26 Nov 2008

it's xmas time ..

.. era um tempo mágico
.. as últimas semanas do mês de Novembro eram tempos mágicos ..
Da despensa da avó saíam como que por milagre uma série de pequenas cestas de verga.
Cestas com um cheio característico. O cheiro do Natal.
E todos os anos, por esta altura, ela esforçava-se por decifrar de onde vinha aquele brilho, aquela .. neve assim que as cestas eram colocadas no chão da cozinha.
Convenientemente embrulhadas as pequenas figuras de gesso, pintadas à mão, preparavam-se para tomar os seus lugares no presépio forrado a musgo apanhado no quintal. Um presépio decorado com pinhas, folhas amarelas secas dentro dos livros, uma prata amachucada e depois alisada que fazia de rio, pequenas ovelhas, pastores, meninos e meninas de prendas na mão, os Reis Magos, camelos e vacas e burros .. e a “casa” do Menino Jesus.
Era com um cuidado ensinado e quase de respiração suspensa que se desembrulhava a pequena manjedoura, o Menino e seus Pais, aquela vaca e aquele burro que tinham honras de com o seu bafo quente aquecerem a figura do pequeno bebé envolto num pano branco. Era um fim-de-semana de alegria antecipada, a decoração da casa levava um dia inteiro, com estrelas brilhantes feitas de papel e fitas de todas as cores a pender das portas. Na entrada principal uma grande coroa feita por ela com a ajuda da avó em pequenas e delicadas folhas verdes, pintalgada de vermelho e branco, dava as Boas-Festas aos visitantes. A vela acendia-se perto do presépio e assim ficava até à noite do dia 24 de Dezembro por altura do nascimento do Menino.
Não havia Pai Natal .. a expressão era-lhe então desconhecida. As compras eram feitas em conjunto, grandes sacos e papel de embrulho para que em casa, uns dias antes do grande dia, serem todas embrulhadas com etiquetas personalizadas.
Os desenhos no papel pardo de sua autoria e a avó comprava grandes rolos de ráfia para fazer laços e prender os embrulhos cuidadosamente. Avolumavam-se junto à árvore de Natal e ela sabia de cor para quem era cada um deles.Eram tempos diferentes, sem dúvida.
A alegria da surpresa só ultrapassada pelo pequeno-almoço copioso com direito a plum-pudding no dia 25 de Dezembro, quando ainda meio estremunhada e de camisa de noite às avessas chegava à sala e via as suas próprias prendas por abrir ..Tempos em que tudo tinha o cheiro da castanha assada, das filhós a fritar, das fatias douradas carregadas de açúcar .. do bacalhau que até se comia com gosto na consoada, e dos tachos ao lume, carregados de couve e batata, a gotejar perante o “desespero” alegre da avó que “no hands for all of this .. no hands at all”.

.. tempo de férias e de celebração.
Tempo da Missa do Galo à meia-noite em ponto,
casacos grossos, cachecóis e gorros de lã,
e o beijinho no pé do bebé que tinha acabado de nascer para salvar os homens
.. dos homens.
Tempo de Natal.
texto já editado em Novembro de 2007.