3 Sep 2008

a morte? não entendo ..

Notei-lhe o súbdito emagrecimento e pensei egoisticamente “separação”.
O olhar triste, a melancolia de gestos, o discurso monossilábico. Deixou de partilhar a sala de fumo, depois a cafetaria, deixou até de trazer o carro pelo que o breve bom dia na garagem em manobras de estacionamento desapareceu.
Hoje “apanhei-a” ao telemóvel a chorar.
Algo em mim se parte sempre que encontro alguém a chorar. Fica feito em cacos se esse alguém é pessoa conhecida, amiga, colega de trabalho. É o caso. Agarrei-a por um braço e saímos juntas da empresa. À hora madrugadora das 08h30, o café vazio. Sentei-a a uma mesa e pedi um pão simples e dois cafés. De frente para ela, perguntei-lhe “precisas de ajuda?”. Desmoronou a pouca coragem de dor feita, a mulher bonita, inteligente, que chefia um departamento inteiro de vontades cruzadas, desmoronou em lágrimas à minha frente. Um choro silencioso, copioso, sem tirar os olhos dos meus olhos na procura de uma calma que me diz costumo inspirar a quem oiço. Porque normalmente é só isso que faço: oiço.
E ouvi. Para meu embaraço ouvi que a conclusão precipitada que tirei da aparência, não tem fundo de verdade. O marido está com um cancro. 38 anos de idade. Poucos mais meses de vida.
Abracei-a tentando um conforto feito de batidas de coração em peito solidário porque as palavras, aquelas que por norma me saem a rodos, ficaram todas presas na garganta tentando segurar as lágrimas. Ficarei com ele até ao fim, murmura-me docemente. E muito depois do fim, continua.
Deixei-a sentada na mesa do café porque assim mo pediu. Não acredito que venha para o escritório hoje. Vim todo o caminho a pensar como é injusta esta coisa a que pomposamente chamamos Vida. Como se desperdiçam relacionamentos por coisas menores. Porque acabam aqueles que deveriam continuar. Porque levianamente se envolvem as pessoas para depois se abandonarem em sofrimento. Quantas as oportunidades de sermos felizes com alguém ao nosso lado? Quantas as pessoas que têm de passar pela nossa vida até encontrarmos a certa.
E quando a encontramos, amamos, partilhamos e somos felizes, vem o percurso cruel e inoportuno dizer-nos: ainda não é desta mas desta é de vez.
A morte. Algo que não entendo.