11 Dec 2008

up close & personal

Saía todos os dias a correr da faculdade à hora do almoço directa ao hospital. Levava no saco de papel uma maçã e as palavras cruzadas que havia recortado do jornal do bar. A avó adoraria poder fazê-las logo que acordasse, estava certa. Subia apressada a íngreme rua, apanhava aquele autocarro no limite do horário e graças ao arranque lento do motorista quando a não via. Sabia-lhe o percurso de cor e todos os dias lhe perguntava: está melhor? ..
Entrava no Hospital sempre à mesma hora, todos os dias, e perante o ar condoído da enfermeira arvorava o seu melhor sorriso de esperança, pura e vã esperança ela sabia, mas como deixar de acreditar?
E se deixasse de acreditar não quereria dizer que desistia?
E desistindo, Deus levá-la-ia mais cedo. Tinha a certeza.
Hoje ia com um aperto no estômago, falta de alimento de certeza que a maçã continuava no saco, não poderia ser mais nada que isso porque não tinha o dom da adivinhação e muito menos conseguia prever o futuro. Portanto, era só e mais nada .. fome! Ouviste bem? perguntava-se na sensação em crescendo que algo se tinha passado depois de ontem. Ontem a avó havia-lhe contado um sonho estranho. Ficara em pânico sem querer ler nas entrelinhas, recusando-se a interpretar. Não.
Hoje a enfermeira não a esperava. Sentiu a falta do seu ar condoído. Correu pelo corredor fora de coração na boca, tentando calar aquela voz. Não era a sua voz. Que voz era aquela?! A porta do quarto da avó estava aberta. Entrou de rompante.
A cama feita, lisa, branca, impessoal.
Como se ninguém a tivesse habitado.
Ou como se há muito tivesse partido.

Another year goes by since you gone Granny, and I still miss You .. I really, really do.