18 Sep 2008

vidas (iv)

É a crise, atira-me o Sr. Rodrigues, simpático dono do pequeno restaurante onde por vezes a preguiça ou a falta de tempo me mandam buscar o nosso jantar.
Ontem, pelas 19h30 já tinha a porta fechada, ficando a preguiça na pré e obrigando-me a descongelar à pressa uns bifes para grelhar com brócolos cozidos .. o legume eleito pela princesa para este ano ;)
Esta manhã, meio a brincar, refiro-lhe o facto de nos ter deixando à míngua. Ri-se e explica .. é a crise menina. Não vale a pena estar de porta aberta para dois ou três clientes, desculpe, envergonha-se. Antigamente tinha a casa cheia para o petisco. Agora a seguir ao almoço mais valia fechar.
Termino o café e saio. Venho o caminho a pensar nas tardes em que não havia mesa na esplanada para o petisco, como diz. O Sr. Rodrigues e a sua mulher, a simpática Dª Laura que mantém o hábito de passar discretamente meia dúzia de rebuçados do bolso do avental para a mochila da princesa, afadigavam-se atrás do balcão assando o chouriço, preparando a dobrada ou, em tempo deles, cozendo os caracóis. As imperiais geladas faziam fila em cima do balcão e era um rodopio de gente entrando e saindo.
Fiz um esforço de memória situar esta situação no tempo.
Espanto-me ao verificar que nem um ano passou.

É a crise .. reflicto, rápida, inodora, silenciosa.