29 Oct 2008

pieces (iii)

Olho à minha volta.
A manhã está calma, o telefone não toca. Os papéis estão arquivados e há dois relatórios que esperam notas laterais que não me apetece fazer. Um totoloto em cima da mesa com uma nota de dez euros agarrada como que a desejar a dizima .. dois potes com canetas e lápis, marcadores, régua, faca de correio, borracha, afia, post-its de todas as cores, uma verdadeira fixação minha esta de colocar cada um no local de assinaturas importantes. Ou outras. Uma caixinha de cartão feita pela princesa há anos serve de abrigo a cartões de visita e outros, cada um de seu tamanho, cor, conteúdo. Mais um escaparate para envelopes, Dl’s do meu descontentamento com medidas precisas, um inferno na hora de imprimir usando um aparelho que além de imprimir, recebe faxes, tira fotocópias, scaniza documentos .. inteligente a coisa.
Chega um colega e pergunta-me pela princesa. Sente-me em silêncio nos últimos dias. Atribui a algum problema com a mais que tudo. Parte descansado, abrigado no meu sorriso “está óptima, obrigada”.
O telefone continua mudo, sente-se por todo o lado a crise, como se de luto andássemos, em ponta de pé. Silêncio.
O móvel pequeno, cinzento, gavetas ordenadas por prioridades, não há nenhuma que me indique a lista de compras que deixei em casa, isso sim era importante agora.
Outro móvel mais robusto alberga o material do andar. Lápis, canetas, mais post-its, agrafes de todos os tamanhos e clips então? São às dezenas que se espalham em alegre cantoria de cada vez que a gaveta fecha. Por muito cuidado que se tenha na operação. Há dois dossiers azuis, brilhantes, aos meus pés, ainda não arranjei local para os ter à mão sempre que necessário, nada melhor que estarem ao alcance do braço esticado. No chão. Provavelmente não passarão daí. O papel dos rebuçados de mentol com os quais, durante o dia, engano a vontade de fumar, brilha no néon das lâmpadas cuidadosamente escolhidas ao abrigo dos ISO impostos e os outros, inventados. “Estás a imprimir?” pergunta-me uma cabeça que assoma à porta do gabinete .. Não, respondo .. está a receber um fax. Vejo os olhos arregalados como que assustados e um riso de gozo “uhh spooky!” já me cansei de explicar que o aparelho inteligentíssimo que temos no piso faz ligeiros e diferentes barulhos assim esteja a imprimir, a receber faxes ou a proceder ao pdf de um documento. Não me acreditam? .. pois.

Param os olhos no relógio do telefone. Alarga-se o olhar até à pequena foto da princesa numa moldura de íman, ligeiramente escondida por detrás do écran grande demais que me ocupa parte da secretária. Sorri a minha filha, mecha de cabelo caída, vestido de verão.
Está óptima sim, obrigada.