28 Nov 2008

mulheres .. !

Juntam-se as amigas num almoço. A conversa versa sobre nada e sobretudo sobre tudo. Fala-se dos filhos, das conquistas e das perdas, das saudades de outras coisas, dos projectos, do Natal, da Passagem do Ano, da crise, dos apertos, dos empregos e dos chefes, e a conversa cai, aos trambolhões, na internet. Elogiam-se as páginas pessoais. Engraçado tema de conversa em pleno século de tecnologias. Apreçam-se os textos e os temas. Critica-se.
O mulherio é insuportavelmente exímio na arte da tosquiadela, como espero que todos saibam.
Aquela que se espelha e se espalha “se a criança um dia vem a saber nunca lhe perdoará” atira a Maria, acutilante como sempre e leitora atenta de tudo e de nada, “Não sejas mazinha” respondo-lhe .. A outra que ataca de forma brilhante tudo quanto é política .. já que políticos temos poucos “gostava de escrever assim!”. A senhora das letras, que escreve como poucas, as imagens, fotografias e afins que nos encantam o olhar. Os blogues a quatro, oito, doze mãos, sempre valiosos quando o que se pretende é informação variada tal como variado o ponto de vista sobre a mesma. As páginas de poesia, aqui estamos de acordo, há duas ou três das boas no nosso universo de leitura.
Os pseudo-literários, intelectualismo de alcatifa, cujos autores arremessam postas de pescada à cabeça dos desacautelados, com um humor duvidoso pretending to be ironic .. (Credo Meninas .. !) os verdadeiramente literários, onde aprendemos sempre qualquer coisa que mais não seja as últimas novidades em termos de publicações, os levezinhos e agradáveis com anedotas e citações, os que nos fazem por vezes verter uma lágrima e até aqueles com quem não perdemos dois minutos de leitura, os outros que servem de “embraiagem”, apuradíssima técnica de favo-de-mel a escorrer das letras, ou os copy-pastes assinados, sem indicação de autor, leia-se o autor real tenha ele dez anos ou um século, atitude a raiar a arte da patetice.
Nossa Senhora, dissemos isso nós? Dissemos.
Depois os outros que pressupõem a existência de alguém realmente conhecedor, possuidor daquilo que chamamos “caco” e “bagagem”, onde fazemos descobertas de temas interessantes, ou recordamos outros tantos. As zangas na internet, o bate porta dos ofendidos das caixas de comentários, o ridículo do “keep on reading” depois de uma atitude dessas, amém ao site meter, mais gargalhadas, as querelas blogliticas e os recados. Como diz alguém que todas gostamos de ler “quem nunca mandou um recado que atire o primeiro post”. Actualizam-se informações sobre quem escreve com quem, quem saiu e quem entrou da blogosfera, os que conhecemos e os outros. À distância do acontecimento, rio-me, que assunto! E que diferença dos assuntos que provavelmente pautaram as conversas das nossas mães quando tinham a nossa idade.
Numa coisa estamos todas de acordo.
Foi difícil arranjar um tema em que estivéssemos mas neste estamos .. irredutíveis.
Os comentadores das nossas páginas merecem-nos sempre uma resposta. Sejam da pandilha ou não. Conhecidos ou amigos ou não ou nem. Com “nicks” portugueses, estrangeiros ou simplesmente anónimos.
É uma questão de princípio. Porque sim.
E fica o recado dado ;)

Agora vou de fim-de-semana xl que isto de destilar fel não é para mim .. deixou-me a modos que .. exaurida ;)
Nice week end to you all *

27 Nov 2008

"Hope is a belief in a positive outcome related to events and circumstances in one's life"
Porque não sei o que me custou mais:
se ter acreditado que não choravas, se ver-te chorar .. se saber porque choras.
Abraço Meu *

homage (ii)

Foto de LB nos Outros Olhares

Passa pela última vez sob as arcadas que o protegeram da chuva nos últimos trinta anos.

Leva ainda na boca o sabor amargo do champanhe e da fruta cristalizada do bolo-rei com que lhe fizeram a festa de despedida. Recorda os olhos húmidos da secretária que amarfanhava o lenço de papel com cheiro a eucalipto. Os sorrisos forçados dos colaboradores a quem não foi dada qualquer explicação. Os outros, consternados, lamentando a partida que não se julgaria para já.
As palmadas nas costas soaram-lhe a castigo, e os beijos sentidos a intimidade forçada.
Passa pela última vez sob as arcadas que o guiaram nos últimos trinta anos.
Recorda com nostalgia quantas vezes as percorreu a correr, devagar, com enfado, desejando estar em outro lugar, quantas vezes conjecturou o futuro, quantas vezes pensou em como seria este dia.
O dia da reforma.
Passa assim uma vida. Trinta anos de trabalho. Ensombrasse-lhe o olhar ao pensar como iria reagir a família, se a tivesse. .. que fará doravante? Haverá futuro?

Percorre-as.
Calmamente.
Saboreando a última vez.
Arcadas, companheiras de vida.

26 Nov 2008

it's xmas time ..

.. era um tempo mágico
.. as últimas semanas do mês de Novembro eram tempos mágicos ..
Da despensa da avó saíam como que por milagre uma série de pequenas cestas de verga.
Cestas com um cheio característico. O cheiro do Natal.
E todos os anos, por esta altura, ela esforçava-se por decifrar de onde vinha aquele brilho, aquela .. neve assim que as cestas eram colocadas no chão da cozinha.
Convenientemente embrulhadas as pequenas figuras de gesso, pintadas à mão, preparavam-se para tomar os seus lugares no presépio forrado a musgo apanhado no quintal. Um presépio decorado com pinhas, folhas amarelas secas dentro dos livros, uma prata amachucada e depois alisada que fazia de rio, pequenas ovelhas, pastores, meninos e meninas de prendas na mão, os Reis Magos, camelos e vacas e burros .. e a “casa” do Menino Jesus.
Era com um cuidado ensinado e quase de respiração suspensa que se desembrulhava a pequena manjedoura, o Menino e seus Pais, aquela vaca e aquele burro que tinham honras de com o seu bafo quente aquecerem a figura do pequeno bebé envolto num pano branco. Era um fim-de-semana de alegria antecipada, a decoração da casa levava um dia inteiro, com estrelas brilhantes feitas de papel e fitas de todas as cores a pender das portas. Na entrada principal uma grande coroa feita por ela com a ajuda da avó em pequenas e delicadas folhas verdes, pintalgada de vermelho e branco, dava as Boas-Festas aos visitantes. A vela acendia-se perto do presépio e assim ficava até à noite do dia 24 de Dezembro por altura do nascimento do Menino.
Não havia Pai Natal .. a expressão era-lhe então desconhecida. As compras eram feitas em conjunto, grandes sacos e papel de embrulho para que em casa, uns dias antes do grande dia, serem todas embrulhadas com etiquetas personalizadas.
Os desenhos no papel pardo de sua autoria e a avó comprava grandes rolos de ráfia para fazer laços e prender os embrulhos cuidadosamente. Avolumavam-se junto à árvore de Natal e ela sabia de cor para quem era cada um deles.Eram tempos diferentes, sem dúvida.
A alegria da surpresa só ultrapassada pelo pequeno-almoço copioso com direito a plum-pudding no dia 25 de Dezembro, quando ainda meio estremunhada e de camisa de noite às avessas chegava à sala e via as suas próprias prendas por abrir ..Tempos em que tudo tinha o cheiro da castanha assada, das filhós a fritar, das fatias douradas carregadas de açúcar .. do bacalhau que até se comia com gosto na consoada, e dos tachos ao lume, carregados de couve e batata, a gotejar perante o “desespero” alegre da avó que “no hands for all of this .. no hands at all”.

.. tempo de férias e de celebração.
Tempo da Missa do Galo à meia-noite em ponto,
casacos grossos, cachecóis e gorros de lã,
e o beijinho no pé do bebé que tinha acabado de nascer para salvar os homens
.. dos homens.
Tempo de Natal.
texto já editado em Novembro de 2007.

25 Nov 2008

homage

"Para ensinar há uma formalidade a cumprir: saber."
Eça de Queirós, Povoa do Varzim, 25 de Novembro de 1845
Parabéns Mestre*

readings (viii)

Gostei :) .. e tenho por princípio um respeito imperturbável aos riscos contínuos da minha condução .. Este, promete!
Ora espreitem *

readings (vii)

.. passou a vício assumido passar por aqui para me deliciar com a brilhante conjugação de imagens .. :)
A Paula Crespo continua a escrever maravilhosamente .. sem tiques e laivos de outra coisa qualquer que não seja o escrever maravilhosamente ;)
Há várias pessoas que me encantam com o dom que têm em captar numa câmara muito para além do que os meus olhos abarcam .. O Luís, é certamente uma delas.
Hilariante, alegre, jocoso, acutilante, perspicaz, oportuno, talentoso, astuto .. é preciso mais? Duvido. Basta atestar aqui ao que me refiro ;)

(ii)

Tocou-lhe Beethoven, uma pequena parte da 9ª .. lembrando-se como se de memória fosse feita, onde colocar os dedos, (88 teclas dizia-lhe o professor de piano na infância).
Olhos fechados e corpo ligeiramente inclinado ao som das notas que lhe saem dos dedos, soltas e livres, ansiando por respirar.

Escuta-a de respiração suspensa e no final levanta-se, abrupto, “onde vais” pergunta-lhe em tom doce .. buscar o padre responde-lhe, fazendo-a sorrir.
És doido sabias?

24 Nov 2008

easier? what do you mean by easier?

Após uma conversa de fim-de-semana com uns amigos da “velha” guarda, dei por mim a pensar que a acusação banal hoje em dia versus a educação é o facilitismo.
O Hoje contrariando o Antigamente ou o “no meu tempo”. E as conclusão de quem, obviamente não tem crianças no 6º ano de escolaridade ;), é que facilitando nada de “bom” poderemos esperar.
Dediquei-me ao exercício de apuramento desta verdade que oiço e leio cada vez com mais frequência.
Eis as conclusões:

(A criança em questão é a minha filha que acabou de fazer 11 anos e frequenta o 2º ano do 2º ciclo)
Testes para a primeira semana de Dezembro
Português
Matéria: toda a conjugação verbal, formação de palavras por prefixação, sufixação, aglutinação, justaposição, graus dos adjectivos e complementos.
Texto com perguntas de interpretação. Pequena composição sujeita a tema no final.
Ciências da Natureza
Tabela dos Nutrientes e Roda dos Alimentos. Aparelho digestivo do homem, da vaca e da galinha.
A partir dos resultados de uma experiência feita em laboratório responder a questões relacionados com os mesmos.
Inglês
Toda a matéria desde o início do ano com enfoque no Presente Simple and Continuous.
The possessive case (pronouns, adjectives).
História e Geografia de Portugal
30 páginas – desde Lisboa Quinhentista até às reformas pombalinas.
Matemática
Paralelogramos – trapézios e não trapézios – construção e classificação de triângulos por ângulo e lado. Identificação e construção de simetrias.
Facilitado? Mas há mais:
Trabalho para Estudo Acompanhado – leitura de um livro por trimestre, resumo e análise de acordo com as directrizes dadas pela Professora.
Trabalho para EVT - a decoração da escola para o Natal (trabalho conjunto de várias turmas) e pequeno artesanato para a venda na quermesse da escola.
Educação Muscial - três peças em flauta, com um teste teórico pelo meio, uma das peças para actuação nos festejos natalícios do Concelho.
Educação Física - ao abrigo do Programa Pessoa, acrescem 90 minutos semanais às aulas correntes. Testes físicos de velocidade e endurance em todas as aulas, 3x por semana, e um teste teórico no final de cada período lectivo.
Moral: trabalhos de pesquisa e constituição de cartazes, textos, sensibilizando para a causa escolhida - este período lectivo: a igualdade.
Início das Aulas: 08h15 – final: 16h10 à excepção de um dia por semana.
TPC diários de todas as disciplinas do dia.
Facultado? Condescendente? Não me parece. Que não tenham já que decorar os rios e afluentes ou efluentes, as linhas de caminho-de-ferro até Benguela ou os cognomes de todos os reis de todas as dinastias com o detalhes de quem casou com quem mais que uma vez, quem morreu e quem se matou é uma coisa.
Que acusem as crianças de hoje de beneficiarem de um ensino facilitado é outra completamente diferente. Como dizia um comentador deste diário há uns tempos largos atrás, a propósito de um post semelhante: se tivéssemos na nossa altura passado por tudo isto havíamos certamente engrossado as estatísticas de insucesso escolar.
think about that ;)

contesting me

Desafiam-me a Amiga Luísa e o meu conterrâneo ;) Hélder Robalo, para me descrever em termos musicais .. ou por outra, para adaptar a meia dúzia de respostas algumas das minhas músicas preferidas. Estive tentadíssima em responder tal qual o Samuel .. os discos e os livros back home não têm coerência alguma, coitados, que o diga a esforçada arrumação que tentei fazer este fim-de-semana .. Mas.. pensando em consciência, há sempre alguém que points out do universo de som que me acompanha há anos. Este alguém que conheci através de mão amiga que me disse “ouve isto! Vais gostar.” E Gostei. Imenso.

Diane Schuur
És homem ou mulher? More than you know
Descreve-te: i’ve got beginner’s luck
O que as pessoas acham de ti? Nice work, if you can get it
Como descreves o teu último relacionamento: who will the next fool be?
Descreve o estado actual da tua relação: it’s magic
Onde querias estar agora? Over the rainbow
O que pensas a respeito do amor? Easy living
Como é a tua vida? Life is good
O que pedirias se pudesses ter só um desejo? How deep is the ocean?
Escreve uma frase sábia: consider the point from both ends

É para passar a tantos quantos queiram fazer o exercício ;)

Thanks mates *

21 Nov 2008

intimism (xvii)

Dedico-me à televisão.
E como sempre que me disponho a um passatempo desta natureza acabo por me assarapantar com o que passa no orgulhoso ecrã plano não sei quantas polegadas que ostenta o móvel estrategicamente colocado na minha sala. Móvel, agora reparo, já carregado de livros, numa invasão de espaço que não lhes pertence, como se pouco houvesse na estante onde os arrumo. Tenho para mim a teoria que de vontade própria são revestidos, em vez de lombadas, e silenciosamente, a meio da madrugada, invadem espaços alheios numa usurpação silente da qual um olho menos atento não dá conta.
Observo as lombadas decidindo-me este final de semana por uma arrumação criteriosa dos que para ali estão, lidos, por ler, relidos ou a reler. Esforço-me por prestar atenção, parando uns minutos em cada canal. Alguém que escreveu um livro fala de boca cheia nos elogios que deve ter recebido no seu lançamento, Pergunto-me se os receberá pelas leituras. Coisa feia a soberba. Muda-se o canal, apruma-se a vontade. Uma novela brasileira. Fantásticas as interpretações de quem não sei quem seja nem que papel interpreta. Não conheço a estória, difícil de entender assim. Novo canal e mais uma novela, desta vez portuguesa .. com umas outras quantas na fila. Esta está a terminar dizem-me as letras cor-de-rosa no canto superior do ecrã “último episódio”, e aparece alguém que era suposto ter morrido, ou talvez não, havia sido substituído por outro alguém com o objectivo de se vingar não sei de quê, e a menina grávida ostenta uma barriga considerável, há uma senhora de cadeira de rodas desaparecida há 12 anos num acidente de barco, caras consternadas, um outro na prisão, enfim, confusão a mais para os meus pobres neurónios habituados a coisas mais .. básicas.
Relanço o olhar de novo às lombadas, está ali um que procurava há uns tempos .. cidade sitiada de Lispector, prometi emprestá-lo. Vem-me à memória a quantidade de livros que já emprestei, pssst com um v de volta na ponta s.f.f., amanhã tenho umas chamadas telefónicas a fazer. .. os canais continuam a passar indiferentes à vontade do meu dedo, o comando em laivos de vida pára numa entrevista. Gosto de entrevistas eu. Principalmente com entrevistadores inteligentes. Não era o caso.
Está uma moldura torta, bem perto dos livros, levanto-me para a endireitar, a princesa de óculos escuros e grandes head-phones nos ouvidos, o nosso primeiro passeio de helicóptero apanhado no instante da aterragem .. carinha satisfeita, feliz. Pego num livro ao calha, desistindo da empreitada televisiva a que me tinha proposto. Verdade seja escrita, sem grande entusiasmo ou vontade. Abro-o igualmente ao calha e leio:
"Well, what have you there?" Mr. Dark squinted. "A Bible? How Very Charming, how childish and refreshingly old-fashioned."
"Have you ever read it, Mr. Dark?"
Something Wicked This Way Comes .. Ray Bradbury

Ainda no outro dia, era capaz de jurar, havia afirmado não ter nada deste escritor. Acho que vou antecipar a arrumação livreira. Ninguém se entende nesta desorganização. Nem os livros, os pobres ..

Falava de quê eu hoje? .. ah .. televisão não era? Seria .. ;)
Tenham um excelente fim-de-semana .. nós, imbuídas do espírito, vamos dar asas à imaginação * como alguém me disse há dias: “caminho aberto, terreno para criares o que te apetecer”. É isso mesmo que preciso.

Até segunda .. *

20 Nov 2008

quem é que encomendou as maiúsculas nos nomes dos blogueurs hein?
(já emendei o meu, safa .. a coisa em capital soa-me a gritaria .. !)

public service (vi)

é melhor darem aqui uma espreitadela se estiverem a pensar em sair de casa no próximo week-end ;)

intimism (xvi)

Nada prometo.
Esgotei a dose de promessas em alturas devidas e nas outras.
Entreguei, algumas vezes, o credo em mãos alheias e de todas me arrependi.
Gostava de ser como certas pessoas que conheci que de nada se arrependem.
Custa-me a crer que possa ser verdade.
E se o não for, será uma mentira.
Na verdade, não gostava nada de ser assim.

Vociferei, acusei acusando-me, chorei e sofri e quando pus um ponto, converteu-se em ponto final.
Parágrafo.
Na outra linha com letra grande, dizia a professora, ternamente, nos ditados semanais.
As outras linhas que escrevo começam invariavelmente com dois pequenos pontos .. uma pausa. Assimilo as palavras que me ocupam a mente e ao tentar transpô-las para o papel parecem-me quase sempre grandes demais. Pesadas.

Nada prometo, começava assim o texto, e o meu diário pergunta-me agora baixinho para não me interromper o fio do pensamento, ele sabe o quanto eu detesto quando isso me acontece, pergunta-me ele então quase em surdina que raio tem o que estás a escrever com inicio do texto, hein? Olho-o nos olhos, furiosa. Já que me interrompeste, avança tu, atiro-lhe em letras levemente azuis, texto corrido como quando escrevo depressa. Avança ele cioso do seu papel e da oportunidade. Lamenta que lha dê de menos. Recosto-me na cadeira e observo o esforço. Sente-se observado, começa a corar. Pára de olhar para mim, refila, sorrio eu e acendo um cigarro. Anda lá, oh brave one. Quero ler-te.

"Nada prometes. Porque de todas as promessas em que acreditaste algumas ficaram pelo caminho? Talvez. Porque de todas as que fizeste de algumas desististe? Quem sabe .. nada prometes, porque a mais bela promessa que algum dia fizeste é a que todos os dias concretizas .. as outras? talvez quando nada esperares. "

Atira, melodramático, a caneta pela mesa.
Solene inclina-se numa mesura caricata. És um tolo, murmuro, fechando-o. .. e tu, uma descrente de ti, grita!

19 Nov 2008

(i)

reapareceste na altura certa, tu, disse-lhe sorridente, estava a precisar de uma dose de loucura na minha vida.
Ele sorriu, afagando-lhe os dedos esguios, e perguntou de chofre: ainda tocas piano?
"Democracia Directa refere-se ao sistema onde os cidadãos decidem directamente cada assunto por votação.
Em Democracias Representativas, em contraste, os cidadãos elegem representantes em intervalos regulares, que então votam os assuntos em seu favor."


e nenhuma delas carece de período experimental Cara Drª, obrigada.

18 Nov 2008

À Luísa :)

Porque eu queria saber escrever assim, por imagens .. :) Obrigada pelos momentos, pela partilha *


Sentada na laje de pedra tantas vezes percorrida, olhar perdido naquele sol que se resguarda nas águas paradas, atenta ao grasnar das gaivotas em terra, virá tempestade?
.. sentada, pernas suspensas no rio, acolhedor o marulhar sereno da pequena vaga que bate na pedra. Recorda. Outras vidas por ali passadas, correrias de horários a cumprir, passeio de amor com amor, a namorada que acena, ferrenha a tabela apertada do último barco do dia, o rapaz parte mas o seu coração ficou, certamente, do lado de cá .. a criança debruçada que tenta tocar na água perante o olhar atento da mãe, aventura arriscada plenamente protegida. O casal idoso de mão dada ele conta-lhe um detalhe da história que começa com “foi daqui que .. “ ela sorri, já o ouve mal, mas sente-lhe a cadência ternurenta das palavras.
Sentada na laje de pedra, tantas vezes percorrida.
a não perder .. digo eu ;)

post insuportável (i)

Não questiono a sonsice que nos afecta por alturas do Natal.
E não a questiono por uma razão muito simples: vejo-a ao meu redor a partir de finais do mês de Novembro até ao final do ano com uma raízes, ralas e finas, pelo Janeiro adentro, para depois secar no vaso qual flor sem água e sem cuidados de jardineiro.
Mas .. longe de criticar a noção e consequente acção, acabo por dar graças pela sua existência. E isto por uma outra razão muito simples também .. se de todas as demandas levadas a cabo por estas alturas, de todos os consumos, de todos os sacos amarrados e entregues nas Igrejas, nos ATL ou nos lares de acolhimento, de todas as iniciativas que nos chegam por email para colaborar em presentes solidários, e outras de feiras e festas com intuitos beneméritos, se de toda a vontade em ajudar ainda que seja terreno virgem pelo resto do ano, resultar um Natal mais feliz e preenchido com o que de facto, e realmente, faz falta (coisa que, penso não estar muito longe da verdade, perdoem-me se assim não for e falarei por mim apenas, mas coisa que nenhum de nós sabe realmente o que seja) já valeu a pena! Àquelas almas mais cépticas que me atiram um “sabes lá se isso lá chega” quando me sabem a participar no Banco Alimentar ou em outra acção similar, costumo responder que se só chegar um quilo de arroz, já se justifica o esforço de muitos.
Portanto, longe de criticar e apontar como vejo fazer com frequência, sendo que ponteiros em riste, quase que aposto, provêm de quem não faz rigorosamente nada, nem no Natal nem nos restantes trezentos e sessenta e quatro/cinco dias do ano, eu incentivo, empolgo e empolgo-me, contribuo, ajudo e organizo.
Chamem-me “fingida”.

17 Nov 2008

i still believe ..

"If you can, help others; if you cannot do that, at least do not harm them. "

His Holliness The Dalai Lama

i'm just human and you?

Mummy, já começou! Grita a princesa da sala, enquanto me atarefo de volta dos tabuleiros do jantar. Queres ajuda? .. sorrio perante a oferta. Invariavelmente respondo-lhe que sim e aparece de braços estendidos. Leva o tabuleiro dela, eu o meu, e aterramos no sofá prontas para ver a reportagem anunciada, sobre o Racismo, que a princesa diz não existir. Pelo menos não na minha vida! afiança à Tia mais nova com quem tinha estado a conversar sobre o assunto. A Tia ri-se, responde-lhe um ainda bem, mas vais ver que te surpreendes logo quando passar na TV, assegura-lhe perante o ar entendido da pirralhapré-adolescente ;)
E surpreendeu. Pela negativa, obviamente.
O pai do menino branco que empurra com violência o menino negro do baloiço porque o seu filho quer andar. A rapariga brasileira conotada de prostituta. O rapaz cigano que, formação tem mas falta-lhe pelos vistos a habilitação principal: a cor de pele. Os políticos entrevistados que defendem “cada um no seu lugar”, ainda gostava de saber se quando lhes aparecer um médico negro, amarelo, vermelho ou às cores para lhes salvar a vida do filho, o vão “colocar no seu lugar”. Comecei a ferver, em surdina, à medida que passavam as imagens, as lágrimas, a revolta, a inconsequente lógica que parece pautar o discurso de quem defende que Portugal é dos portugueses. O ignóbil tatuado de bigode a lembrar outros bigodes que clama viver a sua família em Portugal há mais de 800 anos e portanto, tipo causa-efeito, tem muito mais direito de ser português do que qualquer negro que cá nasça e obtenha um bilhete de identidade. Fosse eu a entrevistadora e ousaria perguntar-lhe de quantos anos mais precisará para perceber a história. De quantas mais revisões? 800 anos parece-me suficiente.
Ser português.
Ser português será porventura discriminar? Maltratar e ofender? Amarfanhar e difamar? Chegar a matar? E orgulhar-se disso? e incentivar isso? E onde está a bandeira orgulhosa de tais feitos?

Sou portuguesa. Mas ontem disse-o baixinho, quase para mim, enquanto picava o bife com o garfo dando-me conta que de repente, havia perdido o apetite.
.. nada a fazer. Começo a deixar-me inundar pelo espírito .. fica o aviso que a maioria dos posts a publicar, doravante, serão insurportáveis .. mais ainda ;)


Imagem da net
Where the tree tops glisten

and children listen

14 Nov 2008

Semajnfino ;)

Vamos começar por assistir ao vivo e a cores a uma das melhores vozes actuais, fortemente influenciada pelo jazz, que no seu próprio timbre de afectação quase infantil, resulta, quanto a mim, num exercício delicioso. Falo de Lisa Ekdahl, hoje no CCB.

Depois, saco de week-end no porta-bagagem do sapito que, impaciente pela viagem, nos levará à Nazaré. Passeio mais que prometido à princesa do reino :) “Quem sabe não temos a sorte de apreciar o local onde estacou o cavalo de D. Fuas” (rio-me) .. “desde que não esteja nevoeiro mummy” responde-me a pirralha! Ops .. pré-adolescente, é o termo politicamente correcto acho .. ;)

Excelente fim-de-semana a todos!
Have fun .. *
O wordpress.com anda a piscar-me o olho .. um dia ainda me mudo e não, isto não tem a ver com a publicidade dos pacotinhos de açúcar: hoje ainda não é o dia! ;)

13 Nov 2008

intimism (xv)

Atraca pela última vez em Lisboa o Queen Elizabeth.
Portentoso, imponente entra o porto ladeado de pequenos barcos, quais pajens respeitosos a um distância cerimoniosa. Alinham-se os cadetes abrem ala ao capitão. Fardas brancas imaculadas brilham no sol de inverno, baixo, luminoso.
Atraca pela ultima vez em Lisboa o Queen Elizabeth e de repente, “não mais que de repente” voa-me a memória para o tabuleiro pintado à mão com figuras da família Real, minha Avó, e as histórias que me contavas detalhadas sobre a vida de cada um. Salta-me de repente a memória para as fotografias onde a farda branca imaculada daquele tio na Royal Navy está já amarelecida, não tão imaculada. Vai-se o pensamento para o “yes dear ..” com que começavas os relatos da família que é a minha.
Vai-se a memória para junto de ti no abraço apertado que ainda sinto a cada chegada .. a cada partida.
Atraca pela última vez em Lisboa um pedaço da tua história Avó, “ours, my dear .. ours” e estou certa que gostarias de o saber.

may I go now?

Há gente sensível.
Há, de facto, gente muito sensível e com essas e outras particularidades de feitio temos de saber lidar.
Quer as entendamos quer não.
Há gente que enfia chapeladas alheias como se fossem as suas, numa troca baldroca de chapéus que, já não havendo muitos, ainda assim servem, com mais ou menos cabelo.
Gente que toma as dores do alheio porque as suas, atrevo-me a epilogar, são demasiado pesadas.
Gente que se ofende quando a “ofensa” não lhes é dirigida e gente que se abespinha, mão na anca e pé no chinelo à mínima elevação de tom. De discórdia.
Há gente tão sensível que por vezes pasmo como conseguem andar na rua, parar no semáforo ou subir as escadas do autocarro.
Gente que opina, que julga e emite verdadeiros certificados de sabedoria doentia, prontos a atirar à cabeça de qualquer incauto, assim lhe saibam o nome para preencher a única linha que ficou em branco.
Gente.
Há ainda outra gente, ou tenho para mim que é a mesma, que se empapa de um superior espírito de cruzada assim se aflorem aqueles princípios e regras pelos quais gostam de advogar viver, esquecendo-se que a parte fundamental desses mesmos princípios e valores é a circunspecção. Palavra que, não sabem o que significa.
Gente.
Gente para quem a educação é palavra de arremesso contra a classe dos Professores, o respeito traduz-se no medo com que lidaram com os progenitores, e a conversa .. bom a conversa são meia dúzia de gritinhos histéricos e mãozinhas no ar enquanto redemoinham olhos num “sou bom, sou muito bom, sou o melhor” terminando num estridente “uh uh”.

Retirem-me do cenário por favor que eu ainda sei para o que compro bilhetes.
Ainda.

12 Nov 2008

intimism (xiv)

Mummy .. ?
Sim Querida?
Posso pedir-te um favor?
Claro.
(sorriso trocista pelo ar sério e compenetrado da menina .. não a conhecesse e não reconheceria a ironia)
Não voltes a escrever sobre a mãe do Dinizzzzz pode ser?
Óbvio. Mas porquê?
Porque foi ele o "par de jarra" que me saiu na actuação de Natal. Só pode ser castigo!

(Gargalhada)

porque ..

Pôs-me a pensar a Luísa, com este texto brilhante.
No que somos, no que merecemos ou não, no que propiciamos aconteça no país onde vivemos e até que ponto influenciamos de facto as decisões que em nosso nome são tomadas, nos são impostas, pelas quais temos de reger a nossa vida em sociedade para que vivamos .. em sociedade.
Já estive mais certa que a mudança está para breve. Mas continuo imbuída de um espírito que me leva a em vez de criticar e atirar saraiva ao próximo, em vez de me remeter ao “fado”, e ao “é assim porque sim”, tentar, por minúsculos que sejam os meus movimentos no panorama nacional, restaurar e acreditar nas melhorias.
E ao ler o texto da Luísa fogem-me os neurónios para a melhor explicação que algum dia li sobre o que é este “meu” País :)
Enjoy *
- Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança.
Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acovarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
- Quem?...
- Portugal.
Eça de Queirós "A Ilustre Casa de Ramires"

11 Nov 2008

eu sei .. Mestre

What we have we prize not to the worth
Whiles we enjoy it, but being lacked and lost,
Why, then we rack the value, then we find
The virtue that possession would not show us
Whiles it was ours.
William Shakespeare

do desinteresse (v)

Paradas no estacionamento do pequeno centro comercial onde nos abastecemos quinzenalmente de tudo o que não se pode comprar no mercado (chamem-me antiga ..) à espera da manobra esquerda-direita-avança e recua com que o senhor, dono de um sedan maior que o local escolhido para estacionar, tentava sair da camisa-de-onze-varas onde se enfiara.
Literalmente.
Atrás de nós, vários carros à espera do mesmo, ainda que sem o privilégio de assistir à manobra.
Abro ligeiramente o vidro, desligo o som do rádio para poupar os tímpanos à interferência que o mesmo faz no subsolo ;) e espanto-me com a senhora dona de uns cinquenta e tal anos, carro novo e luzidio cheio de mossas e riscos, que me tenta ultrapassar pela esquerda sabe-se lá para quê .. mistério a mente de uma condutora de fim-de-semana eu sei .. e a minha falta de paciência para perceber mentes alheias vai na directa proporção da hora do fim-de-semana em que as mesmas tentam surpreender-me.
Olha-me de alto a baixo, não sei à procura do quê, estou sentada for Christ!, e abana a mão no ar como que a enxotar uma mosca. Avança mais um rodado de pneu para ficar entalada entre o meu carro e o pilar que veda o acesso aos chicos espertos dos nossos descontentamentos, ups, estacionamentos! Ao tentar recuar bate, obviamente, no meu carro. Aliás teria de ser feita de borracha para conseguir sair da enrascada. Ou isso ou perceber que o ponto de embreagem é para ser feito enquanto se roda o volante. Mais depressa a veria feita de borracha, acho ..
Abro agora vidro todo e olho-a. A azáfama em rodar o volante era tanta que ao sentir-se observada, estaca de repente, batendo de novo no meu carro, e fica a olhar para mim, ligeiramente esgazeada.
O dono do carro larger than .. acaba por conseguir soltar-se da apertada camisa e avança. Impacientes os carros atrás de mim aceleram, sem sair do sítio.
Ligo os quatro-piscas, saio do carro para observar as consequências dos encostos com que tinha acabado de ser mimada.
De ar espinoteado e aos guinchos, literalmente aos guinchos, alguém a ensine a gritar por amor da santa, a irreflectida condutora salta do banco com os braços no ar.
Mas tem alguma coisa pergunta-me tem? tem? .. ã?! Diga lá tem ou não tem? enerva-a o meu silêncio, a seguir ao “boa tarde” com que a brindei, enquanto observo o pára-choques do pobre sapo que se não fosse um carro bem-educado .. nada tem de facto, mas o da fresca e fofa ganhou uns riscos extra. Felizmente do lado do pilar.
Sem lhe dar resposta, entro de novo no carro perante o ar gozão da princesa, avanço e estaciono.

Mummy .. estou impressionada - Diz-me a minha mais que tudo na pura da ironia, conhecendo-me a falta de paciência para este tipo de .. tipo de .. isso mesmo!
“Para dentro” .. sem dúvida que para dentro nem os elementos mais afastados da família daquela espécie, confiando que haja mais, valha-nos ..!, foram poupados.

10 Nov 2008

readings (vi)

é por estas e por outras é que eu .. fico em casa, além de mãe beta ligeiramente do sporting ou será ligeiramente beta ;) a filha é Leoa!
Parabéns Vieira do Mar .. um texto brilhante este!
Luís Novaes Tito, o Barbeiro de serviço, aborda de forma simples, e numa linguagem que todos decerto entendem, a Manifestação de Professores. A ler aqui .. e reflectir.
Uma imagem vale mais que mil palavras? Neste caso que 120.000 :) .. à Leonor um abraço solidário.

do interesse (iii)

Era tão bom que as pessoas conseguissem assumir-se como são e querem ser sem terem de denegrir quem acham que está dois degraus acima não era?
Era.
Principalmente quando a distância é infinitamente maior que isso.

A propósito? Perguntam e bem.
A propósito desta maldadezinha mesquinha e pequena que inunda cérebros e posturas, tão a jeito de uma humanidade que arrota postas de pescada sem saber limpar uma espinha.
A propósito da humildade mascarada em cinismo pronta a dardejar como se de arco e flechas ainda andássemos.

Se acham que os outros estão “acima” ergam-se caramba .. não nos arrastem a nós pela lama onde se movimentam.

7 Nov 2008

intimism (xiii)


Mãe e filha cansadas. O trabalho tem sido muito, as exigências outras tantas, algumas preocupações à mistura, alegrias quanto baste, e estes “pobres” “potes de emoções” à flor da pele .. estafadas. As duas! Assumo. ;)

Por isso, o convite de amigos “estamos à vossa espera” sem aceitar um “talvez” como resposta veio, decididamente, a calhar.
Turcifal, no Conselho de Torres Novas, uma lareira acesa e promessas de conversas em dia, com direito a passeio a cavalo e faces coradas, é tudo o que nos apetece :)

Até segunda * ..

6 Nov 2008

do interesse (ii) .. ou do desinteresse (iv) .. (?)

E feliz é? É feliz a sua filha?
Perguntou, interrompendo a saraivada de prémios e galardões que enchiam a boca daquela progenitora neurótica que em dez minutos olhou trinta vezes para o relógio de pulso enquanto falava sem parar das conquistas da filha na natação e na ginástica, o lugar do ranking nacional e do regional e até no outro de quem nunca ninguém tinha ouvido falar, a quantidade de medalhas que já tinha e agora o desplante em querer “coitada! Está doida!” abandonar uma das actividades. E logo a natação, imagine-se.. diz que tem pouco tempo para outras coisas .. que coisas?! Ah e o cansaço que isso lhe exigia a ela mãe, obviamente, sim a ela mãe que só Deus sabia o que lhe custava andar sempre de um lado para o outro, veste, despe, arranca e estaciona.

Falava alarvemente enquanto pulava de um tacão de bota para o outro, apoiada nos calcanhares, cena que sempre me surpreende quando a observo, verdadeiro trabalho de trapezista, equilibrista, enfim .. a entoação da voz em tom alto era acompanhada por um tique de cabeça que fazia balançar perigosamente o carrapito espetado no cimo da cabeça, pouco cabelo para tal penteado, pensei, e logo agora que as extensões naturais deixaram de permitir tais figuras .. assustou-me o Mas! dito uns decibéis acima do suportável, alguns pais, desafiando a autoridade da oradora, permitiam-se sussurrar outros assuntos, imagine-se a leviandade.
Aquele providencial MAS, leve afectação no s que me soou a qualquer coisa sibilante e viscosa, teve o condão de sossegar murmúrios.
Mas .. reforçou rolando os olhos para provocar na audiência aquele efeito que os tribunos são ensinados a provocar para .. (sei lá para quê) Mas .. voltou a proferir de sorriso lunático na boca pequena de dentes tortos, o facto é que a minha Quica está no vigésimo lugar do Ranking. Invejável o número, não acham? exclama orgulhosa de a pequena Quica ter provavelmente chegado onde ela nunca chegou.. ou chegará.

E feliz é? ouviu-se ao fundo do grupo, a voz clara de uma mãe, cigarro na mão, convenientemente afastada da mesura, .. é feliz a sua filha?

5 Nov 2008

My business is to teach my aspirations to conform themselves to fact, not to try and make facts harmonise with my aspirations.
(Huxley, Thomas Henry)

Congratulations Mr. President

I wish that all the meaningful words, all the extremely conscious actions proposed, all the promises and all the Hope .. come into a profitable end.
Congratulations Mr. President!

4 Nov 2008

public service (v)

Colocou finalmente de lado os intermináveis triângulos amorosos e suas complexidades. E digo, finalmente, porque enquanto leitora e admiradora da obra de Márai, que conheci há alguns anos com a tradução inglesa de Memoir of Hungary, não sou particularmente fã de extensivos mestrados sobre Mulheres ou Homens Certos ;)
Em Rebels, outra brilhante tradução, Sándor afasta-se determinantemente da sua fixação em tais triângulos. Contudo, as emoções ainda mais fortes que desponta no leitor passam por algo quase tão violento quanto: o que alia um grupo de jovens revoltados contra tudo.
“..trata das vicissitudes e aventuras de um grupo de rapazes, ou melhor, um bando, como se definem a si próprios, no final da Primavera de 1918, numa pequena cidade da Hungria distante da frente e onde a vida, aparentemente calma, é profundamente abalada pela guerra.”
Órfãos de Pais que combatem na frente, os Rebels decidem libertar e libertar-se de demónios, espalhando a sua revolta, arrastados por um rancor difícil de descrever.
Acima de tudo difícil de interiorizar ao longo das páginas.

Sándor Márai (1900-1989) Escritor e Jornalista Húngaro

What is it to be in love with a pathological liar and fantasist?

.. não sendo desta obra a frase que escolhi mas sim de Márai’s Esther’s Inheritance, considero-a legenda perfeita para classificar mais esta obra .. What is to be in love with .. pensei ao chegar às últimas e trágicas páginas deste excelente livro.

My opinion ..

pieces (iv)

Chamou-me lá a casa quando tivesse tempo para a ouvir.
Ora tempo, como todos sabemos, é algo tão preciso quanto a água. Fui egoisticamente adiando a situação até ao dia em que acordei a pensá-la. A pensar no convite que me fizera. E decidi não voltar a adiar.
Liguei-lhe e combinámos um fim de dia perto de fim-de-semana. A conversa noite fora não interferiria com os horários da criançada .. nem com os nossos. A princesa ficou orgulhosamente de baby sitter ao primo em casa dos tios, entregue aos tios mas a achar essencial a presença para que o primo durma sem birra. O que até é verdade!

Encontrei-a triste mas serena. Conformada. De aspecto mais magra e esguia ela que sempre foi elegante. O cabelo em madeixa do sol intenso que se concedeu nestas férias. Os olhos .. sempre aqueles olhos que dizem mais que um texto dos meus.
Lanche preparado à laia de jantar de petisco, aterrámos no sofá. Puxa uma caixa antiga, com os cantos dourados e a cartolina gasta de tanto abre e fecha. Uma caixa cheia de papéis. Que é isto, pergunto-lhe. Queria que lesses tudo, esclarece. Estão por ordem cronológica, adianta, para ser mais fácil. Sorrio e puxo do maço de papéis ordenados e presos com um elástico grosso que me fez lembrar o arquivo que a minha avó fazia das contas pagas. Todas guardadas e presas com um elástico igual. Contas da vida, na vida, tal como agora o que se me oferecia a ler.
E li. Ela serena, sentada ao meu lado. Conformada. Ia-me apreciando a expressão, tentando interpretar os sinais que a leitura me provocava. Li como tudo começou, inocentemente já sem inocência. Li os convites, os encontros, as juras de amor. Li o pedido de casamento e o entusiasmo com a visita à casa que seria .. a casa. Li a evolução no convívio com as crianças .. li as próprias crianças em conversa animada, em pedidos de ajuda. Conheço esta minha amiga como ninguém. Não substituindo nunca a mãe do lado de lá sei que seria uma excelente mãe. Percebo a empatia que conseguiu com a prole. E continuo a ler. As investidas e o princípio das tomadas de decisão. O conhecimento dos familiares, dos amigos dela. As reacções. Apercebi-me da falta de familiares e principalmente de amigos do lado de lá. Coisa estranha, na altura não valorizada.
Tudo escrito. Documentado. O pouco tempo que tinham para passar juntos na altura, fazia com que se escrevessem várias vezes por dia. Longas e extensas linhas, bonitas, profundas, felizes.
Li tudo. Até ao fim. Ao inesperado fim também ele por escrito.
Lancinante, como sei que foi.
Cruel.
Inexplicado.

Acabei de ler e voltei a ordenar a correspondência, colocando o fim no inicio.
Ela sorri e diz-me .. conheço-te .. estava à espera que fizesses isso mesmo, enquanto liga o botão do destruidor de papel. Tens a certeza? Pergunto sabendo a resposta.
Absoluta .. responde, logo eu que detesto certezas absolutas. Só queria que lesses.
Que me lesses. E que soubesses.

Fizemos um outro bule de chá, negro e de cheiro intenso como ambas gostamos, e acabámos a noite a relembrar as patifarias que pregámos, as partidas inocentes que pautaram a nossa infância e adolescência, as paixonetas, os namoros mais sérios e as relações fortes e construídas pedra sobre pedra, os amigos que já partiram e os outros de quem não sabemos .. relembrando o que fomos, como fomos, que caminhos percorremos para justificar como foi que chegámos até aqui.

3 Nov 2008

oxalá


Grita a voz em grito cavo um nome na escuridão.
Mexem-se as gentes no restolho encharcado, pés em botas de borracha que alagam no torrão há pouco seco.
Grita agora mais que uma. Gritam de desespero. Um foco de luz varre a escuridão em redor.
Atentam onde colocam os pés. Alaga fácil o terreno, perigosa a empreitada. Alguém se lembra de ir buscar cavalos e mais lanternas. Voltam atrás meia dúzia de passos, em correria, ouve-se o arfar em peitos sem ar.
A noite está escura, a chuva cai a cântaros, limpam-se os olhos na tentativa de procurar. Ver.
Oiço ao fundo da noite o balido do gado. Preso no curral apercebe-se do barulho da azáfama pouco costumeira e nocturna. Reclama. Os cães ladram furiosamente, os homens tentam acalmá-los, mandam-nos calar.
Grita a voz em grito agora rouco de tanto gritar. E no barulho da chuva alucinada que cai do céu em jorro imenso de pranto incontido nada mais se ouve que o desassossego de quem procura quem se perdeu.
Oxalá me encontrem, penso, tolhida, presa sem coragem para espreitar.
Oxalá.