4 Nov 2008

pieces (iv)

Chamou-me lá a casa quando tivesse tempo para a ouvir.
Ora tempo, como todos sabemos, é algo tão preciso quanto a água. Fui egoisticamente adiando a situação até ao dia em que acordei a pensá-la. A pensar no convite que me fizera. E decidi não voltar a adiar.
Liguei-lhe e combinámos um fim de dia perto de fim-de-semana. A conversa noite fora não interferiria com os horários da criançada .. nem com os nossos. A princesa ficou orgulhosamente de baby sitter ao primo em casa dos tios, entregue aos tios mas a achar essencial a presença para que o primo durma sem birra. O que até é verdade!

Encontrei-a triste mas serena. Conformada. De aspecto mais magra e esguia ela que sempre foi elegante. O cabelo em madeixa do sol intenso que se concedeu nestas férias. Os olhos .. sempre aqueles olhos que dizem mais que um texto dos meus.
Lanche preparado à laia de jantar de petisco, aterrámos no sofá. Puxa uma caixa antiga, com os cantos dourados e a cartolina gasta de tanto abre e fecha. Uma caixa cheia de papéis. Que é isto, pergunto-lhe. Queria que lesses tudo, esclarece. Estão por ordem cronológica, adianta, para ser mais fácil. Sorrio e puxo do maço de papéis ordenados e presos com um elástico grosso que me fez lembrar o arquivo que a minha avó fazia das contas pagas. Todas guardadas e presas com um elástico igual. Contas da vida, na vida, tal como agora o que se me oferecia a ler.
E li. Ela serena, sentada ao meu lado. Conformada. Ia-me apreciando a expressão, tentando interpretar os sinais que a leitura me provocava. Li como tudo começou, inocentemente já sem inocência. Li os convites, os encontros, as juras de amor. Li o pedido de casamento e o entusiasmo com a visita à casa que seria .. a casa. Li a evolução no convívio com as crianças .. li as próprias crianças em conversa animada, em pedidos de ajuda. Conheço esta minha amiga como ninguém. Não substituindo nunca a mãe do lado de lá sei que seria uma excelente mãe. Percebo a empatia que conseguiu com a prole. E continuo a ler. As investidas e o princípio das tomadas de decisão. O conhecimento dos familiares, dos amigos dela. As reacções. Apercebi-me da falta de familiares e principalmente de amigos do lado de lá. Coisa estranha, na altura não valorizada.
Tudo escrito. Documentado. O pouco tempo que tinham para passar juntos na altura, fazia com que se escrevessem várias vezes por dia. Longas e extensas linhas, bonitas, profundas, felizes.
Li tudo. Até ao fim. Ao inesperado fim também ele por escrito.
Lancinante, como sei que foi.
Cruel.
Inexplicado.

Acabei de ler e voltei a ordenar a correspondência, colocando o fim no inicio.
Ela sorri e diz-me .. conheço-te .. estava à espera que fizesses isso mesmo, enquanto liga o botão do destruidor de papel. Tens a certeza? Pergunto sabendo a resposta.
Absoluta .. responde, logo eu que detesto certezas absolutas. Só queria que lesses.
Que me lesses. E que soubesses.

Fizemos um outro bule de chá, negro e de cheiro intenso como ambas gostamos, e acabámos a noite a relembrar as patifarias que pregámos, as partidas inocentes que pautaram a nossa infância e adolescência, as paixonetas, os namoros mais sérios e as relações fortes e construídas pedra sobre pedra, os amigos que já partiram e os outros de quem não sabemos .. relembrando o que fomos, como fomos, que caminhos percorremos para justificar como foi que chegámos até aqui.