borracha para conseguir sair da enrascada. Ou isso ou perceber que o ponto de embreagem é para ser feito enquanto se roda o volante. Mais depressa a veria feita de borracha, acho ..
Abro agora vidro todo e olho-a. A azáfama em rodar o volante era tanta que ao sentir-se observada, estaca de repente, batendo de novo no meu carro, e fica a olhar para mim, ligeiramente esgazeada.
O dono do carro larger than .. acaba por conseguir soltar-se da apertada camisa e avança. Impacientes os carros atrás de mim aceleram, sem sair do sítio.
Ligo os quatro-piscas, saio do carro para observar as consequências dos encostos com que tinha acabado de ser mimada.
De ar espinoteado e aos guinchos, literalmente aos guinchos, alguém a ensine a gritar por amor da santa, a irreflectida condutora salta do banco com os braços no ar.
Mas tem alguma coisa pergunta-me tem? tem? .. ã?! Diga lá tem ou não tem? enerva-a o meu silêncio, a seguir ao “boa tarde” com que a brindei, enquanto observo o pára-choques do pobre sapo que se não fosse um carro bem-educado .. nada tem de facto, mas o da fresca e fofa ganhou uns riscos extra. Felizmente do lado do pilar.
Sem lhe dar resposta, entro de novo no carro perante o ar gozão da princesa, avanço e estaciono.

Mummy .. estou impressionada - Diz-me a minha mais que tudo na pura da ironia, conhecendo-me a falta de paciência para este tipo de .. tipo de .. isso mesmo!
“Para dentro” .. sem dúvida que para dentro nem os elementos mais afastados da família daquela espécie, confiando que haja mais, valha-nos ..!, foram poupados.

10 Nov 2008

readings (vi)

é por estas e por outras é que eu .. fico em casa, além de mãe beta ligeiramente do sporting ou será ligeiramente beta ;) a filha é Leoa!
Parabéns Vieira do Mar .. um texto brilhante este!
Luís Novaes Tito, o Barbeiro de serviço, aborda de forma simples, e numa linguagem que todos decerto entendem, a Manifestação de Professores. A ler aqui .. e reflectir.
Uma imagem vale mais que mil palavras? Neste caso que 120.000 :) .. à Leonor um abraço solidário.

do interesse (iii)

Era tão bom que as pessoas conseguissem assumir-se como são e querem ser sem terem de denegrir quem acham que está dois degraus acima não era?
Era.
Principalmente quando a distância é infinitamente maior que isso.

A propósito? Perguntam e bem.
A propósito desta maldadezinha mesquinha e pequena que inunda cérebros e posturas, tão a jeito de uma humanidade que arrota postas de pescada sem saber limpar uma espinha.
A propósito da humildade mascarada em cinismo pronta a dardejar como se de arco e flechas ainda andássemos.

Se acham que os outros estão “acima” ergam-se caramba .. não nos arrastem a nós pela lama onde se movimentam.

7 Nov 2008

intimism (xiii)


Mãe e filha cansadas. O trabalho tem sido muito, as exigências outras tantas, algumas preocupações à mistura, alegrias quanto baste, e estes “pobres” “potes de emoções” à flor da pele .. estafadas. As duas! Assumo. ;)

Por isso, o convite de amigos “estamos à vossa espera” sem aceitar um “talvez” como resposta veio, decididamente, a calhar.
Turcifal, no Conselho de Torres Novas, uma lareira acesa e promessas de conversas em dia, com direito a passeio a cavalo e faces coradas, é tudo o que nos apetece :)

Até segunda * ..

6 Nov 2008

do interesse (ii) .. ou do desinteresse (iv) .. (?)

E feliz é? É feliz a sua filha?
Perguntou, interrompendo a saraivada de prémios e galardões que enchiam a boca daquela progenitora neurótica que em dez minutos olhou trinta vezes para o relógio de pulso enquanto falava sem parar das conquistas da filha na natação e na ginástica, o lugar do ranking nacional e do regional e até no outro de quem nunca ninguém tinha ouvido falar, a quantidade de medalhas que já tinha e agora o desplante em querer “coitada! Está doida!” abandonar uma das actividades. E logo a natação, imagine-se.. diz que tem pouco tempo para outras coisas .. que coisas?! Ah e o cansaço que isso lhe exigia a ela mãe, obviamente, sim a ela mãe que só Deus sabia o que lhe custava andar sempre de um lado para o outro, veste, despe, arranca e estaciona.

Falava alarvemente enquanto pulava de um tacão de bota para o outro, apoiada nos calcanhares, cena que sempre me surpreende quando a observo, verdadeiro trabalho de trapezista, equilibrista, enfim .. a entoação da voz em tom alto era acompanhada por um tique de cabeça que fazia balançar perigosamente o carrapito espetado no cimo da cabeça, pouco cabelo para tal penteado, pensei, e logo agora que as extensões naturais deixaram de permitir tais figuras .. assustou-me o Mas! dito uns decibéis acima do suportável, alguns pais, desafiando a autoridade da oradora, permitiam-se sussurrar outros assuntos, imagine-se a leviandade.
Aquele providencial MAS, leve afectação no s que me soou a qualquer coisa sibilante e viscosa, teve o condão de sossegar murmúrios.
Mas .. reforçou rolando os olhos para provocar na audiência aquele efeito que os tribunos são ensinados a provocar para .. (sei lá para quê) Mas .. voltou a proferir de sorriso lunático na boca pequena de dentes tortos, o facto é que a minha Quica está no vigésimo lugar do Ranking. Invejável o número, não acham? exclama orgulhosa de a pequena Quica ter provavelmente chegado onde ela nunca chegou.. ou chegará.

E feliz é? ouviu-se ao fundo do grupo, a voz clara de uma mãe, cigarro na mão, convenientemente afastada da mesura, .. é feliz a sua filha?

5 Nov 2008

My business is to teach my aspirations to conform themselves to fact, not to try and make facts harmonise with my aspirations.
(Huxley, Thomas Henry)

Congratulations Mr. President

I wish that all the meaningful words, all the extremely conscious actions proposed, all the promises and all the Hope .. come into a profitable end.
Congratulations Mr. President!

4 Nov 2008

public service (v)

Colocou finalmente de lado os intermináveis triângulos amorosos e suas complexidades. E digo, finalmente, porque enquanto leitora e admiradora da obra de Márai, que conheci há alguns anos com a tradução inglesa de Memoir of Hungary, não sou particularmente fã de extensivos mestrados sobre Mulheres ou Homens Certos ;)
Em Rebels, outra brilhante tradução, Sándor afasta-se determinantemente da sua fixação em tais triângulos. Contudo, as emoções ainda mais fortes que desponta no leitor passam por algo quase tão violento quanto: o que alia um grupo de jovens revoltados contra tudo.
“..trata das vicissitudes e aventuras de um grupo de rapazes, ou melhor, um bando, como se definem a si próprios, no final da Primavera de 1918, numa pequena cidade da Hungria distante da frente e onde a vida, aparentemente calma, é profundamente abalada pela guerra.”
Órfãos de Pais que combatem na frente, os Rebels decidem libertar e libertar-se de demónios, espalhando a sua revolta, arrastados por um rancor difícil de descrever.
Acima de tudo difícil de interiorizar ao longo das páginas.

Sándor Márai (1900-1989) Escritor e Jornalista Húngaro

What is it to be in love with a pathological liar and fantasist?

.. não sendo desta obra a frase que escolhi mas sim de Márai’s Esther’s Inheritance, considero-a legenda perfeita para classificar mais esta obra .. What is to be in love with .. pensei ao chegar às últimas e trágicas páginas deste excelente livro.

My opinion ..

pieces (iv)

Chamou-me lá a casa quando tivesse tempo para a ouvir.
Ora tempo, como todos sabemos, é algo tão preciso quanto a água. Fui egoisticamente adiando a situação até ao dia em que acordei a pensá-la. A pensar no convite que me fizera. E decidi não voltar a adiar.
Liguei-lhe e combinámos um fim de dia perto de fim-de-semana. A conversa noite fora não interferiria com os horários da criançada .. nem com os nossos. A princesa ficou orgulhosamente de baby sitter ao primo em casa dos tios, entregue aos tios mas a achar essencial a presença para que o primo durma sem birra. O que até é verdade!

Encontrei-a triste mas serena. Conformada. De aspecto mais magra e esguia ela que sempre foi elegante. O cabelo em madeixa do sol intenso que se concedeu nestas férias. Os olhos .. sempre aqueles olhos que dizem mais que um texto dos meus.
Lanche preparado à laia de jantar de petisco, aterrámos no sofá. Puxa uma caixa antiga, com os cantos dourados e a cartolina gasta de tanto abre e fecha. Uma caixa cheia de papéis. Que é isto, pergunto-lhe. Queria que lesses tudo, esclarece. Estão por ordem cronológica, adianta, para ser mais fácil. Sorrio e puxo do maço de papéis ordenados e presos com um elástico grosso que me fez lembrar o arquivo que a minha avó fazia das contas pagas. Todas guardadas e presas com um elástico igual. Contas da vida, na vida, tal como agora o que se me oferecia a ler.
E li. Ela serena, sentada ao meu lado. Conformada. Ia-me apreciando a expressão, tentando interpretar os sinais que a leitura me provocava. Li como tudo começou, inocentemente já sem inocência. Li os convites, os encontros, as juras de amor. Li o pedido de casamento e o entusiasmo com a visita à casa que seria .. a casa. Li a evolução no convívio com as crianças .. li as próprias crianças em conversa animada, em pedidos de ajuda. Conheço esta minha amiga como ninguém. Não substituindo nunca a mãe do lado de lá sei que seria uma excelente mãe. Percebo a empatia que conseguiu com a prole. E continuo a ler. As investidas e o princípio das tomadas de decisão. O conhecimento dos familiares, dos amigos dela. As reacções. Apercebi-me da falta de familiares e principalmente de amigos do lado de lá. Coisa estranha, na altura não valorizada.
Tudo escrito. Documentado. O pouco tempo que tinham para passar juntos na altura, fazia com que se escrevessem várias vezes por dia. Longas e extensas linhas, bonitas, profundas, felizes.
Li tudo. Até ao fim. Ao inesperado fim também ele por escrito.
Lancinante, como sei que foi.
Cruel.
Inexplicado.

Acabei de ler e voltei a ordenar a correspondência, colocando o fim no inicio.
Ela sorri e diz-me .. conheço-te .. estava à espera que fizesses isso mesmo, enquanto liga o botão do destruidor de papel. Tens a certeza? Pergunto sabendo a resposta.
Absoluta .. responde, logo eu que detesto certezas absolutas. Só queria que lesses.
Que me lesses. E que soubesses.

Fizemos um outro bule de chá, negro e de cheiro intenso como ambas gostamos, e acabámos a noite a relembrar as patifarias que pregámos, as partidas inocentes que pautaram a nossa infância e adolescência, as paixonetas, os namoros mais sérios e as relações fortes e construídas pedra sobre pedra, os amigos que já partiram e os outros de quem não sabemos .. relembrando o que fomos, como fomos, que caminhos percorremos para justificar como foi que chegámos até aqui.

3 Nov 2008

oxalá


Grita a voz em grito cavo um nome na escuridão.
Mexem-se as gentes no restolho encharcado, pés em botas de borracha que alagam no torrão há pouco seco.
Grita agora mais que uma. Gritam de desespero. Um foco de luz varre a escuridão em redor.
Atentam onde colocam os pés. Alaga fácil o terreno, perigosa a empreitada. Alguém se lembra de ir buscar cavalos e mais lanternas. Voltam atrás meia dúzia de passos, em correria, ouve-se o arfar em peitos sem ar.
A noite está escura, a chuva cai a cântaros, limpam-se os olhos na tentativa de procurar. Ver.
Oiço ao fundo da noite o balido do gado. Preso no curral apercebe-se do barulho da azáfama pouco costumeira e nocturna. Reclama. Os cães ladram furiosamente, os homens tentam acalmá-los, mandam-nos calar.
Grita a voz em grito agora rouco de tanto gritar. E no barulho da chuva alucinada que cai do céu em jorro imenso de pranto incontido nada mais se ouve que o desassossego de quem procura quem se perdeu.
Oxalá me encontrem, penso, tolhida, presa sem coragem para espreitar.
Oxalá.

31 Oct 2008

All Saints' Day *


O peru assa demoradamente no forno. O cheiro a gordura estaladiça invade o ar de quem tem a ousadia de entrar na cozinha. Descascam-se batatas pequenas de pele lisa e amarelada, as melhores para assar. Prepara-se o recheio, uma pasta apetitosa, bem temperada, que vai encher o bicho que continua, lentamente, a assar no forno de lenha.
A Beatriz grita ao marido por lenha. A garotada ri-se e vai ajudar a escolher os troncos mais pequenos e redondos, cortados a preceito e de propósito para que caibam na pequena fornalha.
Rasgam-se as alfaces em pedaços toscos, a cebola em tiras finas, lágrimas escorrem pelas rugas da Beatriz “olha-me esta que é danada!”.
A mesa é posta com desvelo. Retira-se da pesada arca, a toalha de linho branco, imaculado “bordada pela sua bisavó menina” diz-me a Beatriz todos os anos, os guardanapos são de pano a condizer. Copos de pé alto voltados para baixo, talheres em profusão, o pão casqueiro em lasca fina no cesto forrado com outro bordado.
Assa o peru lentamente e saímos todos de casa, bem agasalhados que na Beira o frio é de rocha feito, a caminho da Igreja para a Missa de Graças.
Batem os pés dos homens no adro, como que a espantar o frio, entram mulheres e crianças na Igreja acolhedora, antiga, tectos altos e Figuras que nos impressionam. As janelas de vitral espalham a ténue claridade em cores que alegram as almas.
Assa ainda o peru. Devagar. As pequenas cestas do “Pão por Deus” estão prontas, à espera da criançada que vai correr a Vila ainda antes do almoço. Bolos de mel, torrões e pasteis de abóbora encavalitam-se na cesta da mais nova que já não pode com o peso. Há gargalhadas no ar frio que aquecem os corações dos mais velhos “venha cá menina que não lhe dei inda o meu”!

Cheiro a batatas assadas, salada bem temperada de fio de azeite grosso, amarelo. Cheiro a lareira acesa e a bola de azeite, peganhenta, deliciosa.
Para a mesa Meninos, para a mesa!”

Cheiros da minha infância. Tão perto .. tão longe.

Wish you a warmer and blessed All Saints’ Day :)

30 Oct 2008

readings (v)

A Carla Maia de Almeida aqui, num texto brilhante de resposta a um "porquê?"

Torquato da Luz .. começam a faltar-me os termos de apreço, fica uma singela homenagem.

descobri há pouco este registo, irmão de outro de que gosto, e ainda em "exploração" .. fica a dica :)


and listenings:
Mummy deveríamos poder deixar de estudar as matérias com as quais não concordamos não devíamos? Como um voto em consciência? Mummy?
(estuda-se a descoberta do ouro brasileiro pelos Bandeirantes e o comércio de escravos negros)

Thanks! (iv)



verdadeiro tantra Meu Amigo ;) .. mas sabes que o mais que te aprecio nas letras e na Vida passa literalmente por mimos destes também :)


Obrigada *

intimism (xii)

.. não sei se gosto mais da praia de verão ou de inverno. E não o sei por razões que se prendem com a diferença que nos pauta a postura em ambas as estações.
Se por um lado me encanta o ar parado e quente, o céu azul de farrapo branco, imóvel, o mar de onda mole, acolhedor, as corridas à beira mar, o chapinhar da criançada, e aqueles dias que não acabam nunca com um sol laranja até escurecer. Se prezo e acolho de sorriso franco os mimos do Sr. Barbosa que nos reserva os toldos e arrasta cadeiras umas atrás das outras para a família que cresce todos os anos .. se o gelado carregado de nata e aparas de chocolate me desafia as contas calóricas com as quais não me preocupo .. mas é coquete fingir que sim ;) enfim .. se por um lado a praia de Verão é sinónimo de pele morena, sardas com fartura, cabelo descolorado e ar saudável .. acima de tudo um ar muito saudável (não confundir por favor com saudavelzinho) ;) por outro, começa agora a nossa praia de Inverno.
E confessamos saudades.
A princesa salta da cama ao domingo às 8:00 am, pequeno almoço tomado e corre a procurar os polares e as botas castanhas, calça de ganga arregaçada, boné na cabeça e lá vamos nós para o passeio matinal. Eu não disse já que sou feita de rotinas? Disse sim ..
A praia por esta altura tem um encanto que nos escapa no verão, que se esconde das dezenas de pessoas, das bolas de futebol, encanto mudo nos guinchos da criançada.
Um encanto que se prende com o mar mais revolto, mais cinzento. O vento mais forte que alisa o areal, intacto à hora que chegamos. Vento que rosa as faces e quase greta os lábios, sabe bem o polar não sabe mummy grita a princesa em correria para aquecer, aos ziguezagues de braços abertos. Os surfistas de fato negro, verdadeiros amantes desta força da natureza, acenam-nos sentados nas pranchas à espera da Onda. Gosto de passear nesta praia, que é a minha praia de sempre, mas que nesta altura me parece sempre diferente da altura em que a vivo de férias. Uma praia feita de dunas, urtigas secas ao vento, conchas pequenas, partidas a fazer uma ténue fronteira que brilha no sol baixo que já não aquece.

Encontrámos uma concha surreal .. um misto de búzio com laivos escuros a lembrar a casca do mexilhão, aspecto rude, quase “dinossaúrico” .. vou levar à tia mummy .. ela é arqueóloga, vai saber o que isto é!
Gargalhadas.
E o nosso riso ecoa na praia quase deserta .. eleva-se o tom, no som da onda que rebenta ao longe .. salpicos de sal nas faces coradas, trazidos pelo vento que despenteia cabelos.

Querem que me repita? :)
.. eu repito-me: a felicidade? .. somos nós e os momentos a que nos dedicamos que a construímos. Estou cada vez mais convencida que posso acreditar nisto.

29 Oct 2008

intimism (xi)

I really miss you tia! Diz-me o petiz ao telefone, conquista de tia mais velha que ele não fala com ninguém através do aparelho, condicionante que compensa largamente ao vivo e a cores.
I really, really miss you tia, continua, perguntando de seguida pela prima, pelos desenhos que tenho na porta do frigorífico feitos por ele, assegurando-se assim que não os deitei fora, pelo parque da red web que trepou para além do cansaço todos os dias do mês de férias que connosco passou, pelo “cáfé” que frequentávamos todas as manhãs e onde as garotas lhe atiravam um hello! efusivo assim que se aperceberam que o cabelo negro e o olho de lago profundo as enganou na assumpção da nacionalidade. I miss you more, Mr. C digo-lhe, provocando uma gargalhada. Acha gira esta minha mania britânica de baptizar tudo e todos por Mr.&Mrs. ;) perguntando de chofre “what about Mr. Frogy, do you think he misses me too?” .. Mr. Frogy é o meu carro .. um twingo que a princesa baptizou de sapo assim que o comprámos .. ;)

missing .. saudade .. em peito de tia .. em peito de sobrinho :) devia ser proibido os irmãos viverem a mais de 10km de distância .. ai devia, devia!

.. e Fevereiro está tão longe ainda, mas a boa notícia é que as viagens .. já estão reservadas! ;)

Thanks! (iii)



desta vez, o meu Obrigada a esta menina das letras que escreve .. como eu gosto .. e muito :)


Querida Paula, bem-haja*

pieces (iii)

Olho à minha volta.
A manhã está calma, o telefone não toca. Os papéis estão arquivados e há dois relatórios que esperam notas laterais que não me apetece fazer. Um totoloto em cima da mesa com uma nota de dez euros agarrada como que a desejar a dizima .. dois potes com canetas e lápis, marcadores, régua, faca de correio, borracha, afia, post-its de todas as cores, uma verdadeira fixação minha esta de colocar cada um no local de assinaturas importantes. Ou outras. Uma caixinha de cartão feita pela princesa há anos serve de abrigo a cartões de visita e outros, cada um de seu tamanho, cor, conteúdo. Mais um escaparate para envelopes, Dl’s do meu descontentamento com medidas precisas, um inferno na hora de imprimir usando um aparelho que além de imprimir, recebe faxes, tira fotocópias, scaniza documentos .. inteligente a coisa.
Chega um colega e pergunta-me pela princesa. Sente-me em silêncio nos últimos dias. Atribui a algum problema com a mais que tudo. Parte descansado, abrigado no meu sorriso “está óptima, obrigada”.
O telefone continua mudo, sente-se por todo o lado a crise, como se de luto andássemos, em ponta de pé. Silêncio.
O móvel pequeno, cinzento, gavetas ordenadas por prioridades, não há nenhuma que me indique a lista de compras que deixei em casa, isso sim era importante agora.
Outro móvel mais robusto alberga o material do andar. Lápis, canetas, mais post-its, agrafes de todos os tamanhos e clips então? São às dezenas que se espalham em alegre cantoria de cada vez que a gaveta fecha. Por muito cuidado que se tenha na operação. Há dois dossiers azuis, brilhantes, aos meus pés, ainda não arranjei local para os ter à mão sempre que necessário, nada melhor que estarem ao alcance do braço esticado. No chão. Provavelmente não passarão daí. O papel dos rebuçados de mentol com os quais, durante o dia, engano a vontade de fumar, brilha no néon das lâmpadas cuidadosamente escolhidas ao abrigo dos ISO impostos e os outros, inventados. “Estás a imprimir?” pergunta-me uma cabeça que assoma à porta do gabinete .. Não, respondo .. está a receber um fax. Vejo os olhos arregalados como que assustados e um riso de gozo “uhh spooky!” já me cansei de explicar que o aparelho inteligentíssimo que temos no piso faz ligeiros e diferentes barulhos assim esteja a imprimir, a receber faxes ou a proceder ao pdf de um documento. Não me acreditam? .. pois.

Param os olhos no relógio do telefone. Alarga-se o olhar até à pequena foto da princesa numa moldura de íman, ligeiramente escondida por detrás do écran grande demais que me ocupa parte da secretária. Sorri a minha filha, mecha de cabelo caída, vestido de verão.
Está óptima sim, obrigada.

28 Oct 2008

do desinteresse (iii)

Estou tão descansada com o vosso trabalho, interrompe a dona de um cabelo flamejante, calça curta, justa, branca, salto de agulha que me leva a temer uma fractura ali mesmo. Mas tão descansada, reforça nasalando o ditongo num verdadeiro exercício vocal. Deixei completamente, mas completameeennnte, (eu não estou a exagerar) de me preocupar com os trabalhos de casa ou com os testes do Dinizzzzz. A sééééério! termina, para bem da audiência que estava de inspiração sustida, à espera..


Reunião no ATL da princesa.
Apresentação de Resultados, Projecto Educativo e preparação da Festa de Natal.

Elucidativo?
Sem dúvida.

pieces (ii)

Chegar a casa, pousar os sacos, mandar a criançada para a banheira e entrar na cozinha. Espreitar o frigorífico na esperança que os gnomos do dia tenham deixado algo pronto e com aspecto apetitoso para os comilões da noite. Não deixaram. Esquecera-se que lhes dera folga.
Despejar as mochilas para se rir com a quantidade de pequenos tesouros que se encontram nos pátios das escolas. A água para a massa ferve ao lume, os lanches do dia seguinte são preparados e a roupa do estendal apanhada.
Grita o mais velho que a irmã não o deixa em paz. Esganiça-se a mais nova, tomada de génio, porque ele lhe puxou os cabelos.
Calma meninos, tenta ela apaziguar, do alto dos seus 20 anos feitos de “mãe”.
Salta a mais pequena da banheira para o pijama com direito a massagem e escova nos cabelos difíceis de domar. Salta e pula pelo quarto com uma perna vestida e a outra por vestir, ri-se das partidas, ela de gatas a puxá-la! Anda cá que és minha! Termina no abraço apertado.
Menina rebelde feita de mimo de mana.
O garoto clama por atenção, também quer, tudo igual menos a escova que o cabelo é liso e espetado, curto e sem direito a pente.
Voltam a encher-se as mochilas depois de apreciados os trabalhos. Ele na 3ª classe, letra primorosa e perfeição, antevendo um futuro de artista, ela na pré primária, ainda trapalhona, e com coisas bem mais interessantes para acumular do que os livros e o caderno. Um frasco com uma osga lá dentro. Uma caixa cheia de minúsculas pedras brancas onde jazem três formigas mortas. Já estavam mortas quando as apanhei! Atira-me, prevendo o sermão.
A água continua a ferver, ainda sem massa. Céus como é tarde! reclama, olhando o relógio.
Sentá-los à mesa com cantigas de amigo, vigiar os pratos que esvaziam a concurso, acalmar os “sou muito melhor que tu!” e partir a fruta, em lascas fininhas, como gostam.

Vamos rezar mana? Pergunta-lhe a petiz, olhos negros em alvo, sorriso de anjo. Ninguém diria das patifarias de que é capaz, pensa comovida. Vamos rezar meninos, concorda, puxando o irmão para dentro dos lençóis, está a arrefecer, tem de se lembrar de trocar as cobertas por cobertores e agasalhar as saídas amanhã de manhã ..
Anjinho da Guarda, começam os dois em coro, Doce Companhia, continuam compenetrados ..