20 Oct 2008

shall we?

Notei-a.
Chegou de mansinho mas notei-a.
O Minipreço que fechava orgulhosamente no sábado ao meio-dia, passou a estar aberto, sábados à tarde e Domingos todo o dia. Passámos a caminho da pastelaria onde nos concedemos o pequeno-almoço aos fins-de-semana num "luxo" próprio do tarde que acordamos e vimo-lo. Portas abertas. 11h45 am. Três clientes na fila da caixa registadora.
A papelaria fechada de Sábado à noite até segunda de manhã, passou igualmente a abrir ao Domingo. A gentil dona que nos cumprimenta com “tenham um bom dia” tem os olhos mais encovados numas olheiras agora permanentes e o cabelo não está já tão impecavelmente arranjado como costumava. O vício de uma unha bonita é grande, haja quem me entenda, por favor, mas o salão onde vou há anos esmorece em conversas próprias da ausência das almas à procura do verniz mais brilhante .. e a dona, Amiga de longa data, queixa-se entrementes que não sabe como fará .. se assim tudo continuar.
A loja das flores alargou o horário de fecho, não vá alguém precisar de qualquer coisa depois da hora e assim salvar o dia, responde-me a rapariga de avental quanto lhe pergunto “ainda por aqui" ..
Não me bastam os avisos e cenários dos financeiros em local de trabalho. Não me chegam os avisos que comecei a receber ainda mal entrados em Janeiro deste ano, sobre o que por aí viria. Não os ignorei mas não vi ao meu redor grande margem para explicar a preocupação que me consumia.
Agora vejo.
Vejo caras preocupadas, portas abertas, outrora fechadas, tentativa de se fazer “mais qualquer coisa” para dar para as despesas. Vejo agora portas fechadas, outrora abertas, porque o pouco que se faz, não dá “nem para a luz acesa, menina”.
E penso. Intimamente penso: no limite dos limites teremos a fibra que tiveram os nossos avós ao lidar com a Crise com a qual todos comparam a que vivemos e viveremos? Teremos a solidariedade, a preocupação social, a capacidade de racionar se assim for necessário? Tem ainda em si o ser humano a noção da senha, do pouco, do parco? Estaremos preparados para partilhar, se for necessário, e acima de tudo para pedir partilha, quando necessário?
Não estou certa disso.
E percebo que o alarmismo só vai provocar o pânico.
Mas estou preocupada. Tenho obrigação de estar.