17 Nov 2008

i'm just human and you?

Mummy, já começou! Grita a princesa da sala, enquanto me atarefo de volta dos tabuleiros do jantar. Queres ajuda? .. sorrio perante a oferta. Invariavelmente respondo-lhe que sim e aparece de braços estendidos. Leva o tabuleiro dela, eu o meu, e aterramos no sofá prontas para ver a reportagem anunciada, sobre o Racismo, que a princesa diz não existir. Pelo menos não na minha vida! afiança à Tia mais nova com quem tinha estado a conversar sobre o assunto. A Tia ri-se, responde-lhe um ainda bem, mas vais ver que te surpreendes logo quando passar na TV, assegura-lhe perante o ar entendido da pirralhapré-adolescente ;)
E surpreendeu. Pela negativa, obviamente.
O pai do menino branco que empurra com violência o menino negro do baloiço porque o seu filho quer andar. A rapariga brasileira conotada de prostituta. O rapaz cigano que, formação tem mas falta-lhe pelos vistos a habilitação principal: a cor de pele. Os políticos entrevistados que defendem “cada um no seu lugar”, ainda gostava de saber se quando lhes aparecer um médico negro, amarelo, vermelho ou às cores para lhes salvar a vida do filho, o vão “colocar no seu lugar”. Comecei a ferver, em surdina, à medida que passavam as imagens, as lágrimas, a revolta, a inconsequente lógica que parece pautar o discurso de quem defende que Portugal é dos portugueses. O ignóbil tatuado de bigode a lembrar outros bigodes que clama viver a sua família em Portugal há mais de 800 anos e portanto, tipo causa-efeito, tem muito mais direito de ser português do que qualquer negro que cá nasça e obtenha um bilhete de identidade. Fosse eu a entrevistadora e ousaria perguntar-lhe de quantos anos mais precisará para perceber a história. De quantas mais revisões? 800 anos parece-me suficiente.
Ser português.
Ser português será porventura discriminar? Maltratar e ofender? Amarfanhar e difamar? Chegar a matar? E orgulhar-se disso? e incentivar isso? E onde está a bandeira orgulhosa de tais feitos?

Sou portuguesa. Mas ontem disse-o baixinho, quase para mim, enquanto picava o bife com o garfo dando-me conta que de repente, havia perdido o apetite.