17 Sep 2008

vidas (iii)

Veio para Portugal há 5 anos. Ao abrigo de um acordo que nos liga a Cabo Verde, trouxe consigo o filho mais velho, deficiente. Veio com a esperança nos olhos negros e profundos e o coração pequeno porque para trás deixou mais três filhos. A mais nova com apenas três anos, todos entregues à avó e aos tios, seus irmãos mais novos. As consultas demoram uma eternidade. Os abrigados pelo acordo estão afinal bem desamparados neste País que abre portas e coloca assinaturas sonantes em papeis lacrados sem que a intenção de passar da teoria à prática seja posta em .. prática.
Continua a frequentar consultas que de bi mensais passaram a semestrais. A esperança vai esmorecendo, a saudade aperta-lhe o peito, a lágrima desesperada rola cara abaixo quando a voz da filha lhe diz no fim da imensurável linha telefónica “mamã eu não me lembro de ti”. Trabalha a dias em três sítios diferentes. Começa às 5h da manhã e acaba às 20h00 hora a que chega a casa, um pobre casebre nos confins dos limites da cidade, carregado de humidade, para preparar a única refeição do dia. O dinheiro que consegue manda para a sua família. A vontade de regressar é imensa mas sabe que ao fazê-lo perde o direito a que o seu filho seja observado e ajudado .. ainda que semestralmente. Trazer a família está fora de questão. Não tem com quem deixar os mais pequenos. Mesmo que conseguisse uma casa maior.
Ao fundo, a luz do túnel acende-se no sorriso do mais velho quando a vê chegar. Entende-lhe os sons como se de palavras se tratasse. Não tendo aprendido linguagem gestual quando lhe disseram que o seu filho era surdo mudo, estabelece com ele uma comunicação comovente de observar.
Veio para Portugal há 5 anos.
Ao abrigo de um qualquer acordo assinado por gente de bem, quero acreditar.
Ao abrigo de algo que na necessidade imediata e no presente .. não funciona.
Era bom que alguém lho tivesse explicado.