21 Oct 2008

examples. are you sure?

Sinto-lhe os pés arrastados em pantufas de fazenda, quadrados debotados sem cor definida. Oiço-lhe a tosse cavernosa, profunda e dolorosa em laivos de agonia que esconde fechando a porta do hall. Atento agora na voz da filha cuja ladainha conheço de cor: “pára com isso! Quero dormir!” e adivinho a lágrima que provavelmente lhe correrá face abaixo, o peito dorido da enfermidade e da falta de carinho, que bem lhe saberia “pai estás bem? Queres um chá?”.

Atento na vida que me rodeia, mania que desde sempre tive, no início para me esquecer da minha depois porque sim.
Olho-o nos olhos na manhã seguinte, sai cedo para o pão do pequeno-almoço deixando a “criança” mais um pouco na cama, e vejo a mesma dor que adivinho em noites sem descanso, as rugas mais profundas e amareladas de um corpo sem ar, o cabelo em desalinho de quem já não quer saber. As roupas exalam um ligeiro cheiro a mofo e o lenço de pano pende um pouco fora do bolso das calças.
Desce as escadas para a porta da rua, muito direito e segura-nos a porta num “se faz favor meninas” ao que a princesa lhe lança um sorriso e um sonoro obrigada, encolhendo-se para não lhe bater com a mochila e fazendo-o sorrir.
É um dos. Dos muitos que nos povoam as ruas, as padarias à abertura, os lares, os centros de saúde a todas as horas. Solitários, incompreendidos, vistos como carga de trabalhos, muitas vezes abandonados. Os nossos idosos estão tristes.
Que podem os nossos filhos esperar de uma geração que assim (mal) trata as suas raízes?
Exemplos?