6 Oct 2008

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Ivan Sergeyevich Turgenev, 1818/1883, foi um dos mais importantes novelistas e dramaturgos Russos.
Pais e Filhos”, obra da qual já falei por aqui, considerada uma das mais importantes obras de ficção do século XIX, deu-lhe além de uma profunda conotação polémica, a ponto de o fazer abandonar o seu país, a projecção a nível internacional da teoria por si defendida e baptizada por Niilismo.
O Niilismo é uma designação e conceito filosófico presente em diversas áreas tais como a literatura, arte, ética, mora, teorias sociais .. Da autoria de Rossano Pecoraro, o livro Niilismo, esclarece-nos, numa introdução brilhante à definição deste “sentir/ser/estar”: “O Niilismo é a desvalorização do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao porquê. Os valores tradicionais depreciam-se e os princípios e critérios dissolvem-se”.
Contudo, para os que aqui caem na comparação fácil, não se chega a uma anarquia.
Os Niilistas têm os seus próprios códigos, defendidos nem que seja à custa da ausência dos mesmos. E se por um lado a visão Niilista do Mundo pode parecer aos mais conservadores uma visão pessimista e negativista na ausência de certezas absolutas a defender, por outro, o tudo colocar em causa e o desmantelamento de ideias sem fundamento, torna-se essencial quando o que se pretende é: desmistificar. A assustadora ausência de fundamentos, verdades ou critérios dá ao Niilista uma outra percepção da sua própria liberdade.
Recordo na personagem de Bazarov em Pais e Filhos, a leve arrogância no desmantelar de uma hipocrisia empedernida e o abandono de tudo o que não pudesse ser justificado cientificamente. Cheguei a sorrir de frases com “maltratar mulheres e servos, manter a escravatura ao mesmo tempo que se escrevem poemas ridiculamente ingénuos e superficiais. Isto é um costume? Acabem-se os costumes!
Descendente de uma família de proprietários rurais abastados, Turgenev foi vítima frequente de maus-tratos por parte da mãe, uma mulher inflexível mas demente. Até que ponto terá este trauma influenciado a sua escrita é uma questão legítima quando vemos na sua obra um tratamento tão cerimonioso para com as mulheres. As mães são meigas e caridosas, pactuantes e pacientes e as outras sempre possuidoras de algo atraentemente fatal.
Bacharel em filosofia aos dezanove anos de idade, publicou igualmente nessa altura a sua primeira colectânea de poemas.

"Whatever a man prays for, he prays for a miracle. Every prayer reduces itself to this: Great God, grant that twice two be not four”
“A round-faced young woman peeps out of window; laughs at their words or atthe romps of the children in the mounds of hay”

Terminei, agora, o “Primeiro Amor” com alguma surpresa.
À volta de uma mesa, amigos de longa data recordam os seus primeiros amores. O protagonista escusa-se a falar preferindo escrever afincadamente e durante quinze dias como foi a sua experiência amorosa. A primeira. O relato que Turgenev nos oferece é intenso, cheios de raivas, inseguranças, ciúmes, contingências do século, inibições sociais e outras. O final que nos proporciona é a verdadeira surpresa inesperada. E mais uma vez saliento o papel da mulher. O da mãe do apaixonado desiludido.

Como pode um Turgenev sujeitar-se a ser criticado”, dizia-lhe a sua inconstante mãe, assim que o soube escritor.
Não pode.
Nem tem que.
Digo eu que o acho brilhante.