23 Dec 2008



Novo ano.

Novinho em folha e a estrear. Ali ao virar da esquina. À minha espera. E à espera de tudo o que a minha vontade lhe deite dentro. Um novo ano. Ímpar ainda por cima. Sempre acreditei mais em anos ímpares .. os outros são demasiado redondos ..

Que este que nos "espreita" o seja realmente .. *


Por aqui, Mãe e filha vão, em breve, de férias, com direito a New Year’s Eve. Bem o merecemos ;)
Para um local paradisíaco cujo único problema será: arranjar vontade para de lá regressar.

Mas regressaremos claro .. para vivermos este 2009 como ele merece. De novo. Como novo.

Ficam os nossos Desejos que o Natal seja Santo e em Paz .. e que concretizem as entradas no novo Ano da forma que o desejarem .. ;) nós, é o que tencionamos fazer *

22 Dec 2008



tenho algumas dúvidas sobre quem está mais animado com o Natal este ano .. se a Avó .. se os netos .. ! acho que vou deixá-los entregues uns aos outros e vou tomar um café .. (risos) *


é do cansaço, senhores, é do cansaço .. !

19 Dec 2008

sem tempo para muito mais .. e com um fim-de-semana de reencontros à porta .. desejo que o vosso seja tão bom quanto sei o meu vai ser :)
Hasta Lunes *
PS_ sim, sim, eu sei que tenho um pc em casa mas e tempo senhores? ;)

18 Dec 2008

intimism (xxii)

O cartão de natal feito pela princesa, em escada. Um presépio no degrau superior, a cartolina devidamente dobrada, colada, pintada .. um texto a dourado convida para o Almoço de Natal Pais e Alunos .. mais uma vez surpreende-me a Directora de Turma da minha mais que tudo. Um almoço por ela organizado, promove o convívio entre os Pais, as crianças, os professores deste 6º Ano cujo primeiro período agora termina .. as notas sem mácula, nada mais posso exigir .. se é que exijo assim de verbo feito.
O almoço antecede a festa de Natal preparada pelos Professores e Alunos. Em várias salas quase em simultâneo, toca-se flauta, interpreta-se um Xmas Carol, elevam-se cânticos de Natal no ar frio dos pavilhões decorados.

Gosto do Natal.
Gosto muito de tudo o que esta Quadra proporciona e representa. Mais que em qualquer outra altura do ano .. pelo espírito, pelo significado.
Conseguindo concentrar-me no simples para lá da hipocrisia que tantos denunciam .. é simples. Conseguindo, sem esquecer, ver sorrir todos os que já partiram e me fazem especial falta nesta altura .. é possível.

Pela segunda vez esta semana a minha princesa pede-me que não me atrase. .. não me atrasarei Querida .. até já :)

17 Dec 2008

.. de referir que a da princesa ficou perfeita .. ao contrário da da mãe, completamente mal enjorcada .. a cracker! a cracker ..!
.. so, isto repõe-me a esperança na geração vindoura .. !
Intimism quer dizer intimismo.
Coisa íntima. Do foro particular. Porque a espelho por aqui? Porque sim.
Personal stuff significa pessoal, tralha intransmissível, nicas, tricas, futilidades e bagatelas, dicas minhas. Não percebeu? Porto Editora on-line.

Estou prestável eu ..
E como recebi um correio electrónico com perguntas pertinentes reveladoras de uma preocupação legítima e sincera, quase comovente, com que alguns .. alguns? Não estou certa. O tipo de letra não é delator e o apelido pouco identificativo. Mas dizia, preocupação essa com que me brindam e, em boa verdade se escreva, não se justifica ficar sem resposta, não quero ser responsável por qualquer úlcera em sede de ausência .. quê?!

Ok. É só isto. O resto fica para quando tiver tempo .. oh tempo ;)
"Voyeurismo é uma atitude que consiste em invadir a privacidade das pessoas sem o conhecimento das mesmas. (...) o termo Voyeur vem do francês, que literalmente significa: Cuidar da vida alheia, o que faz com que um voyeur seja muito parecido com outras pessoas que ninguém suporta, os fofoqueiros.


mantive a versão brasileira da coisa de propósito. É que o termo fofoqueiro é um .. must *

tenham juízo, andem!

16 Dec 2008

No quiosque da Olá peço um sundae de caramelo.
O moço solícito e simpático, desejoso de me dar a conhecer a última das últimas, pergunta-me e o filme? .. filme? Que filme? Pergunto de volta. Ao escolher um sundae tem direito a um filme, olhe aqui a lista dos dvd’s disponíveis.

Bloqueei.
Basilar eu.
Só queria mesmo um sundae de caramelo.
Chatice isto ..

15 Dec 2008

eu deixei passar a data em branco .. shame on me .. mas o que me desculpa é que o Autor também .. ;)
Parabéns Caro Hélder, Amigo, Conterrâneo, leitura diária * que venham mais 4 ou tantos quantos os que a vontade lhe ditar!

Xmas crackers? i've tried ..


até à meia-noite .. sim, sim, até às doze badaladas, afincadamente, na mesa da sala, profusão de laços, gomas, mensagens de Natal, papelinhos e rebuçados .. tentei com o primor que via todos os Natais a minha Avó fazê-las, e era tão fácil naquela altura ..

mas ..!

não, não vou mostar o resultado, que adorava fosse tão badalão quanto o da fotografia ... ;)

intimism (xxi)


Último ensaio às 10h de sábado Mummy, informa-me a princesa.

Para a actuação às 11h .. todas as classes de rítmica prontas e vestidas, cabelo bem apanhado, brilhantes e pintura suave. Estou nervosa Mãe .. atira-me à entrada no carro, depois de mais duas horas de estica, pula, salta, roda, pé em ponta braço em arco. Sorrio e preparo-me para mais uma exibição. Desejosa de ver que faz ela com dois meses de aulas, numa turma de crianças mais velhas, a minha pirralha, que este ano deixou o ballet para se dedicar à ginástica rítmica.
Sábado. 08h00 .. salto da cama, preparo-me e acordo-a. Veste o fato por debaixo da roupa, está um frio de rachar e um temporal que só visto. O vento fez estragos, a chuva não pára de cair, a nossa rua já parece um rio respeitando a tradição de todos os anos por esta altura ..

Eu disse 08h00? E eram. Estou certa que eram. Mas na próxima miradela ao relógio da sala en passant direita à cozinha, brinda-me o velho mostrador recuperado com a seguinte informação: faltam vinte minutos para as dez. Hein? Como assim? ..
Um corre-corre, rodopio de mochila com as calças para a actuação, as meias para o aquecimento, mais gel no cabelo que a opção de escadear os longos cabelos este verão foi uma má opção, ganchos em arco, carrapito no cimo da cabeça, blush, pouco baton, estou nervosa mummy .. vai comer, anda, que isso passa .. e tempo?! Oh tempo castrador e inflexível que passa na ponta do ponteiro mais depressa que eu consigo dizer “estamos atrasadas”! e eu falo depressa .. como sabem!
Era só atravessar a rua, direitas ao pavilhão alugado pelo SAD para a apresentação pública das suas alunas. Só atravessar a rua que na loucura da enxurrada pareceu-nos tarefa hercúlea sem um chapéu-de-chuva. Abre o carro, porta bagagens, chapéu preto. Não era difícil mas ao fechar, a chave do carro entalada sabe Deus como, ou nem ele saberá acredito, partiu-se ao meio. Boa! Temos uma de substituição Mummy, grita-me a princesa da entrada do prédio. E eu sei onde está! Ufana e contente, galhofa com a desorganização da mãe .. (já me penitenciei por aqui, nem pensem que o volto a fazer) ;)

10h05 – corre pelo pavilhão fora, as professoras de sorriso radiante acolhem as ginastas para os aquecimentos e último ensaio. Dá-me um beijo repenicado, segredo-lhe o muita m*** da tia Nocas “não te atrases mummy, começamos às 11h00
Aguentei estóica. Juro que sim. Aplaudi, tirei algumas fotografias, cantei ao som dos Abba, adorei todas as coreografias. A classe dos 6 anos, as pré-olímpicas, as meninas de competição, massas, bolas, fitas, arcos.
Ao ouvir o nome dela, a pose em pontas, o braço esticado, o agradecimento de sorriso, os olhos ao longe .. descambei!

Uma mãe não é de ferro .. desengane-se quem pensa o contrário!

12 Dec 2008

pior que a reportagem que fizeste sobre os sem-abrigo de Lisboa mais ou menos na mesma altura, perguntei ao meu irmão, profissional envolvido .. sobre o que se vê aqui.

Muito pior, respondeu-me.

É da época dizem alguns .. é do "com o mal dos outros eu não vivo bem" costumo responder.

Porque além de concertos de natal há por este mundo fora natais sem conserto.

xyz

Quando é grande a necessidade de justificação, como que a lembrar constantemente o interlocutor de algo que se sabe ele não esqueceu, o grau de segurança nas afirmações passa a diminutivo, perde peso, torna-se ridículo e proporciona a fácil identificação da mentira por detrás da verdade que se quer manter, a todo o custo, oculta.

Maldita visão raioZ

;) Bom fim de semana
.. há concerto de Natal no CCB just in case

11 Dec 2008

up close & personal

Saía todos os dias a correr da faculdade à hora do almoço directa ao hospital. Levava no saco de papel uma maçã e as palavras cruzadas que havia recortado do jornal do bar. A avó adoraria poder fazê-las logo que acordasse, estava certa. Subia apressada a íngreme rua, apanhava aquele autocarro no limite do horário e graças ao arranque lento do motorista quando a não via. Sabia-lhe o percurso de cor e todos os dias lhe perguntava: está melhor? ..
Entrava no Hospital sempre à mesma hora, todos os dias, e perante o ar condoído da enfermeira arvorava o seu melhor sorriso de esperança, pura e vã esperança ela sabia, mas como deixar de acreditar?
E se deixasse de acreditar não quereria dizer que desistia?
E desistindo, Deus levá-la-ia mais cedo. Tinha a certeza.
Hoje ia com um aperto no estômago, falta de alimento de certeza que a maçã continuava no saco, não poderia ser mais nada que isso porque não tinha o dom da adivinhação e muito menos conseguia prever o futuro. Portanto, era só e mais nada .. fome! Ouviste bem? perguntava-se na sensação em crescendo que algo se tinha passado depois de ontem. Ontem a avó havia-lhe contado um sonho estranho. Ficara em pânico sem querer ler nas entrelinhas, recusando-se a interpretar. Não.
Hoje a enfermeira não a esperava. Sentiu a falta do seu ar condoído. Correu pelo corredor fora de coração na boca, tentando calar aquela voz. Não era a sua voz. Que voz era aquela?! A porta do quarto da avó estava aberta. Entrou de rompante.
A cama feita, lisa, branca, impessoal.
Como se ninguém a tivesse habitado.
Ou como se há muito tivesse partido.

Another year goes by since you gone Granny, and I still miss You .. I really, really do.

10 Dec 2008

Ainda não são suficientes.

intimism (xx)


Uma manhã inteira para fazer a Árvore de Natal.

Cada ano que passa demoramos mais tempo atira a princesa do reino, na galhofa, fitas douradas no cabelo e estrelinhas soltas agarradas à camisola. O cesto, eu já falei nesta coisa das cestas de natal não já? Claro que sim, mas escrevia, o cesto de Natal sai da despensa carregado de adereços dos quais já não nos lembramos. Os sinos, os ursinhos do tempo da minha avó, uma decoração bem britânica com ares de antigo, as bolas vermelhas, só vermelhas que saltitam pelo chão da sala e se escondem debaixo do sofá e atrás da estante dos livros como se brincassem às escondidas. Os trabalhos feitos pela mais que tudo, cartões de Natal coloridos, fotografias com o Pai Natal na altura em que ainda se tiravam fotografias com o Pai Natal .. mum, olha-me aqui tão pequena! A estrela dourada e enorme com direito a honras de a 4 mãos ser colocada no topo da árvore que primeiro se arma, alisa, esticam-se as hastes e depois se enfeita matematicamente. E digo matematicamente porque a miúda coloca e afasta-se a apreciar o efeito, e este ramo está muito nú, aquele tem coisas a mais, põe e dispõe num desassossego de fitas, bolas, enfeites e colares de pérolas. Todos os anos compramos um pequeno enfeite, e aproveitamos quase todos os de anos anteriores .. memórias de Natais passados, dizia a minha avó, e desejos para Natais futuros .. e lembro-me que na altura eu acreditava que aquela pequena peça para o presépio, ou as fitas que de prateado passavam a dourado naquele ano, encerravam todas as memórias e todos os desejos. E no Natal seguinte, apurávamos quantos os desejos concretizados e os sonhos tornados realidade. E confiávamos.

Mummmmyyyyyyy! Oiço de repente, sinal que me chama há que tempos .. ;) ficou linda não ficou?? Ficou perfeita princesa .. e como brilha a nossa árvore este ano .. pudera .. foram tantas as concretizações e está carregadinha de desejos para o próximo ano .. oxalá ;)

9 Dec 2008

"Opportunities are never lost;
someone will take the ones you miss"


oportunidades há que é melhor, preferível, indispensável .. perder.
Sem despeito mas com um imensurável alívio.

Once again .. thanks time *

pieces (v)

Range o vento na janela, uiva à porta fechada. Salta pela frincha do tempo e invade a assoalhada. A manta rala e curta não tapa o corpo deitado. Há uma malga no chão sujo, pedaços de comida seca e bolorenta, um cheiro a bafio e a suor invade o nariz mais sensível demovendo quem tenta aproximar-se. Cartões espalhados, um gorro de lã e um casaco pequeno nas costas de uma cadeira sem perna. Na mesa de madeira, tosca e torta, um jarro de vidro de boca partida, uma mistela, zurrapa de algo vermelho .. ou negro.
Tosse constante o corpo deitado.
Agonia em leito perto do fim.

Brilham as luzes pela rua. Das janelas abertas, a sala cheia de gente, emana um calor apetecível. A lareira crepita em achas bem colocadas de forma a fazer o lume quente, acolhedor. As meninas da casa vestidas de vermelho, fitinhas brilhantes nos cabelos sedosos, compridos. Rapazolas de fato azul-escuro, camisa branca e gravata desafiam a lei da gravidade em cavalitas no corrimão. Adultos bem vestidos, arranjados, simpáticos e generosos aparecerem com os braços cheios de embrulhos, laços vistosos de todas cores e etiquetas a condizer. Acumulam-se na árvore de Natal enorme, quase a tocar o tecto, decorada em tons de dourado e vermelho. A mesa posta a preceito, toalha de linho, antiga, bordada, brilham os copos e os talheres aos quais alguém puxou o lustro, demoradamente. Há um tchim tchim constante no ar, gargalhadas, brilhos e sorrisos.
Tens visto o Pedro?”, pergunta a voz cansada da avó, cerimoniosamente sentada no cadeirão de cetim, almofada confortável nas costas. O cabelo todo branco está arranjado para a ocasião, as faces num leve pó de arroz marcadas pelas rugas de uma vida e nos olhos uma imensa tristeza. Falta-lhe um filho ali. O seu filho. “Não, mãezinha .. há muito que ninguém o vê”! mente-lhe caridosa a filha mais velha.

Há muito .. ninguém.

5 Dec 2008

intimism (xix)

(imagem da net)

O Tempo é um ser responsável.
Sem sombra de dúvida.
Assim lhe deiamos o tempo necessário para seguir o seu percurso, fazer a sua estrada, corrigir aquela lomba ou saldar o buraco que alguém se encarregou de escavar seguindo em frente sem se preocupar com quem vem atrás.
O tempo. Esse bem inestimável, por vezes, tão pouco considerado, nos ditados que são imensos e até nas lengalengas em boca de criançada. Ultimamente, confesso que tenho pensado ser o tempo uma das melhores dádivas que a vida me concede.
Tempo para me divertir, para pensar, para ler, para acompanhar crescimento da minha filha, para me encantar, para me voltar a apaixonar.
Tempo para me consumir a trabalhar pedindo às horas que se desfaçam em horas, que o dia se prolongue. Tempo para poupar ou para gastar. Para rir .. o que eu gosto de rir, para chorar. Para ouvir, conviver, correr, sair, andar devagar. Tempo para me espantar, para descobrir, para ouvir quem precisa ou interromper.
Para me recompor, sabendo que para chegar à recta que prevejo lá ao fundo onde o sol brilha de novo, vou ter de superar este obstáculo aqui, desacelerar na curva à esquerda, abrandar talvez ou quem sabe fazer um compasso de espera para que o tempo me dê tempo de lá chegar.
Tempo do tempo que tenho para Viver.
Sem conta de deve e haver, sem balanço mas sempre e acima de tudo tentando não perder a razão.
Tempo.
Obrigada.

(que o vosso seja excelente nestes dias que se aproximam)

4 Dec 2008

Claro que podes .. todas as que quiseres, diz-me, simpático, o Miguel à minha incursão num “posso roubar” descarado .. e roubei.
Gérard Dubois
Porque me lembra as gravuras da minha infância com as letras de “B as for ball”. Porque o traje me recorda os conjuntos que vestiam os bonecos que de papel eram feitos e recortados. Porque a inocência do “mundo é uma bola de algodão” deixou de estar na minha mão mas há sempre algo que nos relembra que fomos crianças. E eu tento, sei que tento, e nem me posso queixar muito porque na maioria das vezes .. consigo, manter aceso o pequeno brilho de espanto nos olhos da criança que fui.
Mesmo quando os problemas apertam, as soluções estão tão lá à frente que nem o maior dos optimismos as aproxima e a cretinice ladeia-nos fazendo-nos exasperar. Ou tentando ..

remembering

Recebemos um postal de Barcelona.
De uma amiga querida, muito querida, que por lá trabalha. Que por lá está a viver. A princesa do reino agarra-o e lê-o de um fôlego, confessando de imediato imensas saudades. Da Amiga e da cidade onde nos perdemos por cinco maravilhosos dias aqui retratados ;) engraçado como se despoletam as memórias.
Felizes com as notícias, serviu a lembrança para se ir buscar o diário daquela viagem específica (sim eu sei soa a coisa antiga mas temos um diário de viagens onde escrevemos .. a caneta!) e nos rirmos (ou melhor, ela rir-se .. !) com passagens do género “a mummy, de mapa de metro na mão conseguiu perder-se duas vezes hoje.” .. engraçadinha.

Que por aí sejas tão feliz quanto nós fomos Chérie*

3 Dec 2008

Eu sempre tive dúvidas que um mesmo chapéu servisse várias cabeças.
Acabaram de mas dissipar.
Obrigada :)

intimism (xviii)

Aterramos as duas no sofá, a manta quente e confortável, enrolamo-nos e ficamos naquilo a que chamamos o “melhor momento do dia” .. aproveito todos os minutos em que assim ainda é, certa mas não nostálgica que dias virão em que o farei sozinha e ela em amena cavaqueira no vão de escada ou no café, com amigos, amigas, namorado talvez .. a conversa sai solta e gosto de a observar enquanto me vai contando de que foi feito o seu dia. Trabalhos, estudos, o ensaio da peça de natal do atl, este ano com direito a exibição pública, os exercícios da rítmica, o sarau está à porta, mais trabalhos, a professora de português que só ralha com as raparigas, o professor de música que leva a mão ao peito e faz um esgar de dor de cada vez que a nota da flauta sai desafinada “é um melodramático mãe”, eu rio-me, ela continua, com a presença de uma menina nova na turma, acabada de chegar por transferência e mudança de casa, vive com os avós, ainda ninguém lhe perguntou pelos pais, com medo que a resposta faça desabar as lágrimas que sentem presas nos olhos. Olhos verdes, diz-me a minha filha, ela tem olhos verdes mummy, mas sempre à beira do choro. Passa o assunto para os balneários do SAD, a propósito não sei de quê vem à baila a rapariga que não se despe em frente às outras, por pudor ou vergonha, ninguém sabe muito bem. Já é crescida, tem 15 anos mas bate com as portas da casa de banho e fecha-se lá dentro de cada vez que aparece uma outra, roupas penduradas por todo o lado e um despudor próprio de quem pratica desporto. Não sei como consegues, atirou-me no outro dia quando estávamos só as duas, eu a calçar as meias e a vestir o maillot, ainda era cedo, e eu respondi-lhe como consigo o quê? Achando que ela se estava a referir a um qualquer exercício que fazemos na aula, sabes que os exercícios para o sarau são dificílimos mummy? .. aceno a cabeça para não a interromper. De repente pára, absorta num qualquer pensamento, pergunto-lhe “so?” ao que me pergunta de volta (mania hereditária esta) “porque é que algumas mulheres têm vergonha de mulheres mummy?” … quedando-me eu no pensamento de quantas já conheci na vida com vergonha delas próprias. Falo-lhe da educação recebida, dos tabus, da preservação da intimidade a que sempre a aconselhei, no facto de muitas não gostarem de si mesmas e por isso não gostarem de se expor, prelecção exaustiva notando-lhe um sorriso a despontar, matreiro, olhinhos ternos ao rematar, a despropósito, ou talvez não: “é tão bom que sejas tu a minha mãe mummy” .. consciente que este pedaço de felicidade que partilhamos por sermos quem somos se deve a um acidente de percurso. Nada mais.
E eu dou Graças por seres a minha filha .. todos os dias.

2 Dec 2008

.. descobri no Tim o Projecto da Patrícia Lino .. Obrigada Tim, Boa Sorte Patrícia .. que se concretize a mais valia com que nos brinda!
Obrigada Miguel. Esta vem a calhar, hoje.

What's the day for today? Freedom, they said.

"Saibão quantos este publico instrumento virem, que sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil oito centos e setenta e dous, aos vinte e hum dias de Maio do dito nesta Freguesia de Santa Anna do Pirapetinga Termo da Leopoldina Comarca do Rio Novo e Provincia de Minas, em meo Cartorio compareceo perante mim escrivão, O cidadão Vicente Ferreira da Silva morador nesta Freguesia do meo conhecimento e das testemunhas abaixo assignados perante as quaes por elle foi dito que é Senhor, e possuidor de hum escravinho de nome Pedro, de idade de oito meses e quatro dias, filho de sua escrava Silvana, ao qual concede plena liberdade como se nassesse de ventre livre, isto de muito sua livre e espontanea vontade, e de como assim o disse me pedio este instrumento em meo livro de nottas para a todo o tempo constarem o qual assigna com as testemunhas, com migo Manoel Jose de Magalhaens, escrivão que escrevi e assigno em publico e razo."


Carta de liberdade ao filho de uma escrava.
Data: 1872
Há precisamente 136 anos.
Parece muito mas se olharmos à nossa volta percebemos que não é.
E que há uma imensidão de coisas para fazer.
Coisas que não passam por algo tão linear quanto assinar os destinos da vida de alguém.