3 Dec 2008

intimism (xviii)

Aterramos as duas no sofá, a manta quente e confortável, enrolamo-nos e ficamos naquilo a que chamamos o “melhor momento do dia” .. aproveito todos os minutos em que assim ainda é, certa mas não nostálgica que dias virão em que o farei sozinha e ela em amena cavaqueira no vão de escada ou no café, com amigos, amigas, namorado talvez .. a conversa sai solta e gosto de a observar enquanto me vai contando de que foi feito o seu dia. Trabalhos, estudos, o ensaio da peça de natal do atl, este ano com direito a exibição pública, os exercícios da rítmica, o sarau está à porta, mais trabalhos, a professora de português que só ralha com as raparigas, o professor de música que leva a mão ao peito e faz um esgar de dor de cada vez que a nota da flauta sai desafinada “é um melodramático mãe”, eu rio-me, ela continua, com a presença de uma menina nova na turma, acabada de chegar por transferência e mudança de casa, vive com os avós, ainda ninguém lhe perguntou pelos pais, com medo que a resposta faça desabar as lágrimas que sentem presas nos olhos. Olhos verdes, diz-me a minha filha, ela tem olhos verdes mummy, mas sempre à beira do choro. Passa o assunto para os balneários do SAD, a propósito não sei de quê vem à baila a rapariga que não se despe em frente às outras, por pudor ou vergonha, ninguém sabe muito bem. Já é crescida, tem 15 anos mas bate com as portas da casa de banho e fecha-se lá dentro de cada vez que aparece uma outra, roupas penduradas por todo o lado e um despudor próprio de quem pratica desporto. Não sei como consegues, atirou-me no outro dia quando estávamos só as duas, eu a calçar as meias e a vestir o maillot, ainda era cedo, e eu respondi-lhe como consigo o quê? Achando que ela se estava a referir a um qualquer exercício que fazemos na aula, sabes que os exercícios para o sarau são dificílimos mummy? .. aceno a cabeça para não a interromper. De repente pára, absorta num qualquer pensamento, pergunto-lhe “so?” ao que me pergunta de volta (mania hereditária esta) “porque é que algumas mulheres têm vergonha de mulheres mummy?” … quedando-me eu no pensamento de quantas já conheci na vida com vergonha delas próprias. Falo-lhe da educação recebida, dos tabus, da preservação da intimidade a que sempre a aconselhei, no facto de muitas não gostarem de si mesmas e por isso não gostarem de se expor, prelecção exaustiva notando-lhe um sorriso a despontar, matreiro, olhinhos ternos ao rematar, a despropósito, ou talvez não: “é tão bom que sejas tu a minha mãe mummy” .. consciente que este pedaço de felicidade que partilhamos por sermos quem somos se deve a um acidente de percurso. Nada mais.
E eu dou Graças por seres a minha filha .. todos os dias.