30 Sep 2008

vidas (vi)

Vieram como tantos os que vieram há anos atrás. À procura da carne de frango que aqui se pode comprar, do trabalho menor pago com mais peso que trabalhos maiores no país que os viu partir. São empregados de limpeza nos escritórios da nossa cidade, marceneiros e trolhas nas obras de "Santa Engrácia" das nossas estradas e passeios. Calcetam, carregam, limpam, escovam, despejam cinzeiros. Parte do que ganham mandam para casa. Para a mãe, para os irmãos, para os filhos que ficaram para trás. Com o resto alugam um cubículo em parte incerta na certeza do frigorífico cheio e das contas pagas.
Vieram como tantos outros. E com eles trouxeram dois filhos. Um ainda de colo, bebé loiro e lindo, daqueles que se admiram em anúncios Nestlé, grandes e expressivos olhos azuis como um céu de Verão sem nuvens e pele tão branca que rasa o transparente. O outro, menino de doze anos, como o são todos os meninos de doze anos.
Agora morreu-lhes este. O mais velho. Encontraram-no morto no apartamento cubículo que alugaram há tempos em parte incerta. Com catorze anos pôs fim à vida. Os problemas eram muitos e de diversa ordem. Não se conseguiu enquadrar na escola, não tinha amigos. Os pais dos colegas proibiam os filhos de se darem com ele. Muito loiro, muito bonito e de olhos igualmente azuis, mas os seus como um céu cinza carregado de mau agoiro, a própria aparência não ajudava a que passasse despercebido. Depois a fala. A linguagem que se esforçou por aprender e com a qual não se conseguiu fazer entender. Nem para pedir ajuda.

O racismo, a crueldade, a falta de tempo e paciência da escola que o acolheu. Os horários dos pais, sempre a trabalhar para conseguir. Conseguir chegar mais longe. Conseguir voltar.
Morreu. Sozinho, com catorze anos, num pequeno apartamento muito limpo, alugado para lá dos confins da cidade, frigorífico cheio de comida.

Morreu com a palavra saudade espelhada nos grandes olhos azul cinza.
E um sorriso de paz no rosto pequeno, bonito.

Descansa em paz pequeno Anjo .. e perdoa-nos.
Não te soubemos acolher, "nós" que te abrimos a fronteira fazendo-te acreditar que aqui .. seria tudo melhor. Maior.