9 Oct 2008

Quit? What do you mean .. quit?!

Sentados à mesa.
O horário do jantar era escrupulosamente respeitado ou não fosse a única refeição em que todos se encontravam. O pai à cabeceira observava a prole, raparigas à direita, rapazes à esquerda. Os mais novos fitam-se em caretas e acenos de cabeça numa ameaça “eu conto!”, enquanto comem a sopa em silêncio. Os copos estão voltados para baixo, porque a ordem para beber acompanha o pousar da colher no prato de sopa vazio. Os mais velhos tentam captar a atenção paterna, sem grande alarido ou o cabo do garfo fará aquele barulho característico batendo no tampo da velha mesa, pedindo silêncio. Saem os pratos de sopa, entra o tabuleiro do cabrito assado acompanhado de puré de batata. O Pai prova e aprova, e os pratos são servidos. Cada um tem direito ao pedaço que mais gosta, que ela, a irmã mais velha, é feita de boa memória. E bom ouvido. Uma leve pressão no ombro do irmão mais novo dos rapazes para que pare de bichanar à irmã tudo aquilo que a irrita. Conhece-lhe o feitio e o ar de anjo. Eu? Será a pergunta imediatamente a seguir à admoestação, provocando um “sim tu!” estridente da parte da caçula. Ela, que sem ar de anjo, leva sempre, invariavelmente a água ao seu moinho, ondas ameaçadoras à paz familiar.
O cesto do pão roda pela mesa, e o pacote de leite vai enchendo os copos à vez. Dois litros de leite, bebíamos acompanhando o segundo prato. Ainda não existiam os pediatras que hoje nos proíbem de o fazer.
À pergunta paterna sobre o fio do dia, o mais velho dos rapazes começa uma litania sobre o liceu, as dificuldades, a vontade de ir trabalhar. Tem 16 anos e acha-se um homem feito capaz de decisões difíceis. Os mais pequenos desatentos, brincam com o molho no montinho de puré qual conduta ou barragem em risco de transbordo. O pai olha-me nos olhos na tentativa de perceber até que ponto já saberei da novidade, logo eu que sei de tudo o que se passa naquelas assoalhadas. Baixo-os. A conversa centra-se na falta que os estudos fazem, a necessidade de formação, o pai relembra os seus próprios tempos de liceu, em colégio interno, e a bengala que tal lhe deu para a vida profissional. O adolescente ouve respeitosamente e remata num assomo de coragem “tenho 16 anos Pai, a minha decisão está tomada!”

Lembro-me como se fosse ontem e passaram vinte anos. E lembro-me porque em conversa com a minha filha há uns dias atrás, ouvi dela a frase “.. estudarei enquanto puder estudar não é mãe? Quer dizer .. se não acontecer alguma coisa grave que me obrigue a desistir antes do fim”

Enquanto puderes.
E mesmo quando não puderes princesa, enquanto eu puder.
desistir?” .. desconheço o verbo.