31 Oct 2008

All Saints' Day *


O peru assa demoradamente no forno. O cheiro a gordura estaladiça invade o ar de quem tem a ousadia de entrar na cozinha. Descascam-se batatas pequenas de pele lisa e amarelada, as melhores para assar. Prepara-se o recheio, uma pasta apetitosa, bem temperada, que vai encher o bicho que continua, lentamente, a assar no forno de lenha.
A Beatriz grita ao marido por lenha. A garotada ri-se e vai ajudar a escolher os troncos mais pequenos e redondos, cortados a preceito e de propósito para que caibam na pequena fornalha.
Rasgam-se as alfaces em pedaços toscos, a cebola em tiras finas, lágrimas escorrem pelas rugas da Beatriz “olha-me esta que é danada!”.
A mesa é posta com desvelo. Retira-se da pesada arca, a toalha de linho branco, imaculado “bordada pela sua bisavó menina” diz-me a Beatriz todos os anos, os guardanapos são de pano a condizer. Copos de pé alto voltados para baixo, talheres em profusão, o pão casqueiro em lasca fina no cesto forrado com outro bordado.
Assa o peru lentamente e saímos todos de casa, bem agasalhados que na Beira o frio é de rocha feito, a caminho da Igreja para a Missa de Graças.
Batem os pés dos homens no adro, como que a espantar o frio, entram mulheres e crianças na Igreja acolhedora, antiga, tectos altos e Figuras que nos impressionam. As janelas de vitral espalham a ténue claridade em cores que alegram as almas.
Assa ainda o peru. Devagar. As pequenas cestas do “Pão por Deus” estão prontas, à espera da criançada que vai correr a Vila ainda antes do almoço. Bolos de mel, torrões e pasteis de abóbora encavalitam-se na cesta da mais nova que já não pode com o peso. Há gargalhadas no ar frio que aquecem os corações dos mais velhos “venha cá menina que não lhe dei inda o meu”!

Cheiro a batatas assadas, salada bem temperada de fio de azeite grosso, amarelo. Cheiro a lareira acesa e a bola de azeite, peganhenta, deliciosa.
Para a mesa Meninos, para a mesa!”

Cheiros da minha infância. Tão perto .. tão longe.

Wish you a warmer and blessed All Saints’ Day :)

30 Oct 2008

readings (v)

A Carla Maia de Almeida aqui, num texto brilhante de resposta a um "porquê?"

Torquato da Luz .. começam a faltar-me os termos de apreço, fica uma singela homenagem.

descobri há pouco este registo, irmão de outro de que gosto, e ainda em "exploração" .. fica a dica :)


and listenings:
Mummy deveríamos poder deixar de estudar as matérias com as quais não concordamos não devíamos? Como um voto em consciência? Mummy?
(estuda-se a descoberta do ouro brasileiro pelos Bandeirantes e o comércio de escravos negros)

Thanks! (iv)



verdadeiro tantra Meu Amigo ;) .. mas sabes que o mais que te aprecio nas letras e na Vida passa literalmente por mimos destes também :)


Obrigada *

intimism (xii)

.. não sei se gosto mais da praia de verão ou de inverno. E não o sei por razões que se prendem com a diferença que nos pauta a postura em ambas as estações.
Se por um lado me encanta o ar parado e quente, o céu azul de farrapo branco, imóvel, o mar de onda mole, acolhedor, as corridas à beira mar, o chapinhar da criançada, e aqueles dias que não acabam nunca com um sol laranja até escurecer. Se prezo e acolho de sorriso franco os mimos do Sr. Barbosa que nos reserva os toldos e arrasta cadeiras umas atrás das outras para a família que cresce todos os anos .. se o gelado carregado de nata e aparas de chocolate me desafia as contas calóricas com as quais não me preocupo .. mas é coquete fingir que sim ;) enfim .. se por um lado a praia de Verão é sinónimo de pele morena, sardas com fartura, cabelo descolorado e ar saudável .. acima de tudo um ar muito saudável (não confundir por favor com saudavelzinho) ;) por outro, começa agora a nossa praia de Inverno.
E confessamos saudades.
A princesa salta da cama ao domingo às 8:00 am, pequeno almoço tomado e corre a procurar os polares e as botas castanhas, calça de ganga arregaçada, boné na cabeça e lá vamos nós para o passeio matinal. Eu não disse já que sou feita de rotinas? Disse sim ..
A praia por esta altura tem um encanto que nos escapa no verão, que se esconde das dezenas de pessoas, das bolas de futebol, encanto mudo nos guinchos da criançada.
Um encanto que se prende com o mar mais revolto, mais cinzento. O vento mais forte que alisa o areal, intacto à hora que chegamos. Vento que rosa as faces e quase greta os lábios, sabe bem o polar não sabe mummy grita a princesa em correria para aquecer, aos ziguezagues de braços abertos. Os surfistas de fato negro, verdadeiros amantes desta força da natureza, acenam-nos sentados nas pranchas à espera da Onda. Gosto de passear nesta praia, que é a minha praia de sempre, mas que nesta altura me parece sempre diferente da altura em que a vivo de férias. Uma praia feita de dunas, urtigas secas ao vento, conchas pequenas, partidas a fazer uma ténue fronteira que brilha no sol baixo que já não aquece.

Encontrámos uma concha surreal .. um misto de búzio com laivos escuros a lembrar a casca do mexilhão, aspecto rude, quase “dinossaúrico” .. vou levar à tia mummy .. ela é arqueóloga, vai saber o que isto é!
Gargalhadas.
E o nosso riso ecoa na praia quase deserta .. eleva-se o tom, no som da onda que rebenta ao longe .. salpicos de sal nas faces coradas, trazidos pelo vento que despenteia cabelos.

Querem que me repita? :)
.. eu repito-me: a felicidade? .. somos nós e os momentos a que nos dedicamos que a construímos. Estou cada vez mais convencida que posso acreditar nisto.

29 Oct 2008

intimism (xi)

I really miss you tia! Diz-me o petiz ao telefone, conquista de tia mais velha que ele não fala com ninguém através do aparelho, condicionante que compensa largamente ao vivo e a cores.
I really, really miss you tia, continua, perguntando de seguida pela prima, pelos desenhos que tenho na porta do frigorífico feitos por ele, assegurando-se assim que não os deitei fora, pelo parque da red web que trepou para além do cansaço todos os dias do mês de férias que connosco passou, pelo “cáfé” que frequentávamos todas as manhãs e onde as garotas lhe atiravam um hello! efusivo assim que se aperceberam que o cabelo negro e o olho de lago profundo as enganou na assumpção da nacionalidade. I miss you more, Mr. C digo-lhe, provocando uma gargalhada. Acha gira esta minha mania britânica de baptizar tudo e todos por Mr.&Mrs. ;) perguntando de chofre “what about Mr. Frogy, do you think he misses me too?” .. Mr. Frogy é o meu carro .. um twingo que a princesa baptizou de sapo assim que o comprámos .. ;)

missing .. saudade .. em peito de tia .. em peito de sobrinho :) devia ser proibido os irmãos viverem a mais de 10km de distância .. ai devia, devia!

.. e Fevereiro está tão longe ainda, mas a boa notícia é que as viagens .. já estão reservadas! ;)

Thanks! (iii)



desta vez, o meu Obrigada a esta menina das letras que escreve .. como eu gosto .. e muito :)


Querida Paula, bem-haja*

pieces (iii)

Olho à minha volta.
A manhã está calma, o telefone não toca. Os papéis estão arquivados e há dois relatórios que esperam notas laterais que não me apetece fazer. Um totoloto em cima da mesa com uma nota de dez euros agarrada como que a desejar a dizima .. dois potes com canetas e lápis, marcadores, régua, faca de correio, borracha, afia, post-its de todas as cores, uma verdadeira fixação minha esta de colocar cada um no local de assinaturas importantes. Ou outras. Uma caixinha de cartão feita pela princesa há anos serve de abrigo a cartões de visita e outros, cada um de seu tamanho, cor, conteúdo. Mais um escaparate para envelopes, Dl’s do meu descontentamento com medidas precisas, um inferno na hora de imprimir usando um aparelho que além de imprimir, recebe faxes, tira fotocópias, scaniza documentos .. inteligente a coisa.
Chega um colega e pergunta-me pela princesa. Sente-me em silêncio nos últimos dias. Atribui a algum problema com a mais que tudo. Parte descansado, abrigado no meu sorriso “está óptima, obrigada”.
O telefone continua mudo, sente-se por todo o lado a crise, como se de luto andássemos, em ponta de pé. Silêncio.
O móvel pequeno, cinzento, gavetas ordenadas por prioridades, não há nenhuma que me indique a lista de compras que deixei em casa, isso sim era importante agora.
Outro móvel mais robusto alberga o material do andar. Lápis, canetas, mais post-its, agrafes de todos os tamanhos e clips então? São às dezenas que se espalham em alegre cantoria de cada vez que a gaveta fecha. Por muito cuidado que se tenha na operação. Há dois dossiers azuis, brilhantes, aos meus pés, ainda não arranjei local para os ter à mão sempre que necessário, nada melhor que estarem ao alcance do braço esticado. No chão. Provavelmente não passarão daí. O papel dos rebuçados de mentol com os quais, durante o dia, engano a vontade de fumar, brilha no néon das lâmpadas cuidadosamente escolhidas ao abrigo dos ISO impostos e os outros, inventados. “Estás a imprimir?” pergunta-me uma cabeça que assoma à porta do gabinete .. Não, respondo .. está a receber um fax. Vejo os olhos arregalados como que assustados e um riso de gozo “uhh spooky!” já me cansei de explicar que o aparelho inteligentíssimo que temos no piso faz ligeiros e diferentes barulhos assim esteja a imprimir, a receber faxes ou a proceder ao pdf de um documento. Não me acreditam? .. pois.

Param os olhos no relógio do telefone. Alarga-se o olhar até à pequena foto da princesa numa moldura de íman, ligeiramente escondida por detrás do écran grande demais que me ocupa parte da secretária. Sorri a minha filha, mecha de cabelo caída, vestido de verão.
Está óptima sim, obrigada.

28 Oct 2008

do desinteresse (iii)

Estou tão descansada com o vosso trabalho, interrompe a dona de um cabelo flamejante, calça curta, justa, branca, salto de agulha que me leva a temer uma fractura ali mesmo. Mas tão descansada, reforça nasalando o ditongo num verdadeiro exercício vocal. Deixei completamente, mas completameeennnte, (eu não estou a exagerar) de me preocupar com os trabalhos de casa ou com os testes do Dinizzzzz. A sééééério! termina, para bem da audiência que estava de inspiração sustida, à espera..


Reunião no ATL da princesa.
Apresentação de Resultados, Projecto Educativo e preparação da Festa de Natal.

Elucidativo?
Sem dúvida.

pieces (ii)

Chegar a casa, pousar os sacos, mandar a criançada para a banheira e entrar na cozinha. Espreitar o frigorífico na esperança que os gnomos do dia tenham deixado algo pronto e com aspecto apetitoso para os comilões da noite. Não deixaram. Esquecera-se que lhes dera folga.
Despejar as mochilas para se rir com a quantidade de pequenos tesouros que se encontram nos pátios das escolas. A água para a massa ferve ao lume, os lanches do dia seguinte são preparados e a roupa do estendal apanhada.
Grita o mais velho que a irmã não o deixa em paz. Esganiça-se a mais nova, tomada de génio, porque ele lhe puxou os cabelos.
Calma meninos, tenta ela apaziguar, do alto dos seus 20 anos feitos de “mãe”.
Salta a mais pequena da banheira para o pijama com direito a massagem e escova nos cabelos difíceis de domar. Salta e pula pelo quarto com uma perna vestida e a outra por vestir, ri-se das partidas, ela de gatas a puxá-la! Anda cá que és minha! Termina no abraço apertado.
Menina rebelde feita de mimo de mana.
O garoto clama por atenção, também quer, tudo igual menos a escova que o cabelo é liso e espetado, curto e sem direito a pente.
Voltam a encher-se as mochilas depois de apreciados os trabalhos. Ele na 3ª classe, letra primorosa e perfeição, antevendo um futuro de artista, ela na pré primária, ainda trapalhona, e com coisas bem mais interessantes para acumular do que os livros e o caderno. Um frasco com uma osga lá dentro. Uma caixa cheia de minúsculas pedras brancas onde jazem três formigas mortas. Já estavam mortas quando as apanhei! Atira-me, prevendo o sermão.
A água continua a ferver, ainda sem massa. Céus como é tarde! reclama, olhando o relógio.
Sentá-los à mesa com cantigas de amigo, vigiar os pratos que esvaziam a concurso, acalmar os “sou muito melhor que tu!” e partir a fruta, em lascas fininhas, como gostam.

Vamos rezar mana? Pergunta-lhe a petiz, olhos negros em alvo, sorriso de anjo. Ninguém diria das patifarias de que é capaz, pensa comovida. Vamos rezar meninos, concorda, puxando o irmão para dentro dos lençóis, está a arrefecer, tem de se lembrar de trocar as cobertas por cobertores e agasalhar as saídas amanhã de manhã ..
Anjinho da Guarda, começam os dois em coro, Doce Companhia, continuam compenetrados ..

27 Oct 2008

Thanks! (ii)


À Teresa Coutinho por mais um atirado nesta direcção ;)

Obrigada *

blameworthy!

Dou-me bem com silêncios eu .. com isso e com a mania que tenho de colocar o “eu” no fim das frases .. não sei de onde me vem a primeira mas a segunda vem certamente da misturada de línguas que me concedo em termos literários, escritos e outros.
Dou-me decididamente bem com silêncios .. (eu), e nada me custa entrar numa sala onde a conversa está generalizada sem o impulso que assisto em tantos de “atirar a minha acha!” Mais, consigo estar ao lado de alguém com quem nada tenho a partilhar, num silêncio profundo sem olhar para o tecto, para as unhas, para a janela, sem soprar baixinho ou fazer meios sorrisos à procura do mote que dê ao fio do pensamento a verbalização politicamente correcta que o momento exige.
.. e ainda, em tempos “nublados” e de cinza carregado remeto-me ao mais abstruso dos silêncios. Assim, serenamente e sem esforço. Como se o esforço maior fosse continuar a interagir sem ter muito a acrescentar. Ou será sem me apetecer?
Gosto, contudo, de falar. De conversar. De trocar ideias sobre determinado assunto ou de contestar veementemente algum ponto de vista com o qual não concordo. Cansativa, chamam-me alguns. Sei que sim.
E gosto igualmente de ouvir. Sou boa ouvinte, dizem outros, por acaso os mesmos ;) assim me concentre no que me estão a dizer.
E é na palavra concentração que está o meu grande problema de atitude.
Retrato-me publicamente portanto, mal algum virá ao mundo .. espero. Aliás, se atentarem no número de linhas escritas até à palavra “concentração” percebem rapidamente o que quero dizer.
A minha concentração, ou quem sabe a sua ausência, prega-me partidas como se de vontade própria estivesse revestida. É do signo!, atiram-me aqueles que percebem nos meus olhos que eu já ali não estou e mais vale calarem-se ou judiarem começando a falar de algo completamente diferente. É do signo, que é o da dualidade. Da inteligência. Do dom da palavra, gosto eu de pensar desculpando-me pateticamente pelas verdadeiras viagens que a minha mente faz quando o que oiço, leio, assisto, estudo ou interpreto, não me “cativa”.
Cativar é a palavra mágica de um livro lido em voz alta, à cabeceira da minha princesa quando ela era ainda bebé. Cativar implica responsabilidade, acompanhamento, amizade.
Cativas-me mas não tens o poder de me prender atira Nietzsche do alto da sua sabedoria. Cativar. Interessar. Concentrar. Estar num só momento de corpo e alma.
Focar. Não gostando do termo que ultimamente saltou o conceito fotográfico para fazer parte de palestras empresariais, chego à triste conclusão que o meu problema passa por um handicap na “focagem”.
Tenho, decididamente, de voltar a oftalmologia.

E isto tudo porque gosto de silêncios, hein? .. quem diria.

24 Oct 2008

public service (iv)

O TIL – Teatro Infantil de Lisboa, estreia (finalmente mummy!) a peça de Inverno :) mãe e filha, fãs deste e de outros eventos, estarão lá para aplaudir mais uma excelente adaptação, não tenho dúvidas eu, vistas todas as outras. Mas .. só aplaudir sim Mummy? atira-me jocosa a minha mais que tudo, que se lembra das lágrimas maternas na estreia de Camões, o Príncipe dos Poetas .. hum .. ok, concedo ;)

Domingo estará um verdadeiro dia de Verão, portanto e à laia do se me for permitido conselho: saiam .. passeiem, apanhem ar .. sinto um ambiente pesado em algumas janelas por aqui .. nada como as por “para arejar” ;)

E .. o título é serviço público .. so, se não me lerem até ao fim arriscam-se a acordar uma hora mais cedo na 2ª feira :) muda-se o “tempo” .. espero que não a vontade!

Nice, bright week-end *

do interesse (i)

Quanto custa o queque, pergunta o garoto que tenho ao meu lado ao balcão. Oitenta e cinco cêntimos atira-lhe a rapariga por detrás do mesmo, de mau humor matinal.
A pele arrepia-se-me, olho-a nos olhos, baixa os dela e pergunta em outro tom “queres um?”
.. Não, responde o menino, atalhando, e quanto custa o croquete? Um euro e dez, responde a moça mais simpática.
Conta as moedas o menino ao meu lado. As unhas estão sujas mas a roupa limpa, ainda que velha. O tom de pele é mais moreno que o nosso colocando-o algures entre o cabrita e uma qualquer mistura com sangue nórdico porque os olhos são de um verde assustador. Quase irreal.
Conta afincadamente as moedas na palma da mão direita, com o indicador esquerdo. Tem sessenta e cinco cêntimos. Mostra as moedas à rapariga e pergunta, dá para comer alguma coisa, isto? O tom é ainda orgulhoso. Mas o lábio treme denunciando o esforço. A rapariga troca um olhar comigo e coloca um queque na mão esquerda do menino, fechando-lhe a direita sobre as moedas. Queres um copo de leite?

23 Oct 2008

23rd october, 1915

..tea, scones and books
Foi assim que fui criada.
Foram assim os meus serões ao longo dos anos, era assim que curava as constipações tapada até ao pescoço, era assim que descobria as palavras complicadas e o que queriam dizer de Lello Universal aberto sobre os joelhos. Foi assim que estudei, que me formei.
E era invariavelmente, assim, à volta de uma chávena de tea ou de uma caneca de café com leite, e um prato de scones quentes a escorrer manteiga que tínhamos as nossas grandes e profundas conversas sobre a vida. Sobre o que líamos, os espectáculos que víamos, as notícias e os acontecimentos no país .. neste e no outro, aquele longe que nos pertencia também.
Falávamos sobre a família, os valores e o respeito. Ensinavas-me a etiqueta e a educação como coisas tão naturais como pedir um copo de água ou retirar uma mesa após a refeição. Nada era um drama. Nada era mais complicado que a complicação natural que tinha o desconhecido. Até deixar de o ser.
Falávamos, argumentávamos, concordando ou não.

Não voltei a encontrar na vida que até agora vivi uma mente como a tua, Avó.
E aprendi. Tanto que aprendi contigo sem saber que me ensinavas.
.. You’d better put some milk in your tea my dear .. :) I still do granny *

22 Oct 2008

Thanks!


Está todo vaidoso o meu diário.
A sério.
Chego ao escritório, ligo o computador e oiço-lhe a voz ainda meio sonolenta a chamar-me do teclado num desassossego de quem tem algo de muito importante para me contar. Calma, respondo-lhe, na direcção da cozinha para a chávena de leite com café que não dispenso a esta hora.
Oiço-o a reclamar da secretária. Que não lhe ligo nenhuma, que nem os bons dias lhe dei, que me esqueço que já tenho computador em casa e escusava de ter passado a noite na ignorância da coisa fantástica que tinha acontecido na minha ausência, bla, bla, bla, que chato! Atirei-lhe! Conta lá vá!, concedo, sentando-me, mãos à volta da chávena, olhos no écran.

Querida Júlia e Caro Flip, Obrigada.
Como já tive oportunidade de Vos referir mais que os prémios e verdadeiramente Prezável é a Vossa presença e companhia por aqui :) Isso e a gentileza com que me recebem em Vossas casas.

Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras.
Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve seguir algumas regras:
1. Exibir a distinta imagem;
2. Linkar o blogue pelo qual recebeu o prémio;
3. Escolher 15 outros blogues a que entregar o Prémio Dardos.

Vou aproveitar serenamente a cábula da Júlia .. recebi-o a dobrar posso mencionar mais que quinze certo? ;) sei que alguns que ora cito já o receberam, mas ainda assim, sem intenção de transformar o Agradável num verdadeiro e infernal tantra :), ficam entregues os “meus” dardos!

pensamentos

21 Oct 2008

pieces

O Senhor Francisco que usa calças cinzentas quase até ao peito com um cinto largo de couro escuro e puído a meio da barriga, camisa aos quadrados pequenos de cor indefinida, e uns sapatos pretos, lustrosos e bicudos, mantém-se atrás da máquina registadora defendendo o pequeno balcão onde a mesma assenta como se de um bem precioso se tratasse.
Estrategicamente colocado à porta da cafetaria, cumprimenta, solícito e simpático, quem entra tratando as meninas por meninas e os rapazes por “então meu rapaz”. Não interessa a idade que temos, o que trazemos vestido, se somos ou não clientes assíduos. Atrás do balcão de comes e bebes, com umas vitrinas de vidro já riscado mas limpo repletas de salgados, fatias de bôla, quiches e pizzas às doses, atarefam-se as duas empregadas entre o panelão da sopa do dia e os pedidos que não param de chegar. Água para três, duas cervejas bem geladas, dois panados no pão tira-lhe a alface que o menino não gosta. Reparo que o menino é um senhor calvo e bastante forte, enfiado na cadeira com os cotovelos em cima da mesa. Ao fundo, numa mesa sozinha, uma rapariga brasileira fala bastante alto tentando dar indicações a alguém que não conhece a cidade.
A minha atenção prende-se ao tecto da cafetaria.
Sempre me intrigou o tecto daquele local onde, por vezes, como um folhado e bebo um sumo em corrida contra-relógio que o trabalho aperta. Um tecto cheio de vivos dourados e anjos insuportavelmente balofos, rabos ao léu e harpas em mãos sapudas. Anjos de caracóis outros de cabelo liso e comprido, justificando o que se diz, sem sexo. Os frisos percorrem o tecto rectangular, curvos nas esquinas, um dourado brilhante e quase sedoso que contrasta com o velho frigorífico castanho sem congelador e com os riscos no vidro da vitrina.
Sai uma fornada de pasteis de nata e pão acabado de cozer. A Dª Arminda, costureira do bairro, assoma à porta e grita lá para dentro “Maria, não te esqueças dos meus seis!” fazendo-me sorrir, enquanto que por momentos gelam as conversas em burburinho.
Afinal o conviva da rapariga que se afincava ao telefone conseguiu dar com a casa e saem os dois em alegre conversa própria de um povo alegre. Em qualquer circunstância. Simplesmente alegre.
Termino o meu café e preparo-me para o habitual “então já vai menina? Não quer mais alguma coisa?” com o qual o Senhor Francisco brinda quem se despede.
“Fiquei bem Sr. Francisco, até amanhã”! ;)

examples. are you sure?

Sinto-lhe os pés arrastados em pantufas de fazenda, quadrados debotados sem cor definida. Oiço-lhe a tosse cavernosa, profunda e dolorosa em laivos de agonia que esconde fechando a porta do hall. Atento agora na voz da filha cuja ladainha conheço de cor: “pára com isso! Quero dormir!” e adivinho a lágrima que provavelmente lhe correrá face abaixo, o peito dorido da enfermidade e da falta de carinho, que bem lhe saberia “pai estás bem? Queres um chá?”.

Atento na vida que me rodeia, mania que desde sempre tive, no início para me esquecer da minha depois porque sim.
Olho-o nos olhos na manhã seguinte, sai cedo para o pão do pequeno-almoço deixando a “criança” mais um pouco na cama, e vejo a mesma dor que adivinho em noites sem descanso, as rugas mais profundas e amareladas de um corpo sem ar, o cabelo em desalinho de quem já não quer saber. As roupas exalam um ligeiro cheiro a mofo e o lenço de pano pende um pouco fora do bolso das calças.
Desce as escadas para a porta da rua, muito direito e segura-nos a porta num “se faz favor meninas” ao que a princesa lhe lança um sorriso e um sonoro obrigada, encolhendo-se para não lhe bater com a mochila e fazendo-o sorrir.
É um dos. Dos muitos que nos povoam as ruas, as padarias à abertura, os lares, os centros de saúde a todas as horas. Solitários, incompreendidos, vistos como carga de trabalhos, muitas vezes abandonados. Os nossos idosos estão tristes.
Que podem os nossos filhos esperar de uma geração que assim (mal) trata as suas raízes?
Exemplos?

20 Oct 2008

intimism (x)

Ao longe vejo os cães em alegre correria, latidos sonoros, respingo de água e marcas na areia.
Mais à frente um grupo de criançada de fato de mergulho vestido atenta nas instruções do professor de surf, um jovem de cabelo negro e grandes olhos brilhantes que eleva a voz acima do burburinho do mar. Este mais violento que em moles dias de verão, rebenta sonoro na areia molhada, grande extensão de humidade, salpicos salgados nas faces coradas.
A princesa estafa-se em rodas, aranhas encarpadas e espargatas que ainda me fazem suster a respiração. Figura esguia de sombra projectada na areia. Sorri, corada do esforço e do orgulho num “viste mãe?’” :)
A manhã está serena, paira no ar aquele fresco de um Outono diferente, um Outono que ainda permite a manga curta e a ausência da meia, um Outono de manhã de praia feito, cheira a sal e a maresia e a onda, enrolada ao longe, convida.

Adoro passeios na praia.
Ténis na mão, cabelo ao vento, sem tempo e sem horário, sem nada a cumprir que não seja respirar fundo e fugir a correr areia acima daquela onda mais afoita que pensa pode apanhar-me desprevenida. E pode! ;)

shall we?

Notei-a.
Chegou de mansinho mas notei-a.
O Minipreço que fechava orgulhosamente no sábado ao meio-dia, passou a estar aberto, sábados à tarde e Domingos todo o dia. Passámos a caminho da pastelaria onde nos concedemos o pequeno-almoço aos fins-de-semana num "luxo" próprio do tarde que acordamos e vimo-lo. Portas abertas. 11h45 am. Três clientes na fila da caixa registadora.
A papelaria fechada de Sábado à noite até segunda de manhã, passou igualmente a abrir ao Domingo. A gentil dona que nos cumprimenta com “tenham um bom dia” tem os olhos mais encovados numas olheiras agora permanentes e o cabelo não está já tão impecavelmente arranjado como costumava. O vício de uma unha bonita é grande, haja quem me entenda, por favor, mas o salão onde vou há anos esmorece em conversas próprias da ausência das almas à procura do verniz mais brilhante .. e a dona, Amiga de longa data, queixa-se entrementes que não sabe como fará .. se assim tudo continuar.
A loja das flores alargou o horário de fecho, não vá alguém precisar de qualquer coisa depois da hora e assim salvar o dia, responde-me a rapariga de avental quanto lhe pergunto “ainda por aqui" ..
Não me bastam os avisos e cenários dos financeiros em local de trabalho. Não me chegam os avisos que comecei a receber ainda mal entrados em Janeiro deste ano, sobre o que por aí viria. Não os ignorei mas não vi ao meu redor grande margem para explicar a preocupação que me consumia.
Agora vejo.
Vejo caras preocupadas, portas abertas, outrora fechadas, tentativa de se fazer “mais qualquer coisa” para dar para as despesas. Vejo agora portas fechadas, outrora abertas, porque o pouco que se faz, não dá “nem para a luz acesa, menina”.
E penso. Intimamente penso: no limite dos limites teremos a fibra que tiveram os nossos avós ao lidar com a Crise com a qual todos comparam a que vivemos e viveremos? Teremos a solidariedade, a preocupação social, a capacidade de racionar se assim for necessário? Tem ainda em si o ser humano a noção da senha, do pouco, do parco? Estaremos preparados para partilhar, se for necessário, e acima de tudo para pedir partilha, quando necessário?
Não estou certa disso.
E percebo que o alarmismo só vai provocar o pânico.
Mas estou preocupada. Tenho obrigação de estar.

17 Oct 2008

week-end? indeed .. :)

.. e por "indeed" entenda-se, mais do que a tradução do termo, que se é fim-de-semana é fim-de-semana e é para ser aproveitado ..!
So .. para além dos mimos da avó ;) e de uma tarde de estudo (sim, claro, os testes, as revisões e o facto da mãe gostar de aprender com a filha ;) .. vamos até aqui apreciar o que se faz *
Que o vosso seja excelente *

do desinteresse (ii)

Chegou a casa mais cedo.
Levava-lhe um ramo de rosas vermelhas, lindas e perfumadas, por si escolhidas no olhar espantado da florista e demais presenças na loja aquela hora tardia.
Quis um laço de ráfia a desafiar o piroso dos laços de cetim com que as floristas gostam de enfeitar as rosas escolhidas por homens. Como se no cetim do laço estivesse impresso em letra vinte e quatro o pedido de desculpa mais extraordinário. Ráfia, se fizer o favor, pediu, e a rapariga, simpática, colocou de lado o cetim.
Nada havia a pedir desculpa.
Queria oferecer-lhe flores porque queria oferecer-lhe flores. Nada mais. Os tempos não estavam para se gastar dinheiro mas um dia não são dias e ao fim e ao cabo há quanto tempo não tinham um serão como antigamente? Pernas cruzadas no sofá, tabuleiros em frente e conversa noite fora? Demasiado espartilhados na vida, nas obrigações da vida, que raio e a vida vive-se também, não?
Sorrindo, entrou no restaurante de Miss Naburo e levou jantar. Sabia-a a trabalhar até tarde. Duas cervejas bem geladas, sem álcool, e umas maças assadas completaram o menu.
Ainda se riu sozinho ao sair do carro à porta de casa. Verdadeira mestria aquela que equilibra as mulheres com as mochilas da escola, os sacos das compras, as bolsas e o chapéu-de-chuva.
Entrou em casa, sorrateiro. Colocou tudo em cima da mesa da sala de jantar e preparava-se para se libertar da gravata quando ela lhe aparece.
Rolos na cabeça, cara branca de creme, pijama e roupão.
A voz saiu-lhe roca como se tivesse bebido “tão cedo! E pra que são as flores? Ao menos trouxeste algo que se coma?!”

Encontrei há dias um ramo de rosas vermelhas no contentor da reciclagem de cartão e papel, da minha rua.
Rosas vermelhas com laço de ráfia e um papel preso onde se lia “aqui jaz ..”

16 Oct 2008

public service (iii)

a glória, como vós sabeis, é uma coisa amarga” constata Mishima no último parágrafo do “Marinheiro que perdeu as graças do mar” .. Ryugi, marinheiro em terra, apaixonado e perdido no mundo em solo firme, cede a pactos com a adolescência militarizada à qual pertence o seu enteado.
As constantes alusões à “âncora no centro do emblema em forma de lágrima” que brilha no boné de marinheiro remete-me para a amarra que aquela adolescência perdeu, num mundo, de repente, privado do “hábito” que a guerra atirou borda fora em lágrimas de gente desesperada.
Tenho de ser pior, não vou sucumbir” e crescem assim os anti-adultos ainda que destes dependentes.

Acabei-o, pela segunda vez, sem que desta me tenha acompanhado a voracidade da leitura e o encantamento pelos termos de uma tradução fantástica. O marinheiro que perdeu as graças do mar apareceu-me como alguém que sem se conseguir incluir, fazer aceitar, aceitar e viver perante determinados parâmetros que não entende, prefere deitar tudo a perder numa jogada antecipando o fim, o castigo, o respeito pelo acordo, a concretização do pacto.
De antemão. Como que de propósito.
The sailor who fell from grace with the sea” .. bastante mais poético o título em inglês, digo eu que de imparcial não tenho nada.
A história chocante escrita por alguém mestre na arte da palavra, no significado da palavra, na colocação do leitor dentro do sentimento que pretende. Cirurgicamente, diria.
.. “entreguei a alma ao mar e o coração a uma mulher” .. e sem alma, como poderia defender-se? Será que alguma vez quis defender-se?

(tenho de parar de reler eu .. fico sempre com muito mais dúvidas que no final da primeira leitura) :)

do desinteresse (i)

Entregaste o documento, perguntou-lhe em voz arrastada, assim que a sentiu meter a chave à porta. E compraste pão? Mandei-te uma mensagem pra comprares pão. Para que raio queres tu o telemóvel se nem te dignas a olhar para ele de vez em quando para ver se há alguma coisa importante?
Também te liguei duas vezes à hora do almoço, queria saber onde andavas. Almoçaste com alguém? De certeza que sim pra não me teres atendido. Ainda gostava de saber se as tuas colegas de almoço também não atendem os maridos quando eles ligam. Provavelmente coisa boa não andam a fazer!
E tu, almoçaste com quem afinal? Não foi com aquele rufia de cabelo oleoso que te cumprimentou no outro dia quando te fui deixar ao escritório, pois não? é que se me dizes que foi c'aquele metro e noventa de sorriso colgate, amanhã vou lá perguntar-lhe se ele não tem mais nada pra fazer q'assediar as mulheres dos outros.
Entretanto tenho um recado. A vizinha de baixo veio cá bater outra vez a queixar-se dos lençóis que penduras no estendal. Estão muito compridos, diz, tapam-lhe a luz na cozinha. Vê se tens cuidado, um dia destes ainda tos corta. Está gira a gaja. Mais magra, mais arranjada. Ficou sem homem, foi o que foi, que me contou a do primeiro no outro dia no café.
Estou tão cansado, chegas-me os chinelos? Estão no quarto mas a lâmpada fundiu-se, a propósito a mensagem que te mandei também falava na lâmpada que se fundiu, a de cima no candeeiro do tecto, não consigo ver nada nem chegar ao outro candeeiro. Chegas-mos?
E lembraste-te do meu jornal. Estou aqui o dia todo sem ler um jornal porque tu nunca te lembras de mo trazer. Que vais fazer para o jantar? Tiveste tempo para pensar nisso pelo caminho? A sopa acabou se vinhas a contar com ela.


Chegou a casa exausta.
Pousou o saco do pão no balcão da cozinha e tirou rapidamente os bifes para temperar. Na sala a ladainha do marido parecia um rádio a tocar baixinho uma música irritante. Reparou que estava descalço quando passou para a casa de banho, de saída, atravessou o quarto às escuras, pegou nos chinelos e colocou-lhos aos pés, ao mesmo tempo que lhe deixava o jornal no braço do sofá. De regresso à cozinha, fritou os bifes, bateu uns ovos para uma omeleta cheia de salsa como ele gosta, preparou uma sopa de pacote pensando intimamente “que se lixe”.
Guardou tudo e dirigiu-se de novo à sala com um bilhete na mão.
“tens o jantar no forno .. venho mais tarde”.


PS_ não extrapolem .. sou incapaz de me orientar no escuro, eu ;)

15 Oct 2008

intimism (ix)

Sentadas no sofá, enroladas na manta que já apetece, folheamos álbuns de fotografia.
A paixão é de família, genes, gostos, curiosidades, enfim, desculpas há várias mas o facto é que a fotografia tem ainda de ser impressa, colada no álbum e comentada.
Esta coisa nova dos cds, com etiquetas brilhantes e canetas irritantes que só servem naquelas superfícies lisas e impessoais, não são para mim. Ficheiros partilhados e sites para arquivo daqueles pedaços com os quais sorrimos, choramos, relembramos e recordamos algo ou alguém, ou até os outros que de repente rasgamos porque aquela realidade ali fotografada já não cabe na nossa, também não.

Sentadas no sofá, enroladas na manta que já apetece, folheamos álbuns de fotografias que ordenamos, datamos e comentamos. E rimo-nos com os comentários, com as poses, com as surpresas. Com o crescimento, as roupas que se usam, usavam .. será que ainda se voltam a usar? “A mãe com cara de mim” .. como dizia a princesa, os tios tão pequenos “nem acredito” e aquela fase em que um deles descolorou o cabelo, gargalhada, as parecenças dos primos, os amigos, os avós, dedo no lábio e um beijo depositado na fotografia de quem já partiu.
Gostamos destes serões nós .. a aparelhagem debita baixinho um blues na voz sensível e mimada que veremos em breve, ao vivo, a televisão está desligada e quando damos conta é quase meia-noite! A menina não tem de se levantar cedo amanhã?! .. oh mummy .. só mais este, pode ser?

:) partilhas .. momentos.

Blog Action Day 2008 - POVERTY - 15th October

Difícil é reconhecer de longe
a índole de muitos, por mais que sejamos sábios:
de facto, alguns escondem sob a riqueza a sua maldade,
outros, sob a miserável pobreza, escondem a sua virtude
Téognis .. Poeta, Grécia Antiga


E que virtude maior escondem os que nada têm se não a capacidade, teimosia, persistência e esperança em manter-se vivos.

E qual será então a nossa obrigação, perguntam-me .. esgotadas que estão as promessas de erradicar esta e outras realidades em programas governamentais assumidos, assinados e guardados no armário.

Estou cada vez mais convicta que é ao comum dos mortais, grupo no qual me incluo, que vai aparecer a grande solução e que é dele que se espera um activismo em prol de um bem maior. Utopia? Sei que sou muitas vezes acusada de o ser, inclusive ingénua, crente e crédula, mas pensem comigo:

Considero a obrigação da partilha, de levar a água e o pão onde eles não existem, de assumir a minha quota-parte de responsabilidade neste mundo, na minha passagem por este mundo que não pode resumir-se só à postura pacífica do trabalho, casa, educação e acompanhamento, família, Domingos, espectáculos, amigos e Amigos, jantares e almoços, férias, natais e aniversários. Amores, desamores, “nuncas” e “para sempres” em quantidades industriais que desafiam o bom senso.
Trabalho, trabalho, trabalho, prendas, dinheiro, lembranças, missa, esmola.
Sorrisos e abraços, agradecimentos e zangas. Amizade e pazes e zangas para mais pazes.
Até ao infinito, eu no centro do mundo que me viu nascer? .. Não, obrigada.

O empenho em fazer que mais não seja uma décima de milímetro no imenso mapa de preocupações sociais que há mais quem tenha.
A noção clara que o que faço é a grande, enorme, abissal diferença entre fazer algo .. e não fazer rigorosamente nada.

Só isso. Não é difícil, vos garanto.

14 Oct 2008

intimism (viii)

Onde foi?
Onde foi menina que aprendeste?
Quem te ensinou a elevação no ar, a graciosidade do gesto, o sorriso nos lábios?
De onde foi menina que chegaste, branda e delicada, em pequenos mas firmes passos de dança?
E que música é essa menina que te anima, como que intimamente e só por ti escutada, que te eleva a perna e o pé em ponta, arcos de luz que rodopia e se espalha quando andas?
Onde foi menina que aprendeste e como foi que não dei por te ensinarem?
(da minha, digamos que, envergonhada autoria) :)

"A Ginástica Rítmica é uma actividade desportiva de infinitas possibilidades de movimentos corporais, realizados fluentemente em harmonia com a música e coordenados com o manejo dos aparelhos próprios desta modalidade olímpica, que são a corda, o arco, a bola, as maças e a fita. "

A princesa do reino foi conquistada pela modalidade. Os intensos anos de ballet facultam-lhe uma mobilidade e elasticidade que fizeram as delícias da professora e a convicção que acertou ao colocá-la na aula dos catorze anos.
A mãe, bom, sem que ela me oiça ;), devo contar-vos que a noto um “nadica” apreensiva porque todas as alunas são nada mais nada menos que o dobro da sua menina, mas vai disfarçando, deixando de ir à porta da sala de aula e ficando no bar a beber um café e a ler um livro, enquanto que a pequena ginasta em potência se estica e desdobra.
Ainda bem que a não vê. Aí sim, deixaria de estar um nadica qualquercoisa ;)

Blog Action Day 2008 - POVERTY

Apercebi-me da causa numa das melhores casas que conheço.
A juntar a outras que podemos diligenciar, ou mesmo que seja a única que somos capazes de empreender.

O texto que escolhi já foi por mim publicado. Em Maio de 2007.

.. este garoto foi entretanto por outros substituído. De repente de um dia para o outro, deixei de o ver lá. Na altura apertou-se-me a alma com medo que algo de grave lhe tivesse acontecido. Idiota, pensei. Mais grave que o estar aqui ao sol ou à chuva a mendigar piedade?
Os outros que por lá apareceram são em tudo parecidos. Todos com um sorriso nos olhos e um esgar de tristeza nos lábios .. quem sabe famintos, na maioria dos dias.
A indiferença dos carros que param no semáforo, essa é incrivelmente a mesma. Ou pior.


Paro naquele bendito semáforo todos os dias.
Parece de propósito, de facto. Quer venha às madrugadoras oito da manhã com reuniões marcadas para os quinze minutos seguintes, quer entre desportivamente às dez e trinta ou ainda mais perto das onze horas, quando a maioria já está a pensar “que vou eu hoje almoçar?” .. o certo é que aquele sinal simpático e vermelho está invariavelmente à minha espera naquele cruzamento complicado. Hoje, estacionada de novo por ali tal a eternidade da espera, olho pelo retrovisor e vejo um garoto a pedir no meio dos carros. Sujo, calças rasgadas, um dos ténis três números acima do seu, aberto à frente mostrando umas unhas sujas, magoadas. Camisola de lã dois números abaixo, rota, mangas enroladas, cabelos em desalinho. Aproximou-se devagar do meu carro que por norma tem o vidro aberto, pensei em dois segundos na quantidade de mails que recebo com experiências (falsas na maioria) menos boas de abordagens em semáforos e estacionamentos e olho-o. Directamente nos olhos. A expressão dele como que apanhado de surpresa foi o de baixar rapidamente os olhos e murmurar um “não é obrigada senhora .. não é obrigada” .. afastando-se calmamente num andar que coxeia ligeiramente. Olhei a sua frágil figura agora encostada aos arbustos que ladeiam aquele cruzamento, numa espera calculada que o sinal “caia” de novo, para prosseguir o seu pedido. Virou-se de repente e olhou-me .. sorri-lhe e ele acenou-me um adeus .. um adeus igual aquele que a minha filha me lança do portão da escola todos os dias em alegre correria, um adeus simples, mãozita no ar acenando, como qualquer criança da sua idade, numa realidade miserável que nenhuma criança da sua idade deveria ser “obrigada” a viver.
Não somos obrigados? Não, de facto, não somos.
Mas se não é por “obrigação” como podemos em consciência desobrigar-nos de?

13 Oct 2008

intimism (vii)

Estás cada vez mais parecida com avó, mana .. atira-me o recém-papá ao ver-me encher a chávena de café com leite.
Sorrio e fico meio alheada a lembrar quantas foram as chávenas altas que vi a avó encher de leite com café ao longo da vida. Acreditava que dessa forma iludia a úlcera aborrecida que lhe havia aparecido aos quarenta anos de idade e escusava-se a tomar a parafernália de medicamentos que o simpático Dr. Novais lhe receitava anualmente.
Sentados na mesa da sala, conversámos sobre tudo, e sobretudo sobre nada, na tarde de Domingo .. visita obrigatória à sobrinha caçula que perfez quinze dias, linda, perfeita, com os meus olhos, dizem na família, inchando-me o “ego”. A princesa em pose de adoração, deitada na cama de casal ao lado da prima vai-lhe contando histórias e prometendo reservar as bonecas que ainda existem, os fatinhos e os puzzles para “quando cresceres”! A garota, como se a entendesse, abre os grandes olhos amendoados e aperta-lhe o dedo na sua mão minúscula, lisa e sedosa como só a pele de um bebé saber ser.
O meu irmão, cujo sorriso deslumbrante de orelha a orelha ainda não se desvaneceu desde que a filha nasceu, invade-me as respostas, pergunta sobre tudo, as reacções, os choros, o leite e as consultas, enquanto a Mamã assiste contemplativa e em estado de graça aos pequenos desenvolvimentos da sua mais que tudo.

É o milagre da vida .. uma criança faz-nos pequenos, minúsculos, vão-se as palavras e instala-se aquele sorrir sereno e feliz ..
.. e perante o sorriso com que adormece a petiz dou por mim a rezar e a agradecer.
Obrigada.

pieces

Está arrependido, dizem-lhe.
Asseguram-lhe.
Ela sorri perante o quadro de o ver arrependido do que quer que seja.
Congratula-se com o sentimento “nem que o arrependimento matasse”.
Interroga-se sobre como será que o expressa.
Será que tudo ainda desabona?
Tudo desconsidera?
E continua “tolo” como se afirmava? Como só os rapazes sabem ser, costumava dizer, esquecendo-se que de rapaz já pouco tinha.

Está arrependido, escrevem-lhe. Tentando quiçá provocar algo mais do que um sorriso.
Um sorriso igual aquele que lhe provocou a mensagem “não vos mereço” .. mais que um sorriso, uma atitude.
Uma tomada de atitude.
Uma iniciativa. Daquelas que ele tanto apreciava, esperava.
Está arrependido, afiançam-lhe.
E ela sorri.
Exasperadamente calma.
Sem nostalgia de tempos idos e sem vontade de outro algo que não seja sorrir.
Porque é só o que lhe merece.
Um sorriso.

10 Oct 2008

.. saudades

Saiu cedo de casa com o alguidar de roupa à cabeça. Ainda não eram sete horas e os campos, húmidos das lágrimas da noite, cheiravam a alfazema e pão-de-ló. É do cereal em crescimento, explicara-lhe o Mateus, o dono da horta, o que a deixara curiosa. Houve até uma noite que se levantou a meio na tentativa de vislumbrar as minúsculas padeirinhas a percorrer o prateado do campo banhado de lua. Contava-lhe ainda o Mateus, que durante a noite a actividade era imensa por aquelas bandas. Não ouve os cavalos, menina? Ele dão conta de tudo. Ora escute uma destas noites. E ela escutava. Apurava a audição a todos os barulhos nocturnos, conhecia-os de cor e construía verdadeiras estórias de encantar com as quais adormecia os irmãos: Eram as lebres que recebiam os pequenos ratos do campo em mesas redondas cobertas por toalhas bordadas à mão, servindo, a gosto, um chá feito de pequenas raízes do campo a saber a madressilva. Ou as corujas em conversa animada com o velho lobo do monte em frente que não se atrevia a atravessar a estrada que separava as colinas com medo do javali, dono e senhor das terras do lado de cá. Tudo servia de motivo, e a sua imaginação corria solta e feliz pelo campos dourados do Sol, terra de torrão seco feita, agora a caminho do tanque, que ainda distava.
Gostava de lá chegar, colocar a roupa no alguidar de molho com uma pitada de sal e detergente, deixá-la corar aos primeiros raios de sol que se via já despontar por detrás da serra e entreter-se com o que a rodeava. Hoje faço de mula pensou rindo interiormente, e vou puxar água à nora.
O Leão, velho serra da estrela e sua companhia naquela hora madrugadora, latia e abanava molemente a cauda à sua espera do outro lado da estrada. Era tão velho, pensou, que toda a vida me lembro dele aqui. Toda a vida? Ora .. a minha vida tem 14 anos! riu-se ..
Vem cá Leão ..! Olha o que trouxe para ti meu preguiçoso ..
Alguidar pesado de roupa à cabeça.
Imaginação solta que corre mundo na terra da Beira.
Beira com cheiro a pão-de-ló.
Saudades ..


_ Com um agradecimento a este Amigo que partilha o gosto e o respeito pelas raízes .. e os votos de um excelente fim-de-semana a todos *

9 Oct 2008

Quit? What do you mean .. quit?!

Sentados à mesa.
O horário do jantar era escrupulosamente respeitado ou não fosse a única refeição em que todos se encontravam. O pai à cabeceira observava a prole, raparigas à direita, rapazes à esquerda. Os mais novos fitam-se em caretas e acenos de cabeça numa ameaça “eu conto!”, enquanto comem a sopa em silêncio. Os copos estão voltados para baixo, porque a ordem para beber acompanha o pousar da colher no prato de sopa vazio. Os mais velhos tentam captar a atenção paterna, sem grande alarido ou o cabo do garfo fará aquele barulho característico batendo no tampo da velha mesa, pedindo silêncio. Saem os pratos de sopa, entra o tabuleiro do cabrito assado acompanhado de puré de batata. O Pai prova e aprova, e os pratos são servidos. Cada um tem direito ao pedaço que mais gosta, que ela, a irmã mais velha, é feita de boa memória. E bom ouvido. Uma leve pressão no ombro do irmão mais novo dos rapazes para que pare de bichanar à irmã tudo aquilo que a irrita. Conhece-lhe o feitio e o ar de anjo. Eu? Será a pergunta imediatamente a seguir à admoestação, provocando um “sim tu!” estridente da parte da caçula. Ela, que sem ar de anjo, leva sempre, invariavelmente a água ao seu moinho, ondas ameaçadoras à paz familiar.
O cesto do pão roda pela mesa, e o pacote de leite vai enchendo os copos à vez. Dois litros de leite, bebíamos acompanhando o segundo prato. Ainda não existiam os pediatras que hoje nos proíbem de o fazer.
À pergunta paterna sobre o fio do dia, o mais velho dos rapazes começa uma litania sobre o liceu, as dificuldades, a vontade de ir trabalhar. Tem 16 anos e acha-se um homem feito capaz de decisões difíceis. Os mais pequenos desatentos, brincam com o molho no montinho de puré qual conduta ou barragem em risco de transbordo. O pai olha-me nos olhos na tentativa de perceber até que ponto já saberei da novidade, logo eu que sei de tudo o que se passa naquelas assoalhadas. Baixo-os. A conversa centra-se na falta que os estudos fazem, a necessidade de formação, o pai relembra os seus próprios tempos de liceu, em colégio interno, e a bengala que tal lhe deu para a vida profissional. O adolescente ouve respeitosamente e remata num assomo de coragem “tenho 16 anos Pai, a minha decisão está tomada!”

Lembro-me como se fosse ontem e passaram vinte anos. E lembro-me porque em conversa com a minha filha há uns dias atrás, ouvi dela a frase “.. estudarei enquanto puder estudar não é mãe? Quer dizer .. se não acontecer alguma coisa grave que me obrigue a desistir antes do fim”

Enquanto puderes.
E mesmo quando não puderes princesa, enquanto eu puder.
desistir?” .. desconheço o verbo.

8 Oct 2008

readings (iv)

Brilhantes olhares que por aqui nos deixa vislumbrar um velho amigo destas andanças :)
Parabéns Luís! Cada vez melhores estes teus trabalhos *

Descobri há pouco tempo este blog da Carla Maia de Almeida .. gosto de a ler *

reflexão à laia de desabafo .. or the other way around

Que motivos obscuros estarão por detrás do simples facto de se seleccionar o endereço de um blog para ir directamente ao sitemeter que, como qualquer criança sabe, espelha o número de visitas e a sua respectiva identificação.
De que diabo (perdão) se andará à procura nos meandros de uma internet, que não vê nem caras nem corações, para silenciosamente se espiarem as frequências alheias?

A minha vizinha, inconsequente e metediça nas intrigas do desconhecido, tentando viver a vida alheia, presa à notícia da padeira, da porteira e do carteiro, faz o mesmo, a coberto de uma porta de madeira, espreitando pelo minúsculo óculo e sendo rapidamente denunciada pelo cão que gane dolorosamente achando que vai à rua.

Que premente inevitabilidade em saber mais do que o que contam por aqui as linhas ligeiramente acastanhadas em fundo branco, poderá servir de desculpa para, diariamente, várias vezes por dia, à leitura do texto seguir-se a leitura dos preciosos comentários que deixam por aqui os meus igualmente Preciosos Leitores habituais?
Acaso alguma informação secreta?
Acaso alguma inspiração?
Acaso nada?

Identifico-Vos mas não vos entendo. Nem quero ..
Mas não posso deixar de pensar que o que move alguns para este tipo de voyeurismo deve ser a mesmíssima coisa que me afasta a mim deste género de atitudes: Maneira de Estar, Modo de Ser.

7 Oct 2008

readings (iii)

a ler .. e acima de tudo, assimilar e pensar nas consequências do nosso "alegremente cantando e rindo .."

public service (ii)


Encore .. Kipling

Já me confessei sua fã .. já ousei traduzi-lo para português num ensaio que me deu um prazer extraordinário, tentando a palavra certa para que conseguisse senti-lo em Português como o sinto na língua original, mais fácil para mim..
Já falei por aqui no Eye of Allah, conto soberbo sobre a descoberta precoce e antecipada na história de uma pequena lente de aumentar .. com as consequências inerentes, todos os “demónios”, de repente, visíveis e não só imaginados. E a surpreendente conclusão a que se prestam as últimas linhas deste conto.
Agora terminei a Casa dos Desejos .. uma colectânea de contos de Kipling, compilados sob a supervisão de Jorge Luis Borges, com uma brilhante introdução.
Não é comum ler escrita e assumida a verdadeira admiração pública por este escritor de quem gosto tanto. E explicada a sua “pouca” notoriedade quando comparado com outros, ilustres e idênticos da sua época. Kipling escreveu para crianças, justifica o preliminar, e como todos os escritores a que tal se dedicam, numa qualquer altura da vida, não foi muito levado a sério. Mesmo quando escreveu .. a sério;)

Confesso que li este pequeno livro de 6 contos, numa noite. O último - o Jardineiro - conhecido em outras andanças da minha vida de devoradora de letras, voltou a encantar-me.
Pela simplicidade, pela mensagem que foge aos protagonistas mas se atira olhos dentro com artes de luz de néon, pelo brilhante arrumar sem lugar para dúvidas do Bem e do Mal. Pela noção tão pacifica de que o Bem, essa força maior, vence sempre. Inevitavelmente. Sem “tardança”, sem parágrafos enormes ou pensamentos impenetráveis.
Assim.
Simples.

6 Oct 2008

public service (i)

Ivan Sergeyevich Turgenev, 1818/1883, foi um dos mais importantes novelistas e dramaturgos Russos.
Pais e Filhos”, obra da qual já falei por aqui, considerada uma das mais importantes obras de ficção do século XIX, deu-lhe além de uma profunda conotação polémica, a ponto de o fazer abandonar o seu país, a projecção a nível internacional da teoria por si defendida e baptizada por Niilismo.
O Niilismo é uma designação e conceito filosófico presente em diversas áreas tais como a literatura, arte, ética, mora, teorias sociais .. Da autoria de Rossano Pecoraro, o livro Niilismo, esclarece-nos, numa introdução brilhante à definição deste “sentir/ser/estar”: “O Niilismo é a desvalorização do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao porquê. Os valores tradicionais depreciam-se e os princípios e critérios dissolvem-se”.
Contudo, para os que aqui caem na comparação fácil, não se chega a uma anarquia.
Os Niilistas têm os seus próprios códigos, defendidos nem que seja à custa da ausência dos mesmos. E se por um lado a visão Niilista do Mundo pode parecer aos mais conservadores uma visão pessimista e negativista na ausência de certezas absolutas a defender, por outro, o tudo colocar em causa e o desmantelamento de ideias sem fundamento, torna-se essencial quando o que se pretende é: desmistificar. A assustadora ausência de fundamentos, verdades ou critérios dá ao Niilista uma outra percepção da sua própria liberdade.
Recordo na personagem de Bazarov em Pais e Filhos, a leve arrogância no desmantelar de uma hipocrisia empedernida e o abandono de tudo o que não pudesse ser justificado cientificamente. Cheguei a sorrir de frases com “maltratar mulheres e servos, manter a escravatura ao mesmo tempo que se escrevem poemas ridiculamente ingénuos e superficiais. Isto é um costume? Acabem-se os costumes!
Descendente de uma família de proprietários rurais abastados, Turgenev foi vítima frequente de maus-tratos por parte da mãe, uma mulher inflexível mas demente. Até que ponto terá este trauma influenciado a sua escrita é uma questão legítima quando vemos na sua obra um tratamento tão cerimonioso para com as mulheres. As mães são meigas e caridosas, pactuantes e pacientes e as outras sempre possuidoras de algo atraentemente fatal.
Bacharel em filosofia aos dezanove anos de idade, publicou igualmente nessa altura a sua primeira colectânea de poemas.

"Whatever a man prays for, he prays for a miracle. Every prayer reduces itself to this: Great God, grant that twice two be not four”
“A round-faced young woman peeps out of window; laughs at their words or atthe romps of the children in the mounds of hay”

Terminei, agora, o “Primeiro Amor” com alguma surpresa.
À volta de uma mesa, amigos de longa data recordam os seus primeiros amores. O protagonista escusa-se a falar preferindo escrever afincadamente e durante quinze dias como foi a sua experiência amorosa. A primeira. O relato que Turgenev nos oferece é intenso, cheios de raivas, inseguranças, ciúmes, contingências do século, inibições sociais e outras. O final que nos proporciona é a verdadeira surpresa inesperada. E mais uma vez saliento o papel da mulher. O da mãe do apaixonado desiludido.

Como pode um Turgenev sujeitar-se a ser criticado”, dizia-lhe a sua inconstante mãe, assim que o soube escritor.
Não pode.
Nem tem que.
Digo eu que o acho brilhante.

3 Oct 2008

school (i)

Alterou o sistema de faltas, justificadas ou não. Os pais apuraram a atenção e a diligente Directora de Turma da princesa lá de casa, passou a explicar em que consistia. Ficámos a perceber que em termos de faltas não justificas as crianças só poderão dar as mesmas do tempo de aulas que têm semanalmente. Em relação às faltas justificadas tal equação duplica, sendo que em ambos os caso a contabilização é feita anualmente e contadas todas as faltas dadas não interessa em que período lectivo. Ao regressar após um período de falta a criança será colocada na sala de estudo, aumento a carga horária diária de tempo na escola, para revisionar a matéria que perdeu. Se ultrapassar o número de faltas, tanto num caso como em outro, será sujeita a uma prova de recuperação que visará essa mesma matéria.

Boa medida, penso imediatamente.
E boa medida para aqueles garotos que vejo no café ou no centro comercial a meio da manhã por exemplo. Pequenos grupos, de dois ou três, que não me parece que estejam a gozar o “merecido” furo até porque as aulas de substituição funcionam. E funcionam bem. Pelo menos, na nossa realidade.
Boa medida para aqueles pais que chegam constantemente atrasados à escola de manhã. Sabendo que com uma assinatura justificam os horários tardios a que as crianças entram, quando não o fazem com sorrisos melosos e desculpas esfarrapadas, esquecendo-se que os professores ajudam a educar-lhes os filhos .. não os próprios ;), talvez pensem duas vezes quando o despertador tocar.
Desaparecerá contudo do vocabulário a expressão usada há uns anos do “tapado por faltas” ;), e mesmo olhando para trás e sabendo quantas vezes faltei eu às aulas, não posso deixar de concordar com a medida adoptada, que sei em teste ainda.
Ressalvo a penalização injusta da criança doente .. aquela que falta sistematicamente por motivo de algum tratamento a seguir, mas confio que esses casos, provados que sejam, serão devidamente considerados.

E se os alunos “chumbarem” na prova de recuperação, indagamos. Pode acontecer, claro não sendo contudo muito certo que aconteça dado que a matéria abordada em tal prova será unicamente a que foi leccionada ao longo do período em que o aluno faltou, ou seja, confia-se que reduzida, mas pode acontecer.
E se tal acontecer, a avaliação do aluno ficará na chamada “possível retenção” até provas dadas em contrário.
Ouvi, entendi, sei que não tenho, para já, de me preocupar-me com esta situação, e pensei:
- com o trabalho que vejo os professores desenvolverem na escola da minha filha, que passa pela preparação das aulas, o pleno funcionamento da sala de estudo, a manutenção de oficinas temáticas (Matemática, Inglês, Artes e Clubes um de Arte, o Europeu e a actividade de AeroModelismo (tão a gosto da maioria dos rapazolas), a organização de dias específicos de convívio como o Dia dos Avós, o Dia da Árvore, o da Música, além da natural “trabalheira” de cada vez que há uma visita de estudo, e por aí fora, esta nova medida, vai provavelmente acrescentar-lhes mais horas, mais correcções, mais papeis, mais avaliações e preocupações.

Não sou professora, mas tenho alguns bons amigos que o são e um respeito imenso por esta profissão quando a vejo desempenhada com dedicação, profissionalismo, bom senso e alguma dose de sorrisos e abraços, porque um professor é um ser humano, por mais que haja quem disso se esqueça, .. portanto, aqui fica este post à laia de Solidariedade e Admiração.


Tenham um excelente fim de semana .. nós vamos celebrar a República na .. Cidade dos Templários ;) e não me falem, de novo, em coerência (risos)

2 Oct 2008

Ao Nuno Castelo-Branco um bem-haja pela distinção que deu, no Estado Sentido, a um texto também ele sentido, sobre uma realidade dramática que, por vezes, mais valia não soubéssemos existir.

Mas existe.
Aqui mesmo.
Ao nosso lado.

sight seeing (ii)

e por falar em música .. e por falar em som :)

A não perder aqui, e ainda aqui.
Depois ainda temos esta voz inconfundível, o Choir e o concerto que não perdemos nem que .. ;)

Coerência? Alguém falou em coerência?

Bilhetes reservados!

1 Oct 2008

musical

“Dia Mundial da Música Mummy” .. é hoje! Recorda-me a princesa, de manhã entre a escova dos dentes e a penosa para o cabelo .. rio-me da cozinha enquanto lhe preparo o pequeno almoço e respondo: sério? Hum .. se não fosses tu ia passar-me de todo! ;)
Lembras-te da minha primeira audição de piano mãe? .. Vou levar a fotografia do piano, não a minha, para ilustrar o trabalho que estamos a fazer sobre este dia, posso?

(foto minha, audições de piano, Colégio Militar)

A música está há tanto tempo na nossa família que me esqueci já de onde foi que veio .. é-nos tão essencial como qualquer outro bem considerado .. essencial.
Não serve este post para comemorar o dia, que não tenho jeito algum para esse tipo de homenagens, mas para lembrar que .. “quem não tem pauta .. não tem rumo” ;)

E Viva a Música !