21 Oct 2008

pieces

O Senhor Francisco que usa calças cinzentas quase até ao peito com um cinto largo de couro escuro e puído a meio da barriga, camisa aos quadrados pequenos de cor indefinida, e uns sapatos pretos, lustrosos e bicudos, mantém-se atrás da máquina registadora defendendo o pequeno balcão onde a mesma assenta como se de um bem precioso se tratasse.
Estrategicamente colocado à porta da cafetaria, cumprimenta, solícito e simpático, quem entra tratando as meninas por meninas e os rapazes por “então meu rapaz”. Não interessa a idade que temos, o que trazemos vestido, se somos ou não clientes assíduos. Atrás do balcão de comes e bebes, com umas vitrinas de vidro já riscado mas limpo repletas de salgados, fatias de bôla, quiches e pizzas às doses, atarefam-se as duas empregadas entre o panelão da sopa do dia e os pedidos que não param de chegar. Água para três, duas cervejas bem geladas, dois panados no pão tira-lhe a alface que o menino não gosta. Reparo que o menino é um senhor calvo e bastante forte, enfiado na cadeira com os cotovelos em cima da mesa. Ao fundo, numa mesa sozinha, uma rapariga brasileira fala bastante alto tentando dar indicações a alguém que não conhece a cidade.
A minha atenção prende-se ao tecto da cafetaria.
Sempre me intrigou o tecto daquele local onde, por vezes, como um folhado e bebo um sumo em corrida contra-relógio que o trabalho aperta. Um tecto cheio de vivos dourados e anjos insuportavelmente balofos, rabos ao léu e harpas em mãos sapudas. Anjos de caracóis outros de cabelo liso e comprido, justificando o que se diz, sem sexo. Os frisos percorrem o tecto rectangular, curvos nas esquinas, um dourado brilhante e quase sedoso que contrasta com o velho frigorífico castanho sem congelador e com os riscos no vidro da vitrina.
Sai uma fornada de pasteis de nata e pão acabado de cozer. A Dª Arminda, costureira do bairro, assoma à porta e grita lá para dentro “Maria, não te esqueças dos meus seis!” fazendo-me sorrir, enquanto que por momentos gelam as conversas em burburinho.
Afinal o conviva da rapariga que se afincava ao telefone conseguiu dar com a casa e saem os dois em alegre conversa própria de um povo alegre. Em qualquer circunstância. Simplesmente alegre.
Termino o meu café e preparo-me para o habitual “então já vai menina? Não quer mais alguma coisa?” com o qual o Senhor Francisco brinda quem se despede.
“Fiquei bem Sr. Francisco, até amanhã”! ;)