11 Sep 2008

vidas (ii)

A menina por detrás do balcão de madeira rugosa e antiga, a cheirar a pronto madeiras, com umas unhas que ficariam, à primeira, presas no meu teclado, levantou o sobrolho e olhou-me com uns olhos vazios articulando um “diga lá ..” provocando em mim instintivamente o desejo de lhe responder “”.
Sorri, cumprimentei-a com um boa tarde, ela enfadada observa a unha do polegar num trejeito amuado de quem detectou uma minúscula falha no verniz imaculado. Digo ao que venho, levantar um documento pronto na semana passada, em nome de fulana x para o que trago a respectiva autorização.
Falo depressa, eu sei. Normalmente quanto mais impaciente me sinto, mais depressa articulo. Interrompe-me a ladainha, com um “não percebi nada” enquanto traça as pernas roliças, tão roliças que não ligam com o pouco pano que as cobre. Não sejas má, admoestei-me.
Volta a mirar-me apreciando o casaco e descendo o olhos até ao que tenho calçado. Costureira, pensei, indiferente à consciência que me manda ser boazinha, boazinha ..

Mais calmamente, apelando à paciência que não é muita, também sei, volto a repetir o que me levou ao consulado. Um documento, que está pronto há seis dias, em nome de Y, aqui tem a autorização para que eu o possa levantar.
Levanta-se o estafermo (consciência, qual consciência? ;), ajeitando um minúsculo corpete e abanando consecutivamente a cabeleira para soltar os caracóis. Os joelhos metidos para dentro e os pés nuns saltos de agulha a competir em comprimento com as unhas, estragam a aparência de menina mimada em boquinha de quase choro quando me responde: mas isso não é comigo! escandalizada com a minha usurpação do seu precioso tempo de contemplação.
Fiquei esclarecida.
E abstive-me de lhe explicar que me era indiferente o que quer que fosse ou não com ela. Dirigi-me a outro balcão onde um senhor calvo e bonacheirão nos observava há dez minutos. Entrego a autorização. Recebo o documento.
Gosto do seu casaco, atira-me a energúmena à saída. Não tive como retribuir o cumprimento. Silêncio.
;)