28 Oct 2008

pieces (ii)

Chegar a casa, pousar os sacos, mandar a criançada para a banheira e entrar na cozinha. Espreitar o frigorífico na esperança que os gnomos do dia tenham deixado algo pronto e com aspecto apetitoso para os comilões da noite. Não deixaram. Esquecera-se que lhes dera folga.
Despejar as mochilas para se rir com a quantidade de pequenos tesouros que se encontram nos pátios das escolas. A água para a massa ferve ao lume, os lanches do dia seguinte são preparados e a roupa do estendal apanhada.
Grita o mais velho que a irmã não o deixa em paz. Esganiça-se a mais nova, tomada de génio, porque ele lhe puxou os cabelos.
Calma meninos, tenta ela apaziguar, do alto dos seus 20 anos feitos de “mãe”.
Salta a mais pequena da banheira para o pijama com direito a massagem e escova nos cabelos difíceis de domar. Salta e pula pelo quarto com uma perna vestida e a outra por vestir, ri-se das partidas, ela de gatas a puxá-la! Anda cá que és minha! Termina no abraço apertado.
Menina rebelde feita de mimo de mana.
O garoto clama por atenção, também quer, tudo igual menos a escova que o cabelo é liso e espetado, curto e sem direito a pente.
Voltam a encher-se as mochilas depois de apreciados os trabalhos. Ele na 3ª classe, letra primorosa e perfeição, antevendo um futuro de artista, ela na pré primária, ainda trapalhona, e com coisas bem mais interessantes para acumular do que os livros e o caderno. Um frasco com uma osga lá dentro. Uma caixa cheia de minúsculas pedras brancas onde jazem três formigas mortas. Já estavam mortas quando as apanhei! Atira-me, prevendo o sermão.
A água continua a ferver, ainda sem massa. Céus como é tarde! reclama, olhando o relógio.
Sentá-los à mesa com cantigas de amigo, vigiar os pratos que esvaziam a concurso, acalmar os “sou muito melhor que tu!” e partir a fruta, em lascas fininhas, como gostam.

Vamos rezar mana? Pergunta-lhe a petiz, olhos negros em alvo, sorriso de anjo. Ninguém diria das patifarias de que é capaz, pensa comovida. Vamos rezar meninos, concorda, puxando o irmão para dentro dos lençóis, está a arrefecer, tem de se lembrar de trocar as cobertas por cobertores e agasalhar as saídas amanhã de manhã ..
Anjinho da Guarda, começam os dois em coro, Doce Companhia, continuam compenetrados ..