30 Jan 2009

?!

Mummy, quem foi schindler?
Até me engasguei eu. Porque? perguntei de volta. Porque estamos a ensaiar uma das músicas do filme e fiquei curiosa ..

E fiquei curiosa.
E eu, pronta para um fim de semana daqueles, vou ter de fazer uma bolsa no plano dos planos ;) para recordar Oskar Schindler e lhe dar um briefing .. que pelo termo não julguem breve que a miúda é complicadinha e cheia de perguntas ..
Não podiam ter escolhido assim uma coisa tipo abelha maia não?
;)
Bom fim-de-semana para todos *

29 Jan 2009

porque 144 anos não são 144 horas ..

(imagem retirada da internet)

"De forma brusca e pouco pensada, caminha-se a passos bem largos para a total descaracterização de um jornal que marcou a agenda nacional, que incomodou governos e desassossegou sectores que se sempre se sentiram protegidos.
Qualidade jornalística tal que levou mesmo a que, em 1983, a UNESCO considerasse o Diário de Notícias “o jornal de referência de Portugal”.

Lembro-me de ter lido há muito um livro onde, entre várias referências históricas a Portugal, era mencionado o trabalho e o esforço de um jornal. Um jornal que, em pleno regime e com todas as censuras, inibições e ameaças, continuava, nas entrelinhas, fruto de esforço e cálculo quase matemático dos seus jornalistas da altura, a fazer passar mensagem, a levantar a verdade de entre as pedras onde muitos a queriam soterrada, a espalhar alguma esperança.

Esse Jornal era, no livro que li, o Diário de Notícias.

Petição Aqui para quem quiser assinar.
Eu, que não sou jornalista, já assinei.

intimism (xxvii)

Campeonato Europeu de Patinagem Artística na EuroSport e a princesa da casa, sentada no sofá, atenta, a torcer pelos italianos que na sua douta opinião, são os melhores mãe! .. um olho no écran outro no puzzle que o primo caçula está a tentar montar e para o qual requer a sua ajuda. Permanente. Pima auda! Exclama, e a prima ajuda, encaixa mais uma peça ou mostra-lha tentando que ele perceba onde a colocar. E ele percebe. Muito bem até. É pura fita esta da chamada de atenção.
Há um par que escorrega no gelo, ele chega a cair, a garota horrorizada leva as mãos à boca no susto, e logo ele muito atento “u foi?”. Senta-o ao seu lado e explica-lhe que é a patinagem, que andam em lâminas, que podem cair. Começo a rir-me eu da cozinha, onde montei a tábua de passar para dar uma ajuda à irmã .. também caçula que hoje chega a horas impróprias cheia que está de trabalho.
Senta-se o petiz, muito compenetrado ao lado da prima, dá-lhe a mão, e fixa o écran. Acompanha os movimentos graciosos e exclama os bravo! e as palmas com que a minha se entusiasma. Espreito-os. Conversam com a linguagem própria de uma diferença de idade de oito anos e poucos meses.
Pima gota poi gota?
A prima gosta muito e tu?
Eu gota munto. Tu sabi.
Sei o quê querido?
Tu sabi fazele.
Não, a prima não sabe fazer aquilo!
Sabi, sabi Bé viu.
Oh Bé a prima faz ginástica rítmica, não é a mesma coisa. Olha, eu explico, vem cá!

São 21h .. o mais pequeno já devia estar na cama e a mais velha a caminho dentro de meia hora .. poupo-Vos à descrição naturalmente lamechas de um conjunto de exercícios rítmicos feitos .. com a fralda já posta! ;)

28 Jan 2009

twilight "zon"

Eu e os técnicos atendedores de telefone da TV Cabo (Zon, whatever) não falamos decididamente a mesma linguagem.
Não falamos, pronto.
O acordo ortográfico entrará em vigor, segundo sei, em 2009, mas o certo é que as equipas de técnicos atendedores de telefone na Zon estão muito à frente. Não só escrevem outra língua em resposta às nossas dúvidas, como não nos entendem as instruções e as respostas que vamos dando às inúmeras questões que nos colocam de cada vez que temos a ousadia de os contactar.
É uma triste conclusão, esta, mas a pura da verdade.
Eu consubstancio:
Tendo enviado há uns tempos um correio electrónico à empresa para alterar o pacote de serviços televisão, internet e telefone fixo, recebo ontem uma chamada telefónica para “confirmarem pessoalmente” o pedido feito.
A coisa até era simples que eu sou complicada mas é só comigo:
passar ao pacote clássico, cancelar o Cine Magic e manter a internet a 2MG (escusam de franzir o sobrolho que para aquilo que se usa lá por casa, chega e sobeja)
Simples, sem grande palavreado, sem ser necessária grande intervenção por parte do prestador de serviço.
Enganei-me. Redondamente.
Depois de uns bons dez minutos a ouvir o “funky .. funky” aos altos gritos, aparece-me em linha uma terceira voz que após um terceiro boa noite Senhora Dona .. dois nomes próprios e quatro apelidos .. (Obrigada Pai) ;) me diz:
Então a senhora pretende o telefone fixo, certo?
Não, errado. O que eu pretendo é passar ao Pacote Clássico, cancelar o Cine Magic e manter a internet a 2Mg.
Ah, bom, (pausa) então e pode explicar-me porquê? .. imaginei-o de pernas estendidas em cima da secretária e eu, pobre e miserável paciente, deitada no sofá. Comecei a perder muito ligeiramente a paciência, são 08:30 pm, calma .. calma e responde, diz-me o grilo irritante.
Redução de custos.
Ah então perante isto, diga-me quer cancelar a Disney Chanel certo? não percebi o que era o “isto” se a redução de custos, se a folha seguinte do formulário que tinha à frente para ir anotando os resultados da minha leviana investida.
Errado de novo. O Pacote Clássico engloba a Disney Chanel que quero manter, o que eu quero cancelar é o Cine Magic.
Então, diga-me que canais é que a senhora costuma ver por Cabo?
Muito poucos, quase me desculpo já sem perceber que “diabo” tinham aquelas perguntas a ver com o assunto.
Ah .. e diga-me gosta mais de canais de filmes ou de documentários?
Gosto de ambos, quando tenho tempo, mas oiça, interrompo à beira do desespero, consegue proceder à alteração que estou a solicitar, por favor?
Claro que sim abespinha-se. Aguarde em linha.
Mais dez minutos contados de relógio a ouvir a mesmíssima música, a ponto de imaginar uma coreografia completa.
A princesa à beira do riso, atarefa-se ao fogão, enquanto esta vossa desgraçada de telemóvel no ouvido franze os sobrolhos à vez. Mas estes fulanos … ? interrompe-me: Senhora Dona .. (cansativo isto), posso concluir então que a senhora não tem crianças em casa?
Desculpe?
Sim, perante o cancelamento da Cine Magic a senhora não tem crianças em casa, certo?

Quem está Zon .. está decididamente off ..
.. e os meninos da MEO a piscar-me o olho .. ;)

27 Jan 2009

Gosto muito, mesmo muito destes escritos por aqui :)

vidas (viii) continuação

Os pais da Inês já foram contactados pela Associação de Pais da EB 2,3 Bartolomeu Dias.
Uma palavra de apreço pela atitude preocupada com que a situação foi abordada.
Entretanto está marcada uma reunião com o Conselho Directivo da referida Escola para 5ª feira, 29 de Janeiro. Só depois de algum resultado prático e da certeza que a integridade física e moral da Inês não volta a ser colocada em causa, poderão ou não avançar para um pedido de transferência e uma queixa no Ministério Público.
A primeira coisa que nos passa pela cabeça nestas alturas é fazer barulho. Fazer muito barulho. A revolta e a impotência levam-nos a amaldiçoar tudo e todos. Contudo, ponderado o assunto em conjunto, chegou-se à conclusão que quanto menos publicidade melhor. A Inês mora no bairro dos seus agressores. Ela e a irmã mais nova. Com os Pais e com o Avô. As autoridades, por norma tão céleres em atitudes menores, não garantem a mais pequena segurança à Inês. Publicitar o assunto com entrevistas ou mesmo reportagens vai marcar a Inês para sempre. Conotá-la com um sensacionalismo pejorativo. Colá-la na pele da menina que teve problemas na escola anterior. Com a menina que apresentou queixa contra .. “os bro”
A tentativa que se está a fazer neste momento é no sentido de tudo esclarecer e pedir responsabilidades à escola Bartolomeu Dias, ao mesmo tempo que, por não se acreditar que quem deixou as coisas chegarem onde chegaram possa agora resolver o assunto de uma penada, tentar pedir a transferência da Inês para uma outra escola.
Assim fosse ligeiro o apagar da memória desta criança as situações que, com apenas dez anos de idade, foi obrigada a viver.

26 Jan 2009

Memories ..

from a past i’ve never lived passou, depressa demais para minha surpresa, confesso ;) a projecto de escrita, com um objectivo que, a correr bem, partilharei.

Daí que o Once, refilão e dominado por um egocentrismo que não sei de onde lhe vem .. alvitrou com ar de sonso e ingénuo que, gostando muito pouco de misturas, eu deveria e tal, bla, bla, bla .. até para bem da minha concentração e tal, porque .. bla bla bla ..

Incrivelmente tem razão .. a sério. E desta vez não me custou nada dar-lha.
Segue aqui a página no meu TaleBlog criado para o efeito * hope you enjoy!

23 Jan 2009

Destes Gosto Mesmo! BlogoPrize ;)


Agracia-me o Carlos Barbosa de Oliveira com um “destes gosto mesmo” no Delito de Opinião e pela expressão eu entendo “mesmo, mesmo” :) Prima a blogosfera pelas empatias criadas, pelas leituras partilhadas, pelos comentários ou simplesmente pelo silêncio .. assim se saiba escolher quem se lê da mesma forma que se percebe o quão genuínas são as letras.

Ao Carlos, um Muito Obrigada pela citação .. é bom, muito bom, sentir-me bem-vinda no vosso “blogobairro” (Patti, obrigada a si, a expressão é simplesmente deliciosa) .. e não quebrando a “rusga”, porque entendo que no receber está implícita a partilha do dar, aqui ficam os meus “Destes Gosto Mesmo” .. escolhidos de entre todos os que estão na minha barra lateral e dos quais gosto mesmo também ;) e primando pela “imparcialidade” que me conhecem .. (cof .. cof)

Miss Pearls, da M Isabel G
A Vida Deste Lado, da Nocas Verde
Bandeira ao Vento, do José Bandeira
Nocturno, da Luísa
1979, do Luís Filipe Cristóvão
Pau Para Toda a Obra, do João Severino
Drengo, do J.
Uma Espécie de Mim, da Paula Crespo
Oficio Diário, do Torquato da Luz
Outros Olhares, do LB (Luís consider it, como incentivo para abrires a tuas Notas)
Pensamentos, do Hélder Robalo
Delito de Opinião
Bic Laranja
Entre o Sol e as Brumas, da Sinédoque
Estado Sentido

Uma palavra para agradecer à Sofia Loureiro dos Santos que sei a autora desta simpática iniciativa :)
Desejo-Vos um Excelente Fim-de-Semana *

22 Jan 2009

two

Olhos fitos tão longe. Para lá da plateia, para lá da galeria, para lá dos balcões onde gentes se amontoam e batem palmas. É ensurdecedor o barulho para quem está onde estou. Exposta. Desprotegida. Again! Gritam-me aos pés enquanto tombam rosas vermelhas. Apanho-as todas abraçando-as, o sorriso é estudado, o olhar perdido também.
Mas o coração, esse bate forte neste peito. Ainda que ninguém oiça.

Retiro-me ao fim de muito tempo. Demasiado tempo. Enrolada numa manta quente, já descalça e sem maquilhagem, encolho-me na cadeira giratória que me fazia as delícias em criança. É a mesma. Olho-me no espelho enorme que me consome o brilho do olhar sem brilho. Cansado. Nuvens de fumo formando figuras que tento interpretar sobem no ar espesso e carregado. Vêm da chávena de chá preto, doce e fumegante com que queimo as mãos e os lábios tentando esquecer-me da dor que me queima as costas.

This was the last one ..murmuro ao sentir alguém atrás de mim .. the last one .. please.

memories? .. maybe.

18:26 marca o orgulhoso mostrador da mini central telefónica, topo de gama, que me ocupa espaço a mais na secretária.
Voa-me a mente para a mesma hora, há uns anos atrás, tantos, enquanto nervosa abotoava as luvas de pelica negras e altas que me chegavam ao cotovelo.
“4 minutes to go”, grita-me uma voz off da qual não me recordo o rosto. Aliso a saia rodada, inconscientemente levo os dedos ao cabelo na altura liso, negro e pesado, escorrido pelas costas. Everything gonna be alright sussurra-me a voz do meu anjo da guarda.
Aproximo-me das janelas altas que ladeiam o jardim cuidado e vejo ainda de relance alguns carros parados à porta, alguém que entra na pressa de saber-se atrasado.
One minute to go Miss C .. it’s your time now.

It’s my time. But was it ever really mine?

21 Jan 2009

vidas (viii)

A Inês é uma menina branca numa turma de meninos negros.
Faço este tipo de introdução ao texto que escrevi e para a publicação do qual pedi autorização aos Pais da Inês, não por qualquer tipo de racismo, não tenho estigmas de raças, só de pessoas, e antes que se ergam as vozes das "consciências de serviço", mas porque é esta a realidade que vive a Inês.
A Inês tem 10 anos acabados de fazer. Terminou com sucesso a primária na escola do bairro onde vive, e ingressou em Setembro de 2008 na escola preparatória Bartolomeu Dias. Como todos os meninos de dez anos, acabados de entrar no liceu dos crescidos a Inês queria fazer novos amigos, integrar-se, aprender, brincar, jogar e correr .. como a minha filha .. como todas as crianças que conheço.

No primeiro dia de aulas a Inês levou uma sova. Não percebe até hoje o porquê daquela recepção. Ao longo do primeiro período foram mais os dias que teve de fugir à frente de alguém do que aqueles em que a deixaram brincar, com as duas amigas que havia já feito. Amigas que entretanto a abandonaram por sofrerem pressões, dizem os professores, estalos e pontapés afirma a Inês, por serem amigas dela.
O Avô da Inês vai muitas vezes buscá-la ao portão da escola. Em dias que a neta lhe liga a chorar por ter levado mais que a conta .. invariavelmente são apedrejados no caminho de volta .. até saírem do raio de visão das outras crianças. Dos colegas da Inês. Crianças? .. tenho algumas dúvidas mas a sua estatura assim o confirma. Crianças.
A Inês é uma menina branca numa turma de meninos negros. E os professores não sabem lidar com isso. Quando por acaso apresentou queixa à professora de EVT a Inês ouviu “vai para o raio que ta parta”. Não sabe esta docente lidar com o factor destabilizador. Pelos vistos naquela escola é a Inês esse factor. Mais valia Senhora Docente que se dedicasse em exclusivo .. às greves.
A Inês ultimamente apanha no recreio, no refeitório e até na sala de aula. Sim, na sala de aula. Porquê? Porque é diferente.
Às inúmeras queixas dos Pais da Inês, o Conselho Executivo responde com cinco dias de suspensão aos alunos identificados. Cinco dias de descanso, talvez mais um pouco, porque a vingança serve-se fria por ali.
Na última semana ficou em casa.
Tem um olho negro e muitas nódoas no coração. E um buraco no "acreditar" dos seus dez anos de idade.
Foi a última vez que lhe bateram.
Os Pais da Inês procuram desesperadamente uma outra escola para a filha. Ainda à espera de respostas tentam sem sucesso contactar o Conselho Directivo da Escola, que se mantém inexplicavelmente .. mudo. Sem sucesso depois de todas as queixas apresentadas, de todas as comunicações escritas, de todas as participações na polícia local.
Numa das vezes ouviram do responsável pela esquadra um “é normal, são miúdos”.

Não Senhor Agente, digo-lhe eu. Não é normal. Nem tão pouco são simplesmente miúdos.

(reportagem a passar na TVI na próxima semana.
Quando tiver data certa, informarei)

Congratulations Mr. President (ii)


"A happy number is defined by the following process.
Starting with any positive integer replace the number by the sum of the squares of its digits, and repeat the process until the number equals 1. "


44 is definitely a happy number :)


“May your days be many and your troubles be few”


20 Jan 2009

interpretações (i)

A Imagem é da Luísa, obviamente :) eu pedindo emprestada ..

Estão as rosas vermelhas abraçadas ao sinal do passeio. Passam as gentes sem ver, sem cheirar. Murcham as rosas por lá até a Dª Rosa, de rosto cansando e encarquilhado, olhos sem brilho de tanto chorar, voltar à maldita passadeira que lhe ceifou a vida da neta. Aguarda com o olhar subido o cair do sinal para verde. O verde que lhe levou a neta. Por isso a escolha de rosas vermelhas. Sinal de paixão, pensaram alguns que podem até sorrir na passagem. Sinal de sangue. Sangue derramado pela falta de cuidado com que os homens fazem o que fazem.
Sem pensar.
Sem esperar consequências.
Como naquele dia em que o sinal verde peão deveria ter dito à menina para não atravessar a passadeira. Chora a Rosa uma lágrima grossa que lhe escorre nas rugas que de repente se aprofundam.
Lágrima de vida perdida. Lágrima vermelha de sangue. Como a rosa.

public service (viii)

O Tim dos livro(s)em critério, um espaço que me encantou e ao qual recorro com frequência pela simplicidade e autenticidade com que se apresenta, colabora agora aqui, num outro registo, igualmente rico e interessante, de experiência feito.
Parabéns !

Porque quem escreve como ele escreve, deve (tem de) ser lido :)

“ (…) A magia dos livros de António Lobo Antunes .. (…) Cada vocábulo tem o mesmo valor lido individualmente ou numa frase, cada palavra é burilada até à exaustão, um trabalho quase silencioso que não escapa aos olhos de ninguém. Percebe-se que onde está aquele verbo não poderia estar outro, onde está aquele substantivo não há lugar para mais nenhum. Talvez por isso as palavras e as expressões se repitam ad eternum, estão perfeitas, não há necessidade de procurar outras. Dizem uns. Outros dizem que Lobo Antunes escreve o mesmo livro há trinta anos. Indiferente a O Arquipélago da Insónia é que ninguém fica."

19 Jan 2009

world? that's a huge word

Na Etiópia lutava-se por 120 kal distribuídas à razão diária por pessoa. Uma banana tem 300. Conseguimos imaginar o que são 120? .. em Nova Iorque num jantar de beneficência a usd 145 pax vislumbra-se a fome naquele país em slides brilhantes feitos a preceito, e promete-se ajudar enquanto tilintam os copos em votos de saúde. Saúde?
Na Etiópia morria-se de sarampo, de disenteria, da falta de água potável. Dois copos por pessoa, por dia. Não mata a sede. Não lava o corpo.
O menu era apetitoso, grossas fatias de carne coberta de um molho viscoso e escuro, arroz branco e solto, verduras a acompanhar. As gentes conversavam entre discursos do presidente da ONG, do filho do presidente da ONG, dos que gostariam de ter assento na ONG. As senhoras cintilam nos seus vestidos compridos assinados pelos melhores costureiros, os homens gabam-se do preço dos charutos importados.
A cerimónia é interrompida. Entra uma figura possante, olhos verdes a dardejar à esquerda e à direita, com uma criança pequena, visivelmente sub nutrida, pela mão. Vem reclamar da falta de apoios, da falta de dinheiro. Da falta de comida e da falta de água. Do abandono. Da miséria. Da doença e da tão fácil e possível cura.
O que se gasta naquele jantar para 250 pessoas daria para alimentar e tratar os 30 mil refugiados sob sua protecção, durante quatro dias. Quatro dias .. a fronteira entre a morte e a continuação de alguma esperança de vida. Nunca o universo humano pareceu tão insignificante. O dinheiro angariado por estas gentes de bem daria para infinitamente mais. Onde está ele?
Olho a minha filha sentada muito direita no sofá. As lágrimas grossas todas presas à beira dos olhos, como se as proibisse de cair. Olho de novo o ecrã. A criança faz uma momice à macaco para agradecer a banana que alguém da audiência lhe atirou provocando uma gargalhada geral.
A minha filha cerra os punhos no sofá. As lágrimas secaram para dar lugar a um olhar furioso. A faiscar.
Oiço a voz do actor: a banana? Is more than he has a day. He will do anything you want him to.

Choro eu.
etiópia, cambodja, chechénia, darfur, gana .. interessam os nomes dos países quando o que têm em comum é a falta de solidariedade de que padecem? ..

16 Jan 2009

verita

Aprecio na generalidade as pessoas que dizem o que pensam.
Mais do que aprecio as que escrevem o que pensam, porque na escrita, como bem sabemos, as palavras perdem o impacto de uma expressão, de uma espontaneidade. São por vezes trabalhadas, alteradas para criar o tchanam que se pretende .. Aceitando ou não, concordando ou não, pautando ou não a minha mudança de opinião sobre determinado assunto, pelo que oiço, a verdade é que aprecio quem diz o que pensa. Sem apelo nem agravo. Sem falsa mesura ou politiquices correctas à mistura, às vezes não tão óbvias ou perceptíveis.
Principalmente e acima de tudo se o que oiço é a verdade.
Aquela que por vezes se quer manter oculta, não revelar, relevar como se inexistente fosse.
quem diz a verdade, não merece castigo” opina o povo sempre sábio em ditados feitos por encomenda. E a verdade, essa incorrigível metáfora, não se coaduna com cargos exercidos, posições assumidas, pastas e tratados a defender. Nem tão pouco deve ser julgada pelas consequências que a sua divulgação pode provovar. Mentiras piedosas? nem a isso gosto de me permitir.
A verdade é pura e cristalina, óbvia e inquestionável.
Como este texto que li, da autoria da Luísa, depois de ter escrito o meu.
Quase me apetece plagiá-lA e deitar este para o lixo ;)

Um excelente fim de semana a todos .. “nós por cá” (e eu não gosto particularmente do televisivo ;) vamos passear à beira-mar :)

15 Jan 2009

"The world's continual breathing is what we hear and call silence."

The Passion According to G.H.
Clarice Lispector
eu espero sinceramente que a seguir a este projecto venham mais ;)

intimism (xxvi)


Na disciplina de área de projecto constrói-se uma NoVa Roda de alimentos, gigante. Com todos os sectores, nutrientes, consequências da sua falta e do seu excesso.

Em Formação Cívica apresenta-se um teatro sobre o bullying, e pesquisa-se sobre o mundo das actividades e profissões (o mundo? Are you sure? Positive mummy, .. suspiro). Em Português elegeu-se como patrono Alice Vieira. Livros para ler, fichas de leitura a completar e uma biografia exaustiva lá para o final do ano, para partilhar com a escritora. A par dos que lê em casa que anda encantada com as Gémeas .. sim as do meu tempo, no Colégio de Stª Clara :)

Os testes começaram, História e Geografia hoje mesmo (eu espero, espero sinceramente que ela não se ponha a extrapolar .. ), Matemática e Inglês, Música e Ciências, já na calha e ainda faltam algumas.
Os treinos de de rítmica passaram a 3x por semana (estou prestes a ser convidada para .. shhhht! Nem quero saber!).

As aulas acabam diariamente às 16h10, segue-se para o atl – sala de estudo e actividades, actividades? E tempo para elas?
Para quem sai de casa às 07h40 todas as manhãs regressando às 19h, salvo em dias de ginástica que lhe consome mais duas horas, parece aos olhos de qualquer pessoa sensata, trabalho suficiente, certo? .. estou à espera de vos ouvir concordar, se não se importam … !


Errado!
O concurso Eu e o Meu Monumento exige um trabalho meticuloso, exaustivo de pesquisa, fotografia, maqueta e desenho. É uma forma de dares a conhecer às escolas do teu concelho o Monumento que elegeste. Não te esqueças das razões porque o eleges e elabora as tuas apresentações como se mais ninguém o conhecesse. O mais claro e completo possível.

Mummy vou representar o 6º ano da escola e já escolhi o monumento, diz-me saltitante e sorridente enquanto me sinto tomada de pânico ao ler as entrelinhas do regulamento. Ok .. dá-me uma boa noticia e diz-me que escolheste a Torre de Belém.
Nops
.. atira-me a piscar o olho. Escolhi o castelo de Monsanto mummy, a terra do avô, afinal é também parte de mim não é? Dengosa e melosa a conquistar-me pelo amor àquela parte das nossas raízes? .. mas a quem sai o monstrinho afinal?

14 Jan 2009

twice a prize

Encantam-me os critérios da Teresa Ribeiro para mais uma atribuição a este Diário na primeira pessoa :)

Bem-Haja Teresa *

Prize .. a Golden Prize


Mais uma surpresa. Mais um afago que me é tão grato receber de quem considero com Amizade.
De novo esta Menina de Letras desta vez a premiar este meu espaço como se de ouro fosse :) Sorrio e penso que de ouro é a Amizade que leva a estas manifestações.
E a vida.
Esse percurso fora das linhas, nestas linhas, onde me empenho em ser feliz.
:) Obrigada Júlia, por mais este carinho.
As nomeações?
Todas as que permanecem na minha cábula ali ao lado .. ;)

13 Jan 2009

história .. Gaza .. Gaze em Faixa, Curativo!

Ou: quem foi que a ensinou a pensar assim que não me lembro de ter sido eu.
Ou ainda: de como a lógica infantil se perde no adulto sem que nada de tão lógico se adquira, entretanto .. ;)

A princesa acompanha-me nas notícias. Lembro-me de há uns tempos evitar vê-las na sua companhia até começar a ser questionada sobre acontecimentos que não presenciava comigo. De que ouvia falar na escola, aos colegas ou professores. Inverti a marcha e passei a assistir ao telejornal com ela. Não que a atenção lhe seja concentrada no écran onde os pivots se esforçam por no-la captar, mas vai ouvindo, fazendo perguntas, pedindo explicações.
Nos últimos dias o conflito em Gaza consome-lhe a preocupação. Temos um grande amigo que lá esteve destacado, pergunta invariavelmente se ainda lá está, na certeza da minha resposta: já não, felizmente. (pois não?) ;)
Ouve atentamente as explicações do jornalista, acompanha o percurso da Márcia sem deixar de referir que ela corre perigo de vida. Há dias, após mais uma reportagem sobre o assunto, diz-me de repente “já sei porque não se entendem, mummy.” .. Hum, penso, será? Explique lá Miss Diplomatic atiro-lhe enquanto me entretenho a dobrar a roupa.
Sabes o que estou a dar em História Mãe? pergunta levando-me a temer que tenho pela frente uma ida ao Porto para chegar ao Algarve, isto partindo de Lisboa, claro.
D. João VI? arrisco, convencida de ter lido qualquer coisa num sumário no outro dia. Sim, mas não é sobre ele .., continua. Estou a dar as Cortes Constituintes Mãe, e a 1ª Constituição Portuguesa feita a partir dos ideais liberais. Sorrio. Lembro-me perfeitamente dessa parte da nossa história. A influência da Revolução Francesa, os grandes princípios da monarquia constitucional. Olho-a .. sim, e? .. Mãe, os princípios eram: Soberania da Nação, Igualdade, Liberdade, Fraternidade e Separação de Poderes. E o Rei assinou concordando!
.. Tens de rever aí qualquer coisa parece-me. Estás a misturar os princípios do liberalismo com os artigos da 1ª constituição, mas no geral é isso mesmo. E agora como explicas que .. ?
.. Israel e a Palestina já existiam em 1822 não já Mãe?

Alguém lhe tire o livro de história da mão s.f.f.. e depressa ou a desilusão será ainda maior quando se aperceber que não temos emenda. Raios!

12 Jan 2009

vidas (vii)


Disseram-lhe para seguir. Sempre em frente. Sem nunca largar a pequena trouxa que tem tudo o que de precioso tem no mundo. A mãe despediu-se com um abraço, sente o sabor da lágrima salgada que lhe caiu dos olhos e lhe molhou a cara. Não percebeu porque tinha de partir. De seguir. Sempre em frente. Há outros como ela. Pequenos como ela. Os maiores nem lhes vê a cara, mas a mãe também lhe disse, não olhes para ninguém. Sempre em frente. Pesa a trouxa na cabeça e a boca ressente-se da falta de água. Ajeita a tábua, pesada para a sua pouca idade e segue. Sempre em frente. Em frente.
Ninguém .. nem ela sabe .. para onde.

(fotografia de José Price Castiço – Marrocos)

nonsense? maybe not ..

"children need examples .. more than critics"

O restaurante estava vazio e enquanto esperávamos pela picanha como só o Pedro sabe fazer, a princesa explicava-me a peça de Natal. Intercalava com notícias da escola, do ATL, as amigas e os amigos, os testes finalmente acabados, as notas de final de período, e todo um detalhe do que lhe enche a vida .. cheia. A minha atenção, shame on me, já aqui me retratei, mas a minha atenção vai da audição ao tacto, cheiro e visão e portanto, se os sentidos são cinco .. não há equilíbrio, já o disse David Mourão Ferreira, que isto não seja novidade para ninguém.
Entra um casal com duas crianças pequenas e no restaurante que estava vazio, pedem licença para se sentar na mesa ao nosso lado, usando inclusive uma das cadeiras que nos “pertencia”. A princesa cala-se de imediato, olha-me interrogativa, e avança “como na praia mummy” baixinho, num sussurro, fazendo-me sorrir. A criança mais pequena tem uns cinco anos talvez, e a outra a idade da minha. Acho. Trocam-se olhares, piscadela de olho e sorriso, aparece o Pedro tentando separar mesas e perguntando ao “chefe” da família se por acaso não prefere aquela mesa junto à janela, mais confortável.
A resposta sai torta e mal-educada, a criança mais nova deita a língua de fora à princesa que lhe vira a cara, enquanto a outra escarafuncha o papo-seco para lhe retirar o miolo. A mulher pequena, sumida, muito morena, cabelo preso em rabo-de-cavalo e casaco de cor indefinida, torna-se ainda mais pequena, tentando esconder-se debaixo da cadeira. A princesa cora de raiva, eu pego numa faca com um pouco de manteiga e barro um pedaço de pão. A criança mais velha acabou de fazer bolinhas minúsculas com o miolo retirado, molha-as na boca e faz pontaria ao televisor pendurado numa esquina da parede. O pai ri-se alarvemente, de boca aberta, de cada vez que a sua princesa consegue acertar no écran. A mais pequena continua incansável a deitar a língua de fora, agora à mãe, enquanto por detrás do balcão o Pedro me faz um sinal de pedido de desculpa. Abano levemente a cabeça, nada a desculpar.
Chega a picanha, na travessa, cheia de rodelas de limão, a carne ainda estornica carregada de sal, como gostamos, média bem passada que os laivos de sangue não são digeríveis, uma outra travessa mais pequena de tomate e queijo mozzarela, sal e pimenta, e uma pequena malga de feijão preto cozido com chouriço como a pequena gosta.
Sou completamente tradicionalista nos sítios que frequento. Tratem-me bem e jamais procurarei outros :)
A mesa do lado é servida quase ao mesmo tempo. O Pedro traz os pratos de barro com os bitoques pedidos, carne com um excelente aspecto, batata frita, arroz e ovo. A criança mais pequena começa aos gritos que quer um prato igual ao da minha filha. Esta, nem olha para ela provocando-me o riso. A mais velha pergunta se pode comer aquele pão branco que nós temos em cima do tomate, e eu começo finalmente a perceber o que sentem as espécies em vias de extinção.
O Pedro tenta segurar a mais velha que salta entretanto por cima do pai para aterrar, literalmente, ao pé de nós ficando a ver-nos comer. A mãe grita para ela se sentar à mesa, no seu lugar e comer sossegada “como essa menina estás a ver como ela se porta” discurso que ainda funciona com um dos meus sobrinhos, o de dois anos. A princesa ergue os olhos do prato, endireita as costas, e pergunta à garota: és servida? Ao que a outra lhe responde “hum”.
Agora o Pai grita com a mãe para que não grite com a filha que não é assim que a educa. Estou, contra todas as vozinhas interiores que me mandam estar calada, e para meu grande espanto, prestes a concordar quando me começam a cair no prato as bolinhas de miolo de pão que haviam ficado presas no écran da televisão. Foi um sinal. Afasto o meu prato ainda por servir e peço outro ao Pedro que consternado e de semblante pesaroso me murmura um “desculpe, desculpe” como se culpa tivesse no cartório pela porta aberta ao público.
A garota mais nova, cansada de reclamar sem sucesso devora o bitoque da irmã, depois de ter esquartejado o dela .. penso intimamente que gostava que a minha comesse assim pelo menos uma vez por semana. Esta atitude da comilona provoca a ira da irmã mais velha que entretanto havia regressado à mesa, não sem antes ter tirado outro papo-seco do nosso cesto de pão. Estive quase, quase a desafiá-la para a construção de algo menos peganhento desta vez. A mãe prescinde do seu bife para lhe dar, ao que a pequena responde que não quer. Com o punho a bater na mesa, acompanhando as palavras, “Quer’um só p’ra mim”! .. quatro murros na mesa. O pai grita-lhe agora furioso, contra os pergaminhos que ainda há pouco defendia, que se não quer o da mãe, não almoça! E assobia ao Pedro para lhe trazer outra imperial “gelada..!” enquanto assenta uma palmada no tampo da mesa fazendo entornar um dos copos de coca-cola das filhas e provocando nova gritaria.

Começo a imaginar uma encenação com a cena que presencio.
Realização, takes, acção!
Risos e gargalhadas pelo ridículo da situação.
Toca a colar de novo as bolinhas de pão no écran que a cena tem de ser repetida.
Era bom que não passasse disso mesmo. Mas passa. E passa-se.

9 Jan 2009

"under certain circumstances there are few hours in life more agreable than the hour dedicated to the cerimony known as afternoon tea."
There is really too much to say
Henry James in Portrait of a Lady


Indeed, Sire.

intimism (xxv)

A princesa, no sofá, lê. Pernas dobradas, papéis no colo, lê atentamente meia dúzia de folhas A4 impressas em algo do tipo TNR 10. Letra pequena e condensada, texto extenso que lhe capta a atenção. Os sobrolhos erguem-se à vez, fazendo-me sorrir, aplica-se. Tem de completar um guião, baseado num conto de Selma Lagerlof. Conto-lhe um pouco sobre a vida desta escritora – a primeira a receber o prémio Nobel da Literatura em 1909. Falamos de prémios, de como se premeia .. e porquê. Pergunta-me pelos critérios .. (!) Generalizamos tanto a conversa que de repente interrompo, levantando-me e dizendo-lhe: trabalha, anda .. ! ao que se ri.
Concentra-se. Gosta imenso de ler a minha mais que tudo. Gosto herdado ou vinculado, sem dúvida. E gosta de ler como eu. Várias coisas ao mesmo tempo, manifestando uma capacidade de memória fantástica, lembrando-se dos detalhes de cada história, de cada livro. O conto de Selma é profundamente religioso com uma lição de moral forte e impressionante. A morte provoca-lhe a lágrima ao canto do olho que não tenta disfarçar. O alívio ao chegar ao fim e ver que afinal, tudo acabou bem .. ou melhor do que se poderia esperar ao longo da narrativa, volta a fazê-la sorrir. O irmão leigo por oposição ao abade profundamente imbuído do espírito da salvação, o salteador e a sua mulher que a fizeram desconfiar das verdadeiras intenções, e vai preenchendo as lacunas propostas pela professora de português. De repente estaca numa das frases. Mummy? .. "o abade e o irmão leigo têm diferentes interpretações para o que vêm. Explica” .. leio e olho-a .. “so?” pergunto .. percebeste onde ou como pelo que leste?
Percebi mãe mas tenho de explicar o conto inteiro para me justificar.
Resume .. tenta! Digo-lhe, como se o acto fosse tão fácil quanto o articulato ;)
.. Desde o inicio da empreitada que têm os dois visões muito diferentes sobre os acontecimentos que vão vivendo na procura da rosa de natal. Rosa que serviria de moeda de troca para que o Arcebispo perdoasse o salteador e a familia deste fosse aceite na Aldeia a tempo de festejar a Quadra - explica-me
E porquê? Reforço.
Porque, mãe, o Abade acredita em tudo e o irmão leigo não acredita em rigorosamente nada. Nem nele próprio.

Está a aprender a resumir a minha filha.
E a resumir com conteúdo. Isto volta a repor-me a confiança nas gerações vindouras ;) .. nem tudo se herda, felizmente.
;) tenham um aconchegado fim-de-semana *

8 Jan 2009

quanto a Vós não sei ..

mas a mim, não me apetece nada sair do espírito este ano ..

Vésperas de Natal. Dia 24 de Dezembro de um ano qualquer. Acordou mais cedo que o costume, arranjou-se mais rapidamente que o usual. O coração batia descompassadamente e tinha no rosto aquele sorriso meio tolo, meio feliz. Num saco preparou a roupa a levar. Dois dias. Pouca coisa. Deixou no aquário do peixinho encarnado a pedra de comida que duraria na ausência e atestou o comedor do periquito azul que o brindou com trinados à entrada na cozinha. Um pão na caixa de pão, e sorriu de novo ao lembrar o ensinamento da avó .. uma peça de roupa estendida e um pão na caixa de pão durante as ausências. Nunca percebeu porquê.
Olhou em volta antes de fechar a porta da rua e fazer-se à estrada.
Bom Natal, murmurou como se deixasse alguém para trás. Feliz Natal.
A viagem era longa, mas este ano era a sua vez e nem pensar em chegar depois. Sem grandes excessos de velocidade percorreu os largos quilómetros que separavam a sua morada actual das suas raízes.
Antecipava o momento de abrir a porta da casa de pedra que pertencera aos avós, religiosamente mantida pelos Pais, por ele e pela irmã.
O momento.
Na gasolineira, a menina atrás do balcão sorriu à encomenda, dois pastéis de nata embrulhados e um café bebido de um trago. Vai à terra? perguntou-lhe .. vou à terra, sorriu na resposta. Terra. Não via a hora de chegar.

Ao percorrer a quelha de acesso à porta principal quase conseguia ouvir os gritos da rapaziada a chamá-lo, de madrugada, para o tiro aos pardais. Pressões de ar afinadas, chumbinhos minúsculos numa paródia hoje politicamente incorrecta mas na altura. Ai nessa altura .. ! Franqueou a entrada da casa, já quase noite cerrada mas ainda cedo no ponteiro de relógio. Sabia-os a chegar dentro de uma hora, no máximo. Era o tempo que tinha para tudo preparar. Para os surpreender.
Primeiro a lareira, toros inclinados encostados à parede, pilha aberta para respirarem dissera-lhe o avô em tempos idos, ensinamento precioso para que o fogo pegue à primeira na pinha seca que o ateia. Arredou a mesa para o meio da sala, acendeu todas as luzes da casa e subiu ao primeiro andar para verificar o aquecimento nos quartos.
Por a mesa .. sorria. Por a mesa de Natal. Para o Natal.
E ouvia em murmúrios a voz da avó na ladainha cantada enquanto esticava nos joelhos a massa das filhoses, à moda da beira, e os sonhos crepitavam a secar no papel pardo grosso e ligeiramente acastanhado. E o avô batia os pés com força à entrada da porta da rua, como que a deixar os muitos graus negativos na ombreira da porta, impedindo-os de entrar.

Inspirou fundo e cheirou-lhe a inverno.
A inverno e a memória, essa coisa doce e por vezes traiçoeira que se apega no coração e na alma e nos faz sentir .. acompanhados.

thank you Julia *


Porque foi com surpresa que me senti hoje privilegiada, Obrigada Júlia.

7 Jan 2009

public service (vii)

Actualizando-me, após umas mini-férias (sim, sim, mini mesmo não inventem .. ) muito saborosas e compensadoras ;)


Por aqui celebrou-se o Natal a preceito.
Quase consigo cheirar o madeiro a arder que na “minha aldeia” fazia, em tempos idos, estoirar os vidros das janelas nas casas mais próximas :)
Entregue o trabalho a que se propôs a Patricia Lino na sua fantástica, bem elaborada e completa abordagem a Clarice Lispector.
Parabéns Patrícia, e felicidades para tudo a que se dedique com este empenho e qualidade.
Nasceu um novo espaço de qualidade na blogosfera portuguesa. Escreve-se muito bem por aqui
Achei graça a esta lista de resoluções ;) tivesse eu a capacidade de resumo do seu autor e enveredaria por algo semelhante! Boa sorte L. Rodrigues.
Este vai “virar máxima” quase posso garantir. Haja quem dê importância aos meus “live your own life, if you please”.. Obrigada Luís Filipe, vem a calhar este texto.
Além de familiar orgulhosa, sou fã da conjugação de imagem / música, bom gosto e bom senso que por aqui se pratica. Keep it!
Ainda um conto de Natal? E porque não? Gostei tanto que não resisto .. Parabéns, de novo, Paula

intimism (xxiv)

Sempre que o momento era de crise a Avó metia as mãos na massa. Rigorosamente escrevendo. Arregaçava as mangas, vestia a bata da cozinha, atestava o forno a lenha de toros que ardiam furiosamente espalhando um cheiro de inverno pela casa, e dedicava-se exaustivamente à culinária. Das suas mãos elegantes de dedos compridos, saíam desde o pão tostado, à manteiga leitosa, o cabrito assado, a massa folhada, a sobremesa mais elaborada. Sempre que assistia a esta azáfama desconfiava que algo se passava. E bem. Ou era o filho que não dava notícias de Israel, numa altura em que não dar notícias de Israel não se revestia da perigosidade dos dias que correm mas ainda assim, ou o lar da filha que atravessava mais uma querela, e entre marido e mulher .. aquela amiga que havia ficado ofendida pela declinação do convite para mais uma noite de Ópera, ou uma birra do embaixador que assistia aos anos, mas ainda a conseguia surpreender nos caprichos diários.
Ela acabava invariavelmente por saber o que levava a avó à sua Blessed Kitchen com um assomo de vontade como se de repente houvesse sido incumbida de cozinhar para o resto da população mundial.

Convivi por estas ou outras razões entre tachos e panelas, tratando os temperos por tu, espetando garfos no ponto, medindo a olho, deitando a gosto. Anos mais tarde, comecei orgulhosamente a minha actividade profissional para pagar a faculdade, num pronto a comer, casa pequena, arejada e de bom gosto onde as pessoas iam comprar ao jantar, servido em pequenas caixas transparentes, a fumegar. Aprendi outros tantos segredos, pendurada na bata da Beatriz que cheirava constantemente a coentro e sal.
Na família da Beira a cozinha é igualmente um local sagrado. Uma outra Beatriz, outro fogão a lenha, uma mesa comprida e os tachos brilhantes, frigideiras e testos orgulhosamente pendurados nas paredes em filas ordenadas. Salgava-se à mão cheia, o termo q.b. substituía todos os ml e os dl de receitas que eram passadas de boca em boca, mães para filhas e para noras, sem anotações à margem de como fazer. Avental à cintura e cara suja de farinha, risotas e “prova aí” em colheres de pau puídas de tanto uso.

Recordo. E mesmo não tendo hoje o tempo para me dedicar, ou as gentes para alimentar, de outros tempos, recordo com saudade as alturas em que o “vais tu para a cozinha?” me fazia encolher os ombros num “e tenho outro remédio?” .. frase igualinha àquela que a princesa ontem me lançou enquanto estendia a massa para a tarte. Convenientemente terminada com “sabes mummy, eu vi no supermercado umas caixas com esta massa já feita .. just in case

6 Jan 2009

Biblical Magi or Three Wise Men

" (...) A melhor descrição dos reis magos foi feita por São Beda, o Venerável (673-735), que no seu tratado “Excerpta et Colletanea” assim relata:
“Melchior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar, era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio, e Baltazar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz.
Quanto a seus nomes, Gaspar significa Aquele que vai inspeccionar, Melchior quer dizer Meu Rei é Luz, e Baltazar traduz-se por Deus manifesta o Rei. Como se pretendia dizer representavam os reis de todo o mundo, as três raças humanas existentes, em idades diferentes.
Assim, Melchior entregou-Lhe ouro em reconhecimento da realeza, Gaspar, incenso em reconhecimento da divindade e Baltazar, mirra em reconhecimento da humanidade." (...)"

O destaque nas palavras é de minha autoria.
Talvez para me lembrar que a equação é simples.
Respeito, Fé e Humanidade.
Não será difícil reconhecer os ingredientes, concordo, mas olhando o Mundo lá fora e cá dentro, como se obterá a receita?

Feliz Dia de Reis*

how confusing can this be?

As convenções não evitam as guerras – nem nunca o pretenderam fazer – mas protegem espectadores inocentes, defendem soldados de agressões desnecessárias, limitam os danos físicos causados pela guerra e até aumentam a hipótese de acordos de paz e de tréguas.
O principal objectivo das convenções é impedir o sofrimento na guerra.
Steven R. Ratner – Professor de Direito na Universidade do Michigan

Claro que a pergunta seguinte que se impõe é: e quem aplica na prática o que fica escrito em documentos importantes, com nomes sonantes, selados, assinados e lacrados fechados a sete chaves em cofres mandados fazer de propósito para?

Claro que o espírito de uma Convenção baseia-se em princípios de liberdade e respeito, direitos e deveres internacionais, partindo de um credo que uma vez convencionado será cumprido. Errado. Basta atentar no recrutamento infantil para engrossar exércitos (prática terminantemente proibida pela Convenção de Genebra) .

Claro que a minha utopia, sobejamente conhecida, leva-me a achar que tudo seria tão mais simples se palavras como Vida, Respeito, Humanidade, Solidariedade não houvessem sido destituídas de sentido e despejadas de conteúdo.

Claro.

5 Jan 2009

intimism (xxiii)

E o balanço perguntam-me .. aquele à laia de texto conclusivo que já fizeste? We’re waiting ..! ;)

Pois é meus Amigos, a menina dos textos cansativos deixou-se este ano de balanços públicos. Fizemo-lo, ontem, no recanto do lar, enroladas na manta do sofá, cada vez mais confortável, uma vela acesa que espalha na sala acolhedora um cheiro a tangerina acabada de colher. Falámos, mãe e filha, do que foi o ano, dos acontecimentos que nos fizeram rir, gargalhar e aqueles que por obra de mão alheia tiveram o condão de nos humedecer os olhos. Falámos essencialmente do futuro, deixando o passado no passado já que nada há nele que queiramos alterar. Falámos de um futuro para o qual temos planos, grandes e pequenos, objectivos a cumprir, metas a alcançar. Falámos sobre a família e o importante que é .. sermos tantos. E gostarmos de o ser. Conversámos as duas até de madrugada, ela de olhos vivos, entendedores, eu a pasmar-me com as conclusões, as mudanças, o querer fazer. Está a crescer a minha princesa, rainha do reino no amor de sua Mãe. A crescer bem, amadurece com calma, sem precipitações, sem querer ser mais do que já é, aceitando o tanto que se tornou.
E a mãe, babada até à geração ultranterior, cresce com ela. Num misto de orgulho partilhado com os mais chegados, sentimento de trabalho feito, com tanto ainda por descobrir nos olhos de quem descobre pela primeira vez. Fizemos os nossos votos de saúde e trabalho eu .. de uma enormidade de coisas boas, ela .. sem as especificar, piscando-me o olho, fazendo-me desconfiar que sabe já o que por aí vem ainda que eu me esforce por adivinhá-lo. Votos de saúde, trabalho e paz. Nada, no cenário mundial actual, me parece mais importante que isso. E uma janela aberta para a surpresa .. ou será para a capacidade de me deixar surpreender? .. também.
Live all you can—it's a mistake not to. It doesn't so much matter what you do in particular, so long as you have your life. If you haven't had that, what have you had?

(Henry James 1843 / 1916)

Conquistada que estou pela biografia escrita por Colm Tóibín, que recomendo vivamente, espelha a frase escolhida os meus votos para este ano. Have your own life. Nothing is as important as that ;)