21 Nov 2008

intimism (xvii)

Dedico-me à televisão.
E como sempre que me disponho a um passatempo desta natureza acabo por me assarapantar com o que passa no orgulhoso ecrã plano não sei quantas polegadas que ostenta o móvel estrategicamente colocado na minha sala. Móvel, agora reparo, já carregado de livros, numa invasão de espaço que não lhes pertence, como se pouco houvesse na estante onde os arrumo. Tenho para mim a teoria que de vontade própria são revestidos, em vez de lombadas, e silenciosamente, a meio da madrugada, invadem espaços alheios numa usurpação silente da qual um olho menos atento não dá conta.
Observo as lombadas decidindo-me este final de semana por uma arrumação criteriosa dos que para ali estão, lidos, por ler, relidos ou a reler. Esforço-me por prestar atenção, parando uns minutos em cada canal. Alguém que escreveu um livro fala de boca cheia nos elogios que deve ter recebido no seu lançamento, Pergunto-me se os receberá pelas leituras. Coisa feia a soberba. Muda-se o canal, apruma-se a vontade. Uma novela brasileira. Fantásticas as interpretações de quem não sei quem seja nem que papel interpreta. Não conheço a estória, difícil de entender assim. Novo canal e mais uma novela, desta vez portuguesa .. com umas outras quantas na fila. Esta está a terminar dizem-me as letras cor-de-rosa no canto superior do ecrã “último episódio”, e aparece alguém que era suposto ter morrido, ou talvez não, havia sido substituído por outro alguém com o objectivo de se vingar não sei de quê, e a menina grávida ostenta uma barriga considerável, há uma senhora de cadeira de rodas desaparecida há 12 anos num acidente de barco, caras consternadas, um outro na prisão, enfim, confusão a mais para os meus pobres neurónios habituados a coisas mais .. básicas.
Relanço o olhar de novo às lombadas, está ali um que procurava há uns tempos .. cidade sitiada de Lispector, prometi emprestá-lo. Vem-me à memória a quantidade de livros que já emprestei, pssst com um v de volta na ponta s.f.f., amanhã tenho umas chamadas telefónicas a fazer. .. os canais continuam a passar indiferentes à vontade do meu dedo, o comando em laivos de vida pára numa entrevista. Gosto de entrevistas eu. Principalmente com entrevistadores inteligentes. Não era o caso.
Está uma moldura torta, bem perto dos livros, levanto-me para a endireitar, a princesa de óculos escuros e grandes head-phones nos ouvidos, o nosso primeiro passeio de helicóptero apanhado no instante da aterragem .. carinha satisfeita, feliz. Pego num livro ao calha, desistindo da empreitada televisiva a que me tinha proposto. Verdade seja escrita, sem grande entusiasmo ou vontade. Abro-o igualmente ao calha e leio:
"Well, what have you there?" Mr. Dark squinted. "A Bible? How Very Charming, how childish and refreshingly old-fashioned."
"Have you ever read it, Mr. Dark?"
Something Wicked This Way Comes .. Ray Bradbury

Ainda no outro dia, era capaz de jurar, havia afirmado não ter nada deste escritor. Acho que vou antecipar a arrumação livreira. Ninguém se entende nesta desorganização. Nem os livros, os pobres ..

Falava de quê eu hoje? .. ah .. televisão não era? Seria .. ;)
Tenham um excelente fim-de-semana .. nós, imbuídas do espírito, vamos dar asas à imaginação * como alguém me disse há dias: “caminho aberto, terreno para criares o que te apetecer”. É isso mesmo que preciso.

Até segunda .. *