27 Oct 2008

blameworthy!

Dou-me bem com silêncios eu .. com isso e com a mania que tenho de colocar o “eu” no fim das frases .. não sei de onde me vem a primeira mas a segunda vem certamente da misturada de línguas que me concedo em termos literários, escritos e outros.
Dou-me decididamente bem com silêncios .. (eu), e nada me custa entrar numa sala onde a conversa está generalizada sem o impulso que assisto em tantos de “atirar a minha acha!” Mais, consigo estar ao lado de alguém com quem nada tenho a partilhar, num silêncio profundo sem olhar para o tecto, para as unhas, para a janela, sem soprar baixinho ou fazer meios sorrisos à procura do mote que dê ao fio do pensamento a verbalização politicamente correcta que o momento exige.
.. e ainda, em tempos “nublados” e de cinza carregado remeto-me ao mais abstruso dos silêncios. Assim, serenamente e sem esforço. Como se o esforço maior fosse continuar a interagir sem ter muito a acrescentar. Ou será sem me apetecer?
Gosto, contudo, de falar. De conversar. De trocar ideias sobre determinado assunto ou de contestar veementemente algum ponto de vista com o qual não concordo. Cansativa, chamam-me alguns. Sei que sim.
E gosto igualmente de ouvir. Sou boa ouvinte, dizem outros, por acaso os mesmos ;) assim me concentre no que me estão a dizer.
E é na palavra concentração que está o meu grande problema de atitude.
Retrato-me publicamente portanto, mal algum virá ao mundo .. espero. Aliás, se atentarem no número de linhas escritas até à palavra “concentração” percebem rapidamente o que quero dizer.
A minha concentração, ou quem sabe a sua ausência, prega-me partidas como se de vontade própria estivesse revestida. É do signo!, atiram-me aqueles que percebem nos meus olhos que eu já ali não estou e mais vale calarem-se ou judiarem começando a falar de algo completamente diferente. É do signo, que é o da dualidade. Da inteligência. Do dom da palavra, gosto eu de pensar desculpando-me pateticamente pelas verdadeiras viagens que a minha mente faz quando o que oiço, leio, assisto, estudo ou interpreto, não me “cativa”.
Cativar é a palavra mágica de um livro lido em voz alta, à cabeceira da minha princesa quando ela era ainda bebé. Cativar implica responsabilidade, acompanhamento, amizade.
Cativas-me mas não tens o poder de me prender atira Nietzsche do alto da sua sabedoria. Cativar. Interessar. Concentrar. Estar num só momento de corpo e alma.
Focar. Não gostando do termo que ultimamente saltou o conceito fotográfico para fazer parte de palestras empresariais, chego à triste conclusão que o meu problema passa por um handicap na “focagem”.
Tenho, decididamente, de voltar a oftalmologia.

E isto tudo porque gosto de silêncios, hein? .. quem diria.