23 Sep 2008

intimism (iv)

até hoje aprendeste a ser uma senhora .. a partir de agora vais aprender a ser uma criada” a avó contava com um indisfarçável sorriso nostálgico esta parte da sua vida. Tinha quinze anos e desde os três que havia frequentado um colégio feminino. Disciplinas como o bordado, a pintura, o francês, o piano e a harpa, a par da Matemática e da História, que o pai queria que tivesse uma formação idêntica à do primogénito, fizeram parte integrante e diária de dias carregados de método e obediência, onde não faltava a educação física e a aprendizagem da língua portuguesa. Dias passados longe dos pais, estes em constante viagem pela profissão exercida, dias completos em que as amizades feitas vingaram para a vida, até depois da vida. Dias ao longo de doze anos, dedicados a brincar e aprender. No fundo, learning to play life, rematava.
Chegada a casa, entre abraços que a saudade carregada no peito era muita, recebeu de sua mãe esta instrução. Uma criada. E até casar, o que aconteceu aos vinte e dois anos, a avó aprendeu a servir. A esfregar soalho, a cozinhar do mais simples ao mais complexo, a elaborar listas de compras, a ir ao mercado, ao ferreiro e ao carpinteiro que a porta do armário da cozinha precisa de reparação, à costureira para as bainhas das calças do irmão ou o revirar de punhos e colarinho nas camisas do Pai. Uma outra vida? Não, a mesma, numa realidade que até aí lhe tinha passado ao lado, só em parte partilhada na brincadeira quando invadia as cozinhas do colégio para molhar os dedos à socapa nas grandes panelas onde ferviam os doces para o Inverno. Encerar um móvel ou arear os tachos que brilhavam dependurados por cima do fogão era trabalho fácil quando comparado com o esforço que lhe exigia o velho e pesado ferro de engomar. Aclarar, limpar, polir, medir, temperar e provar, cozinhar, lavar, limpar de novo e começar tudo na manhã seguinte que o trabalho de uma casa “is a never ending my dear .. a never ending..”
Talvez por isso .. talvez por outra coisa qualquer .. a avó manteve até ao último dia de vida a sua casa como um verdadeiro museu de limpeza. Lembro-me que ainda a trabalhar, levantava-se de madrugada para deixar tudo limpo, arrumado, “you know how you leave but you don’t know how you’ll return”, lembro-me que cozinhava como mais ninguém que encontrei a cozinhar bem pela vida até agora, lembro-me do arranjo, do asseio e do brilho que tinha sempre, mesmo acabada de acordar. O cuidado com o que a rodeava era projectado em si mesma numa delicadeza de gestos e figura, coisa inédita numa avó .. original há vinte anos atrás. Lembro-me .. e hoje em dia, à minha renitência em sair de casa sem a cama feita .. a princesa do reino exclama .. és igual à bivó mummy! .. ela, que sem nunca a ter conhecido, conhece-lhe bem a história.

Legados?
Sem dúvida. Tenho até para mim a teoria que somos em grande parte aquilo que queremos aproveitar dos nossos legados.