30 Sep 2008

readings (ii)

" e adoro falar de livros" .. responde, simpático, Tim Booth a um comentário meu sobre a mais valia que é o seu espaço (s)em critério.
E é! .. e fala muito bem, diga-se.
ora espreitem ;)

vidas (vi)

Vieram como tantos os que vieram há anos atrás. À procura da carne de frango que aqui se pode comprar, do trabalho menor pago com mais peso que trabalhos maiores no país que os viu partir. São empregados de limpeza nos escritórios da nossa cidade, marceneiros e trolhas nas obras de "Santa Engrácia" das nossas estradas e passeios. Calcetam, carregam, limpam, escovam, despejam cinzeiros. Parte do que ganham mandam para casa. Para a mãe, para os irmãos, para os filhos que ficaram para trás. Com o resto alugam um cubículo em parte incerta na certeza do frigorífico cheio e das contas pagas.
Vieram como tantos outros. E com eles trouxeram dois filhos. Um ainda de colo, bebé loiro e lindo, daqueles que se admiram em anúncios Nestlé, grandes e expressivos olhos azuis como um céu de Verão sem nuvens e pele tão branca que rasa o transparente. O outro, menino de doze anos, como o são todos os meninos de doze anos.
Agora morreu-lhes este. O mais velho. Encontraram-no morto no apartamento cubículo que alugaram há tempos em parte incerta. Com catorze anos pôs fim à vida. Os problemas eram muitos e de diversa ordem. Não se conseguiu enquadrar na escola, não tinha amigos. Os pais dos colegas proibiam os filhos de se darem com ele. Muito loiro, muito bonito e de olhos igualmente azuis, mas os seus como um céu cinza carregado de mau agoiro, a própria aparência não ajudava a que passasse despercebido. Depois a fala. A linguagem que se esforçou por aprender e com a qual não se conseguiu fazer entender. Nem para pedir ajuda.

O racismo, a crueldade, a falta de tempo e paciência da escola que o acolheu. Os horários dos pais, sempre a trabalhar para conseguir. Conseguir chegar mais longe. Conseguir voltar.
Morreu. Sozinho, com catorze anos, num pequeno apartamento muito limpo, alugado para lá dos confins da cidade, frigorífico cheio de comida.

Morreu com a palavra saudade espelhada nos grandes olhos azul cinza.
E um sorriso de paz no rosto pequeno, bonito.

Descansa em paz pequeno Anjo .. e perdoa-nos.
Não te soubemos acolher, "nós" que te abrimos a fronteira fazendo-te acreditar que aqui .. seria tudo melhor. Maior.

29 Sep 2008

Paul Newman


"I'd like to be remembered as a guy who tried — tried to be part of his times, tried to help people communicate with one another, tried to find some decency in his own life, tried to extend himself as a human being". (1971)

You did it. Take my word.

sight seeing (i)

That night follows day .. é dos mais certos ensinamentos que podemos transmitir. Com muitas mensagens sub repticias ou simplesmente à laia de “nighty night sleep tight” (que completávamos em criança com um “don’t let anything bites”, escondendo-nos nos lençóis) , o facto é que haverá poucas certezas como esta.
O dia segue-se à noite. Depois da noite, vem o dia e Monsieur Jacques de la Palice ficaria deveras orgulhoso por mais esta situação verdadeiramente óbvia e inquestionável.

Agora, Tim Etchells (escritor e director artístico da famosa companhia britânica Forced Entertainment) criou That Night Follows Day, uma peça com dezasseis crianças com idades entre os 8 e os 14 anos.
"Crianças e adolescentes vão falar da forma como vêm e sentem que os adultos projectam neles o seu mundo". E este “seu mundo” incorpora, evidentemente, o positivo e o negativo.
O apoio, o carinho, a educação (entendida ou não como tal) as projecções, as expectativas e o que tanto assistimos num “quero que sejas o que eu não consegui ser”.

Se estou curiosa?
Muito. Tanto que já reservei os meus bilhetes ;)

27 a 29 de Novembro, 2008 – Culturgest.

26 Sep 2008

intimism (vi)


Numa altura em que a polémica das ligações, propositadas ou inconscientes, está ao rubro no que concerne o desenlace e a intenção de quem casa porque ama ou quem achou que amava e de repente por este ou aquele motivo afinal decide devolver os votos feitos sem querer ou de propósito para magoar, ofender ou simplesmente porque sim, é grato .. muito grato e comovente assistir à uniao, que se acredita abençoada, com votos de "para sempre", olhos nos olhos e promessas de amor, respeito e fidelidade.

já perceberam, claro .. estamos de boda este fim-de-semana *
E vivam os noivos ;)

Que o vosso seja tão luminoso quanto os desejos de felicidade que formularemos *

25 Sep 2008

readings (i)

a "minha" escriba predilecta voltou .. e com ela as letras magníficas, rechedadas, sonantes, em constância com uma harmonia dificil de encontrar .. :) Parabéns minha amiga *
.. acompanhando ainda este diálogo de trovadores .. sensível.
:)

24 Sep 2008

intimism (v)

Os telhados que a minha vista alcança na janela com que me brinda o gabinete que ocupo tantas horas por dia, tornaram-se já de um tijolo escuro, fruto da humidade e da chuva miudinha que insiste em alertar-nos para o Outono que chega.
Em ala ordenada, as fachadas cinzentas, azuis claras e amarelas sobem a colina ligeiramente inclinada .. uma de tantas da nossa gentil cidade. Ao fundo, bem ao fundo, numa esquina de vidro que a vista ainda abarca, as árvores oscilam em brisa serena que cheira a maresia, maré cheia. Agitam-se as bandeiras cravadas no passeio na despedida de um tempo quieto que, até há pouco, as fazia transpirar. O céu cinza claro, em abertas azuis, poucas, pequenas e redondas, como que acenos de uma estação que sabendo ter de ir não se quer despedir.
As andorinhas que ocuparam em chilreios os tectos da garagem partiram deixando os ninhos vazios e sem sons. Sem vida. Folhas grossas, na maioria ainda verdes, atapetam a entrada do edifício que é virado ao vento para desespero da senhora que, todas as manhãs, se afadiga de volta da vassoura.

É o Outono que chega, suave, em tons nacarados, não muito escuros, estação que tenta instalar-se .. ainda cheio daquela timidez que o caracteriza, ele que não entende como pode o Inverno ser da brusquidão e do desatino, o Verão intempestivo arriscando secar gargantas e a Primavera cheia de humores e amores, tão inconstante que cansa.

É o Outono que chega sussurrando baixinho: veste um casaco :)

crescendo (iii)

O Festival chamava-se Info Reggae e a princesa pergunta se tem a ver com o No Woman No Cry que a mãe ouvia, por vezes, para além do suportável, bem sei. Isso e as rastas naqueles cabelos que lhe despertam a curiosidade, as pranchas de surf onde se lançou pela primeira vez este verão, e as tattoos (mãe, quando eu tiver quinze anos .. começa sempre qualquer coisa com a tabela dos 15 anos .. acho que quando lá chegar a coisa vai ser difícil).

Considero-me uma mulher de mente aberta. Naturalmente curiosa e por vezes irrequieta, coisa que na idade que tenho, atribuo coquettemente ao signo .. há desculpas para tudo e cheguei ao patamar que desculpas, não são, por norma, necessárias para me justificar.
Não faço juízos de valor baseados em aparências, aliás, raramente os profiro. E raramente também concordo à primeira com alguém que fala, escreve ou argumenta do alto da sapiência, desde que não conheça de onde lhe vem a dita. Se for de experiência feita .. aí o caso muda de figura.

Portanto .. porque não? penso, enquanto me informo na internet (correu bem a instalação no ninho e não .. não fui insuportável nem "tratei mal" o técnico zon) ;) sobre tal acontecimento.
Umas das particularidades que me agradaram foi a explicação para o pagamento da entrada .. em géneros alimentares não perecíveis, avisa o aviso, recolhidos por representantes de duas instituições de ajuda a crianças e mães solteiras.
Franqueámos os portões na expectativa do que iríamos encontrar. Música, muita música, aquela música tão típica de um movimento sobre o qual não conhecíamos raízes. Aprendemos, dançámos, divertimo-nos. Gente calma e pacata, uma agradável palestra ao ar livre sobre as origens do movimento e a sua divulgação mundial, venda de t-shirts, térérés, cd’s gravados e um ambiente em que, não tendo ido vestidas a rigor, não nos sentimos minimamente fora de contexto.

Aprendemos algo hoje certo princess?
Certo mãe, e gostei da história que ouvi sobre esta música, mas sabes agora posso dizer que não gosto dela por aí além.

Agora podes.
:)

23 Sep 2008

vidas (v)

Leio e releio a notícia e a sensação que me apanhou desacautelada da primeira vez que tomei conhecimento destes mundos no meu mundo, volta a sufocar-me.
Volta a aparecer a grande interrogação no meu espírito sobre se poderia eu, se poderias tu, ter feito alguma coisa para o impedir.
Penso imediatamente nos pais, nos irmãos, nas namoradas e amigos destes jovens. E deste jovem. Um jovem. Uma vida ainda pela metade, talvez menos, agoirada, angustiada, abandonada ou simplesmente ignorada? Ou não. Seria uma vida acarinhada e acompanhada em que nada havia que fizesse prever tal desenlace?
O que leva a extremos de atitudes como esta?
O que leva alguém a terminar vidas alheias e a tentar ceifar a sua antes da hora .. ? Porquê?
E vem-me ao espírito um filme recente .. um Juiz na hora da sentença, humano e compreensivo, que perante uma partilha de poder paternal se interroga: irá esta criança ter o carinho e o afecto que merece, ou será mais um a “enriquecer” as estatísticas de delinquência juvenil?

Carinho e afecto. Será por isso? Será isso?

intimism (iv)

até hoje aprendeste a ser uma senhora .. a partir de agora vais aprender a ser uma criada” a avó contava com um indisfarçável sorriso nostálgico esta parte da sua vida. Tinha quinze anos e desde os três que havia frequentado um colégio feminino. Disciplinas como o bordado, a pintura, o francês, o piano e a harpa, a par da Matemática e da História, que o pai queria que tivesse uma formação idêntica à do primogénito, fizeram parte integrante e diária de dias carregados de método e obediência, onde não faltava a educação física e a aprendizagem da língua portuguesa. Dias passados longe dos pais, estes em constante viagem pela profissão exercida, dias completos em que as amizades feitas vingaram para a vida, até depois da vida. Dias ao longo de doze anos, dedicados a brincar e aprender. No fundo, learning to play life, rematava.
Chegada a casa, entre abraços que a saudade carregada no peito era muita, recebeu de sua mãe esta instrução. Uma criada. E até casar, o que aconteceu aos vinte e dois anos, a avó aprendeu a servir. A esfregar soalho, a cozinhar do mais simples ao mais complexo, a elaborar listas de compras, a ir ao mercado, ao ferreiro e ao carpinteiro que a porta do armário da cozinha precisa de reparação, à costureira para as bainhas das calças do irmão ou o revirar de punhos e colarinho nas camisas do Pai. Uma outra vida? Não, a mesma, numa realidade que até aí lhe tinha passado ao lado, só em parte partilhada na brincadeira quando invadia as cozinhas do colégio para molhar os dedos à socapa nas grandes panelas onde ferviam os doces para o Inverno. Encerar um móvel ou arear os tachos que brilhavam dependurados por cima do fogão era trabalho fácil quando comparado com o esforço que lhe exigia o velho e pesado ferro de engomar. Aclarar, limpar, polir, medir, temperar e provar, cozinhar, lavar, limpar de novo e começar tudo na manhã seguinte que o trabalho de uma casa “is a never ending my dear .. a never ending..”
Talvez por isso .. talvez por outra coisa qualquer .. a avó manteve até ao último dia de vida a sua casa como um verdadeiro museu de limpeza. Lembro-me que ainda a trabalhar, levantava-se de madrugada para deixar tudo limpo, arrumado, “you know how you leave but you don’t know how you’ll return”, lembro-me que cozinhava como mais ninguém que encontrei a cozinhar bem pela vida até agora, lembro-me do arranjo, do asseio e do brilho que tinha sempre, mesmo acabada de acordar. O cuidado com o que a rodeava era projectado em si mesma numa delicadeza de gestos e figura, coisa inédita numa avó .. original há vinte anos atrás. Lembro-me .. e hoje em dia, à minha renitência em sair de casa sem a cama feita .. a princesa do reino exclama .. és igual à bivó mummy! .. ela, que sem nunca a ter conhecido, conhece-lhe bem a história.

Legados?
Sem dúvida. Tenho até para mim a teoria que somos em grande parte aquilo que queremos aproveitar dos nossos legados.

22 Sep 2008

.. vale a pena, com algum tempo, apreciar o trabalho que se vai fazendo por aqui.
Silêncio? de facto, mas um silêncio pautado por imagens cheias de sons e significados.
:)

intimism (iii)

Legado.
Dizem-me que mais que um diário, mais que um local onde despejo emoções e acontecimentos, queixas e reclamações, opiniões, credos e desacreditares, lágrimas, sorrisos e gargalhadas, este meu diário (que já vai no terceiro capítulo) é um legado que à laia de herança um dia deixarei à minha filha.
Peso a expressão avaliando-lhe as cambiantes e realmente não tenho como discordar. Imagino-a daqui a uns anos a ler tudo o que a mãe foi digitando por aqui. Imagino-a a tecer as suas próprias interpretações, avaliações. Imagino-a a sorrir ou quem sabe, por vezes, a verter uma ou outra lágrima. Imagino-a a acrescentar ao conhecimento que de mim tem, este conhecimento de letras feito. Emoções no papel. Esmiuçadas e transparentes. E sorrio. Que isso não me impeça de ser sempre eu por aqui. Tal como fora daqui. E vem-me à memória um filme que até há uns tempos elegia como o “filme da minha vida” As Pontes de Madison County. E vem-me à memória o espanto dos filhos ao descobrirem muito depois da morte da mãe, a troca de correspondência e os diários da sua progenitora, num desvendar de segredos que não acharam possível, num conhecimento como se de outra pessoa se tratasse. Segredos. Todos temos. Sempre temos. Que seja tão cristalina a herança que por aqui te deixo princesa como a vida que vivemos fora das linhas escritas, partilhadas.
Mesmo que venhas a saber algo que me escapou contar-te.

19 Sep 2008

Não sabia se quererias voltar a falar comigo depois de tudo o que se passou .. profere em voz baixa e triste, olhos húmidos e meio sorriso a despontar.
.. dás-me um abraço?

Enroscou-se .. deixei-a chorar.
Senti que precisava.
Quem é? uma das vítimas dos chamados danos colaterais que os adultos vão espalhando na sua cruzada cega, surda e muda por este mundo.
Sem dar explicações. Arvorando-se donos de uma verdade que duvido algum dia lhes pertença. Dando exemplos crassos de falta de consideração e respeito por quem os rodeia. Pelos sentimentos de quem os rodeia. Seguindo sempre e a velocidade vertiginosa .. frescos e fofos .. num carrocel de vida por vezes, muitas vezes, quase sempre, puramente inventada.

Felizmente vou conseguindo afastar das minhas relações este tipo de gente. Felizmente, penso, enquanto lhe seco as lágrimas.
E vem-me à memória um “watch your feet..” conselho dado, por quem sabia na altura o que custa viver, conselho recebido há tanto tempo atrás .. vê onde colocas os pés .. é tão fácil fazer saltar um pedra que no ressalto magoará certamente alguém.

:) tenham um excelente fim de semana *

can you spell it (i)


Portanto .. segundo um estudo levado a cabo por duas reputadas faculdades norte-americanas cujos nomes não retive, temos nova descoberta para explicar, desmistificar e desculpar comportamentos ditos agressivos. Afinal os dedos compridos, chamados de pianista, pautados por uma unha fina e longa não significam que a pessoa a quem pertencem seja .. agressiva. Esta particularidade quer unicamente dizer que essa pessoa tem mais propensão para exercício físico (?). Confesso que fiquei descansada .. ;)

Por outro lado, continua o mesmo estudo reputadíssimo, nos homens, os dedos curtos e grossos, normalmente apanágio de pouca estatura e alguma calvície (o que é que uma coisa tem a ver com a outra é a pergunta que se impõe..) significam "naturalmente" tendências violentas que não se expressam propriamente no chamado “andar à pancada” (provavelmente porque além de "violentos", baixos e calvos, são sensatos.. ) mas sim numa violência verbal e de atitudes como o perder rapidamente a paciência perante uma situação que o não justifique, alguma rispidez exagerada no trato..etc., etc., etc., que as conclusões são imensas .. as tais dos especialistas que a isto se dedicaram lá pelas notórias faculdades norte-americanas. Já estou mesmo a ver a quantidade de desculpas que se articularão a partir disto. E não estou a referir-me às articulações dos dedos dos desgraçados ora catalogados.

Ora bem, isto traz-me assim de repente um problema que não sei como resolver: eu que quando converso, discuto ou simplesmente oiço, gosto de me fixar nos olhos do meu interlocutor – coisa que já por diversas vezes me disseram que é desconfortável .. ;) – vou ter agora que me concentrar no tamanho dos dedos? .. conversar com alguém a olhar-lhe as mãos e esmorecer a conversa assim que me aperceba estar na presença de um "violento" embrionário? Ou por outro lado alimentar o diálogo assim constate que sairemos dali directamente para um sala de música com direito a piano de cauda?

Coisa cansativa esta que os eméritos “atiraram” agora cá para fora ..

;)

18 Sep 2008

vidas (iv)

É a crise, atira-me o Sr. Rodrigues, simpático dono do pequeno restaurante onde por vezes a preguiça ou a falta de tempo me mandam buscar o nosso jantar.
Ontem, pelas 19h30 já tinha a porta fechada, ficando a preguiça na pré e obrigando-me a descongelar à pressa uns bifes para grelhar com brócolos cozidos .. o legume eleito pela princesa para este ano ;)
Esta manhã, meio a brincar, refiro-lhe o facto de nos ter deixando à míngua. Ri-se e explica .. é a crise menina. Não vale a pena estar de porta aberta para dois ou três clientes, desculpe, envergonha-se. Antigamente tinha a casa cheia para o petisco. Agora a seguir ao almoço mais valia fechar.
Termino o café e saio. Venho o caminho a pensar nas tardes em que não havia mesa na esplanada para o petisco, como diz. O Sr. Rodrigues e a sua mulher, a simpática Dª Laura que mantém o hábito de passar discretamente meia dúzia de rebuçados do bolso do avental para a mochila da princesa, afadigavam-se atrás do balcão assando o chouriço, preparando a dobrada ou, em tempo deles, cozendo os caracóis. As imperiais geladas faziam fila em cima do balcão e era um rodopio de gente entrando e saindo.
Fiz um esforço de memória situar esta situação no tempo.
Espanto-me ao verificar que nem um ano passou.

É a crise .. reflicto, rápida, inodora, silenciosa.

crescendo (ii)

A família vai crescer e para o ano, por esta altura, teremos mais uma garota a tentar andar e a palrar em grande, assim saia a todos os membros mais novos desta família que por vezes mais parece de latinos puros e duros em vez de termos cada um costelas várias daquelas mais frias e serenas :) Eu disse aos mais novos? .. e os mais velhos são todos sossegados? Queriam .. ;)

Mais uma garota, mais uma sobrinha!
Finalmente uma prima exclama a princesa contente e feliz que ama os primos de paixão mas uma menina é uma menina mãe, e podemos fazer outras coisas! Com a diferença de idades que se avizinha eu vou querer ver que coisas são essas ;)
Mais uma menina. Mais uma sobrinha. Mais uma neta. A filha do irmão, o mais velho dos rapazes, arredio a estas coisas de crianças, limitando-se até agora ao papel de Tio cómico e bem disposto e sempre disponível, bem mais fácil que o de Pai educador e igualmente bem disposto e sempre disponível ;) Mais uma menina para a família. Somos quatro irmãos, serão dentro de dias, quatro os netos, na mesma cadência, meninas às pontas, rapazes no meio. Há coincidências engraçadas e esta é uma que não reconheço em outra família.

Mais uma vida.
Acarinhá-la, mimá-la, vê-la crescer feliz no seio de quem lhe quer bem.
Educá-la, ampará-la, entendê-la.
E para o ano, deliciar-me com mais uma cadeira no carro, mais uma fita, mais um banho de mar, mais um sono sereno de sorriso nos lábios.

Sê bem-vinda minha querida, esta tua tia está desejosa de poder embalar-te :)

17 Sep 2008

Modigliani




when i know your soul i'll paint your eyes .. Modigliani, pintor

Vi-lhe a vida. Brilhantemente interpretada por Andy Garcia.
Brilhantemente abrilhantada numa dedicatória que alguém fez à sua filha, órfã aos 6 meses de idade.
Vi-lhe o casebre onde vivia, a sua própria infância que sempre o acompanhou até ao dia de sua morte. Morte prematura e idiota como o são todas as mortes. Mas neste caso revestida de uma ironia com a qual pautava o seu discurso. Ironia fina de italiano inconformado, rebelde.
Reconheci o amor, esse sentimento em nome de um bem maior, na relação com a sua mulher. De tal forma intenso e incondicional que ela termina a sua vida, acompanhando-o à sua última morada. Mais drástico ainda quando nos apercebemos que estava grávida. Do segundo filho.
Acompanhei-lhe o arfar de uma tuberculose mal curada, agravada por uma vida de excessos. Vi-lhe a surpresa nos olhos ao reconhecer em Picasso, seu “inimigo”, o responsável pela sua libertação. O responsável talvez pelo “espicaçar” que a sua vida carecia.
A admiração e humildade ao ser apresentado a Renoir e a perplexidade comovente sem saber que responder ao Mestre quando interpelado "Are you insane?" Are we?
Vi-lhe a obra, e a vida, e fiquei a pensar: onde estará o forno que deu à humanidade pessoas como ele?
When i know your soul .. que no filme mudam para when I meet your soul .. num encontro de almas será possível olhá-las nos olhos? .. reconhecê-las? E colocá-las em tela com tanta serenidade, exprimindo esta tristeza quase feliz que pauta a sua obra? .. talvez.

:) confessa admiradora da sua obra.
Obra que conheci através do quadro Modigliani, pintado por Picasso.

vidas (iii)

Veio para Portugal há 5 anos. Ao abrigo de um acordo que nos liga a Cabo Verde, trouxe consigo o filho mais velho, deficiente. Veio com a esperança nos olhos negros e profundos e o coração pequeno porque para trás deixou mais três filhos. A mais nova com apenas três anos, todos entregues à avó e aos tios, seus irmãos mais novos. As consultas demoram uma eternidade. Os abrigados pelo acordo estão afinal bem desamparados neste País que abre portas e coloca assinaturas sonantes em papeis lacrados sem que a intenção de passar da teoria à prática seja posta em .. prática.
Continua a frequentar consultas que de bi mensais passaram a semestrais. A esperança vai esmorecendo, a saudade aperta-lhe o peito, a lágrima desesperada rola cara abaixo quando a voz da filha lhe diz no fim da imensurável linha telefónica “mamã eu não me lembro de ti”. Trabalha a dias em três sítios diferentes. Começa às 5h da manhã e acaba às 20h00 hora a que chega a casa, um pobre casebre nos confins dos limites da cidade, carregado de humidade, para preparar a única refeição do dia. O dinheiro que consegue manda para a sua família. A vontade de regressar é imensa mas sabe que ao fazê-lo perde o direito a que o seu filho seja observado e ajudado .. ainda que semestralmente. Trazer a família está fora de questão. Não tem com quem deixar os mais pequenos. Mesmo que conseguisse uma casa maior.
Ao fundo, a luz do túnel acende-se no sorriso do mais velho quando a vê chegar. Entende-lhe os sons como se de palavras se tratasse. Não tendo aprendido linguagem gestual quando lhe disseram que o seu filho era surdo mudo, estabelece com ele uma comunicação comovente de observar.
Veio para Portugal há 5 anos.
Ao abrigo de um qualquer acordo assinado por gente de bem, quero acreditar.
Ao abrigo de algo que na necessidade imediata e no presente .. não funciona.
Era bom que alguém lho tivesse explicado.

12 Sep 2008

crescendo (i)

A princesa arruma a mochila, tudo espalhado em cima da cama, profusão de canetas, lápis, borracha e afia, folhas quadriculadas e pautadas, dossier, cartolina e livros, tantos livros, imensos livros, credo! Vamos brincando com o inicio do 6º ano .. com o difícil que foi o principio do 5º ! A mãe arranja a desculpa para mais dois dias de férias e ela torna que este ano não é preciso ir almoçar com ela todos os dias mas que ainda assim gostava que a fosse buscar nos dois primeiros. Os telefonemas das amigas não param, combinam o local onde 2ª feira esperarão umas pelas outras, em que intervalo vão comprar a senha para o almoço e até o que levam vestido! Nossa Senhora ..! exclamo .. no ano passado daria tudo para te ter assim por esta altura, rio.
Eu cresci mummy não foi? responde-me, abraçando-me, de sorriso travesso.

Cresceu sim.
E como relatei na altura, cheia de pormenores, bem a meu jeito .. crescer custa.
Não adianta fazer de conta que não. Nem tão pouco, diz-me a minha experiência, adianta desvalorizar de sobremaneira. As crianças têm de sentir-se apoiadas para conseguirem superar o que as aflige. E esse apoio tem, no meu ponto de vista, de passar pela conversa. Sentindo-se à vontade para “contar” estão a resolver metade do problema que têm, enfrentando-o.
Pode até haver outras soluções mais drásticas, menos trabalhosas ..

Que seja um excelente ano, minha filha, este que agora começa .. * ainda crescendo, sempre crescendo.


Desejo-vos um bom fim de semana .. por aqui estaremos fora até 4ª ;) ou talvez não que o técnico da zon vai pespegar-se hoje lá em casa para me explicar tudinho sobre as ligações da nova peça de mobília * espero que seja uma pessoa mais paciente do que eu ;)

11 Sep 2008

vidas (ii)

A menina por detrás do balcão de madeira rugosa e antiga, a cheirar a pronto madeiras, com umas unhas que ficariam, à primeira, presas no meu teclado, levantou o sobrolho e olhou-me com uns olhos vazios articulando um “diga lá ..” provocando em mim instintivamente o desejo de lhe responder “”.
Sorri, cumprimentei-a com um boa tarde, ela enfadada observa a unha do polegar num trejeito amuado de quem detectou uma minúscula falha no verniz imaculado. Digo ao que venho, levantar um documento pronto na semana passada, em nome de fulana x para o que trago a respectiva autorização.
Falo depressa, eu sei. Normalmente quanto mais impaciente me sinto, mais depressa articulo. Interrompe-me a ladainha, com um “não percebi nada” enquanto traça as pernas roliças, tão roliças que não ligam com o pouco pano que as cobre. Não sejas má, admoestei-me.
Volta a mirar-me apreciando o casaco e descendo o olhos até ao que tenho calçado. Costureira, pensei, indiferente à consciência que me manda ser boazinha, boazinha ..

Mais calmamente, apelando à paciência que não é muita, também sei, volto a repetir o que me levou ao consulado. Um documento, que está pronto há seis dias, em nome de Y, aqui tem a autorização para que eu o possa levantar.
Levanta-se o estafermo (consciência, qual consciência? ;), ajeitando um minúsculo corpete e abanando consecutivamente a cabeleira para soltar os caracóis. Os joelhos metidos para dentro e os pés nuns saltos de agulha a competir em comprimento com as unhas, estragam a aparência de menina mimada em boquinha de quase choro quando me responde: mas isso não é comigo! escandalizada com a minha usurpação do seu precioso tempo de contemplação.
Fiquei esclarecida.
E abstive-me de lhe explicar que me era indiferente o que quer que fosse ou não com ela. Dirigi-me a outro balcão onde um senhor calvo e bonacheirão nos observava há dez minutos. Entrego a autorização. Recebo o documento.
Gosto do seu casaco, atira-me a energúmena à saída. Não tive como retribuir o cumprimento. Silêncio.
;)

09/11 - NY

"O que me perturba hoje é o fanatismo.
Um fanático não tem memória nem perguntas.
Só respostas."

Elie Wiesel – professor universitário e Prémio Nobel da Paz em 1986

10 Sep 2008

:)

esta é, sem dúvida, uma excelente notícia ;)

Parabéns Amigo Paulo .. Parabéns Corta-Fiteiros *

thinking (ii)

“Lessons are not given, they are taken.”

Cesare Pavese

vidas (i)

Tive uma vida cheia, muitos sucessos, muitos momentos.
Mas fui sempre admirada, nunca amada


É com esta frase que o visitante é acolhido na Exposição 50 Anos Maria Callas, 50 anos desde a sua actuação em Portugal, no teatro S. Carlos, cuja réplica em miniatura mantém a magnificência daqueles dias de 1958.
Uma voz, uma mulher, um verdadeiro Mito. Atribulada a sua vida pessoal e emocional como o é quase sempre a vida de uma mulher, estrela, caprichosa e estonteante. A considerada mulher mais elegante do século, dona de uma voz ímpar, comovente, zangada ou terna, prudente e arrojada, vê assim a sua vida exposta em vitrinas que contém a sua correspondência, cabides a preceito estampando os seus vestidos, quase todos os que usou nas diversas, imensas actuações com as quais brindou o público da altura. Público pelo mundo inteiro que a idolatrava, admirava, respeitava, mas não amava, segundo afirmou.

Mamã que sorte, diz-me a princesa, depois de passar uma hora com os phones gentilmente cedidos, sentada na representação de uma mini ópera trabalhada para o efeito que se pretende, a ouvir Rosina no Barbeiro de Sevilha. Que sorte tens tu por teres nascido enquanto ela ainda era viva! Remata, fazendo-me sorrir ..

Tenho sorte sim princesa, mas tenho sorte por tu gostares tanto como eu.
E tu tens sorte, sorte por conheceres, ouvires, viveres e sentires.
É disto também que é feita a tua aprendizagem na Vida.

Tante grazie Maria ..

9 Sep 2008

thinking (i)

(...) I believe that man will not merely endure: he will prevail. He is immortal, not because he alone among creatures has an inexhaustible voice, but because he has a soul, a spirit capable of compassion and sacrifice and endurance. The poet's, the writer's, duty is to write about these things. It is his privilege to help man endure by lifting his heart, by reminding him of the courage and honour and hope and pride and compassion and pity and sacrifice which have been the glory of his past. The poet's voice need not merely be the record of man, it can be one of the props, the pillars to help him endure and prevail.
Extracto do discurso proferido por William Faulkner – Nobel Prize 1949

Actual não? Íssimo .. diria ;)

Mas claro que para termos passado, aquele que honramos e o outro que de vez em quando nos arrependemos ou nos faz sentir envergonhados, temos inevitavelmente que dar importância a algo que para muitos não existe: a memória.

?questions?

Antes não compreendia que as minhas perguntas não obtivessem resposta.
Hoje não compreendo porque um dia acreditei ser possível fazer perguntas.
Franz Kafka

Levado ao extremo este pensamento, lido aqui, pôs-me a pensar no porquê (pergunta) das perguntas (redundância).
Na infância os Porquês revestem-se de uma importância tal que lhes foi inclusivamente atribuída uma Idade. Idade que em alguns de nós e felizmente, ultrapassa os 4/5 anos mantendo-se pela vida.
A necessidade de saber e de apurar razões.
A necessidade de entender, compreendendo e assimilando ou até mesmo discordando.
E a cada descoberta, resposta ou esclarecimento, outras dúvidas, outros porquês.

Há uma fase engraçada na criançada em que à primeira resposta surge naturalmente um outro porquê, sem sequer se ter ouvido a explicação. Costumo brincar com os que tenho nessas idades num “Oh Mr. Why is back!” Riem-se e calam-se com a ladainha, focando por vezes o interesse na verdadeira explicação que querem ouvir. Outras vezes, abanam a cabecita e partem para a descoberta seguinte. Já vi adultos fazerem o mesmo e nessa perspectiva não posso deixar de sorrir, “acusando-os” intimamente e em silêncio de .. superficiais ;)

Porquê? .. questão que normalmente se reveste de uma responsabilidade demasiada para quem responde. Por vezes dando origem a respostas vãs para satisfazer o pouco tempo do questionado ou a sua natural e inata falta de sabedoria, jeito, apetência para, enfim.. são vastas e naturalmente pouco explicadas as razões que nos levam a responder .. “porque sim.”

Ao contrário de Kafka, e naturalmente que em um outro contexto totalmente diferente, o meu contexto, já me espantei por não ter respostas às minhas perguntas, mas recuso-me a acreditar que tenho de as deixar de fazer.

8 Sep 2008

week-ends (i)


"Constância, Terra ribeirinha de Poetas e Reis", é a frase que nos brinda como mensagem de boas vindas, Constância terra de poetas, refúgio de reis, terra sem idade cheia da nossa história, feita de factos e estórias, rica em simpatia, doçaria, sorrisos de boas vindas num “voltem em breve”. Arena dos rios Tejo e Zêzere, terra fértil, verde e leve, com um constante cheiro a relva acabada de cortar. Terra de sol, de fruta doce e suculenta, de muita simpatia em gentes simples mas orgulhosas da sua Vila.
Constância, ou melhor Pugna-Tagi, denominação romana que significa Combate no Tejo, viu este fim de semana chegar duas aventureiras de mochila às costas e tratou-as como duas verdadeiras princesas.

Soubemos que D. Sebastião ali viveu por diversas vezes, em uma delas para fugir ao flagelo da peste. Concedeu à simpática Vila a honra de Villa sem carta de foral, tendo habitado a Torre do Castelo. Luís de Camões ali desterrado em cumprimento de uma pena por se ter metido com quem não devia, é ainda hoje, na boca dos mais velhos, considerado Mui Ilustre habitante da terra, com direito a Casa de Camões e um estátua cheia de significado mantida limpa e areada.
A Igreja de S. Julião, merece uma visita demorada, e a Ermida de S. João Baptista, com a sua escultura barroca representando o Senhor da Paciência, conseguiu comover-me. Senhor da Paciência, que sorte poder ser assim considerado :)

Voltámos às nossas rondas por este País lindo, que é Portugal. Deixamos de lado as notícias menos boas, atestamos o carro, preparamos um saco simples de pijama e muda de roupa e partimos de mapa na mão, pelo menos um fim-de-semana de dois em dois meses. Já tinha saudades destes nossos programas, afirma-me a princesa, ao mesmo tempo que procura qual a saída em que temos de virar. Também eu, penso intimamente, também eu, sorrindo tola por ter um dia pensado que talvez não os fizesse mais. Disparate!

No ano passado dedicámo-nos pouco a este nosso hábito, conhecendo apenas alguns Castelos e Museus, que fizeram as delícias da princesa, este ano decidimos visitar pequenas vilas, pequenos recantos, descobrir aqueles detalhes de que é feita a vida fora da grande cidade. Eu revivo alguns locais por onde já andei, ela descobre-os em primeira mão, curiosa, pertinente, companheira.

Voltámos cansadas mas cheias de verde, cheias de história, adormecendo num sono profundo e retemperador.
Eu já escrevi várias vezes o que para mim é a felicidade não já? .. Não me repetirei, então ;)

4 Sep 2008

intimism (ii)

Por causa desta Amiga que reavivou memórias em outras que lhe reavivei, dei comigo a viajar para trás no tempo e a ver o meu mês de Setembro ainda criança, ainda e puramente adolescente.
As vindimas na Beira eram uma aventura como poucas, grandes cestas de vime que ainda hoje sei entrançar, verdes ou negras do sumo da uva colhida, eram colocadas nos carreiros das videiras para que as mulheres, de lenço negro à cabeça e canto cristalino na voz, cumprissem um trabalho que de pesado se fazia leve. Nós, os garotos da cidade misturados sem diferenças com os garotos da terra, amigos até aos dias de hoje, percorríamos as veredas em equilíbrio tentando ganhar a corrida do cacho mais gordo ou da uva mais doce. Acreditávamos que ajudávamos à lide, sei hoje que atrapalhávamos mais que qualquer outra coisa, ainda escuto as gargalhadas do mulherio trabalhador quando ostentávamos um ar orgulhoso por termos conseguido arrastar um cesto cheio até ao reboque do tractor que subiria até ao lagar.
O lagar, com um cheiro adocicado e enjoativo, fazia as delícias da pequenada, aguardávamos na chamada fila indiana que nos deixassem rodar a manivela responsável pela primeira espremidela às uvas que eram atiradas dentro. Manivela responsável por uma ferida feia no nariz quando achei que conseguia, ainda de pouca altura, acompanhar-lhe o impulso. Ao fim do dia homens, mulheres e crianças de calças arregaçadas, abraçados e cantando os cantares da terra, pisavam a uva, sem parar. As unhas vermelhas e as pernas salpicadas de vinho. Gargalhadas noite dentro por cada desistência, nós, os pequenos, os primeiros a desistir, cansados do sono e dos vapores nauseados.
Era um outro Setembro. Feito de pão casqueiro e fatia de queijo de cabra com casca, feito de figos e dióspiros em quantidades abismais, da apanha da castanha e da seara dourada e colhida, a aguardar na eira o descasque da espiga. Feito de levantares madrugadores ao relinchar da minha égua, a Estrela, que me acordava cedo na certeza do passeio. Era um Setembro de camisola já vestida por esta altura, calça curta e pé descalço, para apreensão da Beatriz que nos inspeccionava no banho à procura da carracita do campo ou de algum lenho feio e a precisar de desinfectante. Era o juntar da lenha que aqueceria o cacau escuro e a água do banho quando regressássemos todos em Dezembro, toros enormes que crepitariam no lar franco e bem estruturado de uma lareira que era o orgulho do Pai. “Nem uma réstia de fumo dentro de casa! Aprendam, meninos, aprendam!”

Setembro que não queríamos acabasse, mesmo desejosos que pudéssemos estar na viagem de regresso à cidade para voltar à escola, aos amigos, ao “que fizeste nas férias?” certos de tanta aventura para contar. De outra tanta para ouvir.

Era o meu Setembro .. há anos largos atrás, quando ainda criança, quando ainda adolescente.

(Obrigada Cristina .. pela memória que “acordou”)
Excelente fim de semana que por aqui vamos de novo até outras terras, nossas terras :)

3 Sep 2008

a morte? não entendo ..

Notei-lhe o súbdito emagrecimento e pensei egoisticamente “separação”.
O olhar triste, a melancolia de gestos, o discurso monossilábico. Deixou de partilhar a sala de fumo, depois a cafetaria, deixou até de trazer o carro pelo que o breve bom dia na garagem em manobras de estacionamento desapareceu.
Hoje “apanhei-a” ao telemóvel a chorar.
Algo em mim se parte sempre que encontro alguém a chorar. Fica feito em cacos se esse alguém é pessoa conhecida, amiga, colega de trabalho. É o caso. Agarrei-a por um braço e saímos juntas da empresa. À hora madrugadora das 08h30, o café vazio. Sentei-a a uma mesa e pedi um pão simples e dois cafés. De frente para ela, perguntei-lhe “precisas de ajuda?”. Desmoronou a pouca coragem de dor feita, a mulher bonita, inteligente, que chefia um departamento inteiro de vontades cruzadas, desmoronou em lágrimas à minha frente. Um choro silencioso, copioso, sem tirar os olhos dos meus olhos na procura de uma calma que me diz costumo inspirar a quem oiço. Porque normalmente é só isso que faço: oiço.
E ouvi. Para meu embaraço ouvi que a conclusão precipitada que tirei da aparência, não tem fundo de verdade. O marido está com um cancro. 38 anos de idade. Poucos mais meses de vida.
Abracei-a tentando um conforto feito de batidas de coração em peito solidário porque as palavras, aquelas que por norma me saem a rodos, ficaram todas presas na garganta tentando segurar as lágrimas. Ficarei com ele até ao fim, murmura-me docemente. E muito depois do fim, continua.
Deixei-a sentada na mesa do café porque assim mo pediu. Não acredito que venha para o escritório hoje. Vim todo o caminho a pensar como é injusta esta coisa a que pomposamente chamamos Vida. Como se desperdiçam relacionamentos por coisas menores. Porque acabam aqueles que deveriam continuar. Porque levianamente se envolvem as pessoas para depois se abandonarem em sofrimento. Quantas as oportunidades de sermos felizes com alguém ao nosso lado? Quantas as pessoas que têm de passar pela nossa vida até encontrarmos a certa.
E quando a encontramos, amamos, partilhamos e somos felizes, vem o percurso cruel e inoportuno dizer-nos: ainda não é desta mas desta é de vez.
A morte. Algo que não entendo.

2 Sep 2008

Pelo menos não nos sentires sentidos que as comoventes letras da Leonor me inspiram.

o regresso

E voltamos à rotina?
Àquela saudável feita de dias de folhas alaranjadas e passeios à beira mar tentando compor a colecção de conchas fugidias em dias de Verão? Voltamos aos espectáculos e à separação dos brinquedos que serão vendidos no mercadinho de Inverno, os outros doados à Igreja numa tentativa de fazer outros felizes, despejaremos o roupeiro para nos rirmos tal a quantidade de peças de roupa que deixaram de servir à princesa do reino. Compraremos a fruta que dará o doce, a compota e a marmelada que gostamos de comer à fatia, fruta que coze em grandes e cheirosas panelas, dedos peganhentos a aliviar a gulodice. E as compras necessárias para a estação que se aproxima a passos largos, material escolar, o equipamento da ginástica rítmica, e as sapatilhas de ballet, a mochila e os livros encomendados há mais de um mês mas sem meio de aparecerem. Calças e botas que a princesa deu um pulo neste Verão, já tardava ;), um casaco comprido para o frio que não tarda instala-se na nossa janela. Janela que já não está tão verde e frondosa como até há uns dias atrás. As noites arrefecem, o céu escurece mais cedo, mas as estrelas parecem agora mais brilhantes. A princesa confessa a saudade ao telefone, o desejo de voltar. À sua casa. À sua rotina saudável. O quarto levou uma volta daquelas para acolher a nova peça de “mobília”. Finalmente um computador que as pesquisas para os trabalhos do 5º ano, feitas por vezes a correr no escritório, deram bons resultados mas são cansativas demais para a mãe que, normalmente, não tem tempo para “respirar” ;) iniciaremos juntas, como tudo o que fazemos na vida, a descoberta do mundo fantástico que a internet lhe pode proporcionar. Mundo extraordinário que se reveste por vezes de alguns perigos para os quais a tenho alertado. E continuarei. Não é de ouro, como costumo dizer, ainda que reluza na maioria das vezes. E o que pode proporcionar, originar e provocar tem tanto de positivo como poderá ter de negativo. Haja alguma cautela e partilha no manuseamento. Fico sempre surpreendida quando assisto à personificação de um PC na forma de uma babysitter, simples, silenciosa, económica. Mas bastante "perigosa" para ser alvo da curiosidade de uma criança solitária.

É Setembro e o regresso.
O regresso a uma rotina que já nos faz falta, à sopa de legumes trocada pelo creme leve durante o tempo quente, ao pequeno-almoço de torradas a estalar e leite a fumegar aquecido ao fogão .. aos pratos de forno e às sobremesas que se evitam em tempos de praia que o calor só puxa a salada e o gelado. Às tardes de estudo e serões de conversa ou leitura, enroladas no sofá, lembrem-me de procurar a minha manta, por favor .. ;)

Tempo de voltar às salas de cinema quando o Sol estiver no merecido período de repouso, a ronda pelos Museus que ainda nos falta conhecer e os outros a que queremos voltar. O teatro estreia a peça de Inverno e o concerto de abertura no CCB está aí à porta. Tempo para outros programas, com a saudade do mar expressa no sorriso de manhã de chuva num “vamos à praia?”

É Setembro. Que seja formidável mais este ano que agora .. recomeça *

1 Sep 2008

obviously ..!

-Monsters will come if you don’t sleep Tia. Please close your eyes. I’ll be watching them pretending I’m asleep.
- Who told you that?
- Lucas.
O Lucas tem precisamente a mesma idade. 4 anos. São best friends como gostam de se afirmar mesmo que por vezes (umas vinte por dia) neguem essa amizade num “no friends anymore .. ever”! .. abstenho-me de rir como me apetece porque sei o assunto sério e em meias palavras sem grande interferência (o pior erro dos adultos é acharem que têm de resolver este tipo de querelas nas crianças desta idade .. não podem. Já há muito que se esqueceram como o fazer), lá lhes dou o mote que sei dentro de no máximo 2 minutos se sentirem best friends, forever ;)
Esmiúço a questão deitada ao lado dele e olhando o tecto. Conto-lhe a quantidade de noites que já passei acordada, na rua ou em casa, de férias ou a trabalhar. Relato-lhe as noites em que quando criança levava um livro para debaixo dos lençóis e à luz da lanterna lia, ele ri-se, faz-me imensas perguntas, algumas completamente inesperadas, conversamos durante mais de uma hora sobre a terrível ameaça dos monstros que aparecem para levar os meninos que não dormem de noite.
Por fim, entre bocejos onde adivinho cansaço, torna: You know what Tia ? .. What? Pergunto-lhe. I guess there are no monsters in Portugal. Just in England.

Obviamente .. que outra justificação poderia haver não me dizem? ;)

..suspiro


;)

.. alguém faz o favor de me explicar que diabo estou a fazer de volta?