24 Oct 2008

do interesse (i)

Quanto custa o queque, pergunta o garoto que tenho ao meu lado ao balcão. Oitenta e cinco cêntimos atira-lhe a rapariga por detrás do mesmo, de mau humor matinal.
A pele arrepia-se-me, olho-a nos olhos, baixa os dela e pergunta em outro tom “queres um?”
.. Não, responde o menino, atalhando, e quanto custa o croquete? Um euro e dez, responde a moça mais simpática.
Conta as moedas o menino ao meu lado. As unhas estão sujas mas a roupa limpa, ainda que velha. O tom de pele é mais moreno que o nosso colocando-o algures entre o cabrita e uma qualquer mistura com sangue nórdico porque os olhos são de um verde assustador. Quase irreal.
Conta afincadamente as moedas na palma da mão direita, com o indicador esquerdo. Tem sessenta e cinco cêntimos. Mostra as moedas à rapariga e pergunta, dá para comer alguma coisa, isto? O tom é ainda orgulhoso. Mas o lábio treme denunciando o esforço. A rapariga troca um olhar comigo e coloca um queque na mão esquerda do menino, fechando-lhe a direita sobre as moedas. Queres um copo de leite?