16 Oct 2008

public service (iii)

a glória, como vós sabeis, é uma coisa amarga” constata Mishima no último parágrafo do “Marinheiro que perdeu as graças do mar” .. Ryugi, marinheiro em terra, apaixonado e perdido no mundo em solo firme, cede a pactos com a adolescência militarizada à qual pertence o seu enteado.
As constantes alusões à “âncora no centro do emblema em forma de lágrima” que brilha no boné de marinheiro remete-me para a amarra que aquela adolescência perdeu, num mundo, de repente, privado do “hábito” que a guerra atirou borda fora em lágrimas de gente desesperada.
Tenho de ser pior, não vou sucumbir” e crescem assim os anti-adultos ainda que destes dependentes.

Acabei-o, pela segunda vez, sem que desta me tenha acompanhado a voracidade da leitura e o encantamento pelos termos de uma tradução fantástica. O marinheiro que perdeu as graças do mar apareceu-me como alguém que sem se conseguir incluir, fazer aceitar, aceitar e viver perante determinados parâmetros que não entende, prefere deitar tudo a perder numa jogada antecipando o fim, o castigo, o respeito pelo acordo, a concretização do pacto.
De antemão. Como que de propósito.
The sailor who fell from grace with the sea” .. bastante mais poético o título em inglês, digo eu que de imparcial não tenho nada.
A história chocante escrita por alguém mestre na arte da palavra, no significado da palavra, na colocação do leitor dentro do sentimento que pretende. Cirurgicamente, diria.
.. “entreguei a alma ao mar e o coração a uma mulher” .. e sem alma, como poderia defender-se? Será que alguma vez quis defender-se?

(tenho de parar de reler eu .. fico sempre com muito mais dúvidas que no final da primeira leitura) :)