16 Oct 2008

do desinteresse (i)

Entregaste o documento, perguntou-lhe em voz arrastada, assim que a sentiu meter a chave à porta. E compraste pão? Mandei-te uma mensagem pra comprares pão. Para que raio queres tu o telemóvel se nem te dignas a olhar para ele de vez em quando para ver se há alguma coisa importante?
Também te liguei duas vezes à hora do almoço, queria saber onde andavas. Almoçaste com alguém? De certeza que sim pra não me teres atendido. Ainda gostava de saber se as tuas colegas de almoço também não atendem os maridos quando eles ligam. Provavelmente coisa boa não andam a fazer!
E tu, almoçaste com quem afinal? Não foi com aquele rufia de cabelo oleoso que te cumprimentou no outro dia quando te fui deixar ao escritório, pois não? é que se me dizes que foi c'aquele metro e noventa de sorriso colgate, amanhã vou lá perguntar-lhe se ele não tem mais nada pra fazer q'assediar as mulheres dos outros.
Entretanto tenho um recado. A vizinha de baixo veio cá bater outra vez a queixar-se dos lençóis que penduras no estendal. Estão muito compridos, diz, tapam-lhe a luz na cozinha. Vê se tens cuidado, um dia destes ainda tos corta. Está gira a gaja. Mais magra, mais arranjada. Ficou sem homem, foi o que foi, que me contou a do primeiro no outro dia no café.
Estou tão cansado, chegas-me os chinelos? Estão no quarto mas a lâmpada fundiu-se, a propósito a mensagem que te mandei também falava na lâmpada que se fundiu, a de cima no candeeiro do tecto, não consigo ver nada nem chegar ao outro candeeiro. Chegas-mos?
E lembraste-te do meu jornal. Estou aqui o dia todo sem ler um jornal porque tu nunca te lembras de mo trazer. Que vais fazer para o jantar? Tiveste tempo para pensar nisso pelo caminho? A sopa acabou se vinhas a contar com ela.


Chegou a casa exausta.
Pousou o saco do pão no balcão da cozinha e tirou rapidamente os bifes para temperar. Na sala a ladainha do marido parecia um rádio a tocar baixinho uma música irritante. Reparou que estava descalço quando passou para a casa de banho, de saída, atravessou o quarto às escuras, pegou nos chinelos e colocou-lhos aos pés, ao mesmo tempo que lhe deixava o jornal no braço do sofá. De regresso à cozinha, fritou os bifes, bateu uns ovos para uma omeleta cheia de salsa como ele gosta, preparou uma sopa de pacote pensando intimamente “que se lixe”.
Guardou tudo e dirigiu-se de novo à sala com um bilhete na mão.
“tens o jantar no forno .. venho mais tarde”.


PS_ não extrapolem .. sou incapaz de me orientar no escuro, eu ;)