14 Oct 2008

Blog Action Day 2008 - POVERTY

Apercebi-me da causa numa das melhores casas que conheço.
A juntar a outras que podemos diligenciar, ou mesmo que seja a única que somos capazes de empreender.

O texto que escolhi já foi por mim publicado. Em Maio de 2007.

.. este garoto foi entretanto por outros substituído. De repente de um dia para o outro, deixei de o ver lá. Na altura apertou-se-me a alma com medo que algo de grave lhe tivesse acontecido. Idiota, pensei. Mais grave que o estar aqui ao sol ou à chuva a mendigar piedade?
Os outros que por lá apareceram são em tudo parecidos. Todos com um sorriso nos olhos e um esgar de tristeza nos lábios .. quem sabe famintos, na maioria dos dias.
A indiferença dos carros que param no semáforo, essa é incrivelmente a mesma. Ou pior.


Paro naquele bendito semáforo todos os dias.
Parece de propósito, de facto. Quer venha às madrugadoras oito da manhã com reuniões marcadas para os quinze minutos seguintes, quer entre desportivamente às dez e trinta ou ainda mais perto das onze horas, quando a maioria já está a pensar “que vou eu hoje almoçar?” .. o certo é que aquele sinal simpático e vermelho está invariavelmente à minha espera naquele cruzamento complicado. Hoje, estacionada de novo por ali tal a eternidade da espera, olho pelo retrovisor e vejo um garoto a pedir no meio dos carros. Sujo, calças rasgadas, um dos ténis três números acima do seu, aberto à frente mostrando umas unhas sujas, magoadas. Camisola de lã dois números abaixo, rota, mangas enroladas, cabelos em desalinho. Aproximou-se devagar do meu carro que por norma tem o vidro aberto, pensei em dois segundos na quantidade de mails que recebo com experiências (falsas na maioria) menos boas de abordagens em semáforos e estacionamentos e olho-o. Directamente nos olhos. A expressão dele como que apanhado de surpresa foi o de baixar rapidamente os olhos e murmurar um “não é obrigada senhora .. não é obrigada” .. afastando-se calmamente num andar que coxeia ligeiramente. Olhei a sua frágil figura agora encostada aos arbustos que ladeiam aquele cruzamento, numa espera calculada que o sinal “caia” de novo, para prosseguir o seu pedido. Virou-se de repente e olhou-me .. sorri-lhe e ele acenou-me um adeus .. um adeus igual aquele que a minha filha me lança do portão da escola todos os dias em alegre correria, um adeus simples, mãozita no ar acenando, como qualquer criança da sua idade, numa realidade miserável que nenhuma criança da sua idade deveria ser “obrigada” a viver.
Não somos obrigados? Não, de facto, não somos.
Mas se não é por “obrigação” como podemos em consciência desobrigar-nos de?