22 Sep 2008

intimism (iii)

Legado.
Dizem-me que mais que um diário, mais que um local onde despejo emoções e acontecimentos, queixas e reclamações, opiniões, credos e desacreditares, lágrimas, sorrisos e gargalhadas, este meu diário (que já vai no terceiro capítulo) é um legado que à laia de herança um dia deixarei à minha filha.
Peso a expressão avaliando-lhe as cambiantes e realmente não tenho como discordar. Imagino-a daqui a uns anos a ler tudo o que a mãe foi digitando por aqui. Imagino-a a tecer as suas próprias interpretações, avaliações. Imagino-a a sorrir ou quem sabe, por vezes, a verter uma ou outra lágrima. Imagino-a a acrescentar ao conhecimento que de mim tem, este conhecimento de letras feito. Emoções no papel. Esmiuçadas e transparentes. E sorrio. Que isso não me impeça de ser sempre eu por aqui. Tal como fora daqui. E vem-me à memória um filme que até há uns tempos elegia como o “filme da minha vida” As Pontes de Madison County. E vem-me à memória o espanto dos filhos ao descobrirem muito depois da morte da mãe, a troca de correspondência e os diários da sua progenitora, num desvendar de segredos que não acharam possível, num conhecimento como se de outra pessoa se tratasse. Segredos. Todos temos. Sempre temos. Que seja tão cristalina a herança que por aqui te deixo princesa como a vida que vivemos fora das linhas escritas, partilhadas.
Mesmo que venhas a saber algo que me escapou contar-te.