17 Oct 2008

do desinteresse (ii)

Chegou a casa mais cedo.
Levava-lhe um ramo de rosas vermelhas, lindas e perfumadas, por si escolhidas no olhar espantado da florista e demais presenças na loja aquela hora tardia.
Quis um laço de ráfia a desafiar o piroso dos laços de cetim com que as floristas gostam de enfeitar as rosas escolhidas por homens. Como se no cetim do laço estivesse impresso em letra vinte e quatro o pedido de desculpa mais extraordinário. Ráfia, se fizer o favor, pediu, e a rapariga, simpática, colocou de lado o cetim.
Nada havia a pedir desculpa.
Queria oferecer-lhe flores porque queria oferecer-lhe flores. Nada mais. Os tempos não estavam para se gastar dinheiro mas um dia não são dias e ao fim e ao cabo há quanto tempo não tinham um serão como antigamente? Pernas cruzadas no sofá, tabuleiros em frente e conversa noite fora? Demasiado espartilhados na vida, nas obrigações da vida, que raio e a vida vive-se também, não?
Sorrindo, entrou no restaurante de Miss Naburo e levou jantar. Sabia-a a trabalhar até tarde. Duas cervejas bem geladas, sem álcool, e umas maças assadas completaram o menu.
Ainda se riu sozinho ao sair do carro à porta de casa. Verdadeira mestria aquela que equilibra as mulheres com as mochilas da escola, os sacos das compras, as bolsas e o chapéu-de-chuva.
Entrou em casa, sorrateiro. Colocou tudo em cima da mesa da sala de jantar e preparava-se para se libertar da gravata quando ela lhe aparece.
Rolos na cabeça, cara branca de creme, pijama e roupão.
A voz saiu-lhe roca como se tivesse bebido “tão cedo! E pra que são as flores? Ao menos trouxeste algo que se coma?!”

Encontrei há dias um ramo de rosas vermelhas no contentor da reciclagem de cartão e papel, da minha rua.
Rosas vermelhas com laço de ráfia e um papel preso onde se lia “aqui jaz ..”