30 Oct 2008

intimism (xii)

.. não sei se gosto mais da praia de verão ou de inverno. E não o sei por razões que se prendem com a diferença que nos pauta a postura em ambas as estações.
Se por um lado me encanta o ar parado e quente, o céu azul de farrapo branco, imóvel, o mar de onda mole, acolhedor, as corridas à beira mar, o chapinhar da criançada, e aqueles dias que não acabam nunca com um sol laranja até escurecer. Se prezo e acolho de sorriso franco os mimos do Sr. Barbosa que nos reserva os toldos e arrasta cadeiras umas atrás das outras para a família que cresce todos os anos .. se o gelado carregado de nata e aparas de chocolate me desafia as contas calóricas com as quais não me preocupo .. mas é coquete fingir que sim ;) enfim .. se por um lado a praia de Verão é sinónimo de pele morena, sardas com fartura, cabelo descolorado e ar saudável .. acima de tudo um ar muito saudável (não confundir por favor com saudavelzinho) ;) por outro, começa agora a nossa praia de Inverno.
E confessamos saudades.
A princesa salta da cama ao domingo às 8:00 am, pequeno almoço tomado e corre a procurar os polares e as botas castanhas, calça de ganga arregaçada, boné na cabeça e lá vamos nós para o passeio matinal. Eu não disse já que sou feita de rotinas? Disse sim ..
A praia por esta altura tem um encanto que nos escapa no verão, que se esconde das dezenas de pessoas, das bolas de futebol, encanto mudo nos guinchos da criançada.
Um encanto que se prende com o mar mais revolto, mais cinzento. O vento mais forte que alisa o areal, intacto à hora que chegamos. Vento que rosa as faces e quase greta os lábios, sabe bem o polar não sabe mummy grita a princesa em correria para aquecer, aos ziguezagues de braços abertos. Os surfistas de fato negro, verdadeiros amantes desta força da natureza, acenam-nos sentados nas pranchas à espera da Onda. Gosto de passear nesta praia, que é a minha praia de sempre, mas que nesta altura me parece sempre diferente da altura em que a vivo de férias. Uma praia feita de dunas, urtigas secas ao vento, conchas pequenas, partidas a fazer uma ténue fronteira que brilha no sol baixo que já não aquece.

Encontrámos uma concha surreal .. um misto de búzio com laivos escuros a lembrar a casca do mexilhão, aspecto rude, quase “dinossaúrico” .. vou levar à tia mummy .. ela é arqueóloga, vai saber o que isto é!
Gargalhadas.
E o nosso riso ecoa na praia quase deserta .. eleva-se o tom, no som da onda que rebenta ao longe .. salpicos de sal nas faces coradas, trazidos pelo vento que despenteia cabelos.

Querem que me repita? :)
.. eu repito-me: a felicidade? .. somos nós e os momentos a que nos dedicamos que a construímos. Estou cada vez mais convencida que posso acreditar nisto.