3 Nov 2008

oxalá


Grita a voz em grito cavo um nome na escuridão.
Mexem-se as gentes no restolho encharcado, pés em botas de borracha que alagam no torrão há pouco seco.
Grita agora mais que uma. Gritam de desespero. Um foco de luz varre a escuridão em redor.
Atentam onde colocam os pés. Alaga fácil o terreno, perigosa a empreitada. Alguém se lembra de ir buscar cavalos e mais lanternas. Voltam atrás meia dúzia de passos, em correria, ouve-se o arfar em peitos sem ar.
A noite está escura, a chuva cai a cântaros, limpam-se os olhos na tentativa de procurar. Ver.
Oiço ao fundo da noite o balido do gado. Preso no curral apercebe-se do barulho da azáfama pouco costumeira e nocturna. Reclama. Os cães ladram furiosamente, os homens tentam acalmá-los, mandam-nos calar.
Grita a voz em grito agora rouco de tanto gritar. E no barulho da chuva alucinada que cai do céu em jorro imenso de pranto incontido nada mais se ouve que o desassossego de quem procura quem se perdeu.
Oxalá me encontrem, penso, tolhida, presa sem coragem para espreitar.
Oxalá.