7 Jan 2009

intimism (xxiv)

Sempre que o momento era de crise a Avó metia as mãos na massa. Rigorosamente escrevendo. Arregaçava as mangas, vestia a bata da cozinha, atestava o forno a lenha de toros que ardiam furiosamente espalhando um cheiro de inverno pela casa, e dedicava-se exaustivamente à culinária. Das suas mãos elegantes de dedos compridos, saíam desde o pão tostado, à manteiga leitosa, o cabrito assado, a massa folhada, a sobremesa mais elaborada. Sempre que assistia a esta azáfama desconfiava que algo se passava. E bem. Ou era o filho que não dava notícias de Israel, numa altura em que não dar notícias de Israel não se revestia da perigosidade dos dias que correm mas ainda assim, ou o lar da filha que atravessava mais uma querela, e entre marido e mulher .. aquela amiga que havia ficado ofendida pela declinação do convite para mais uma noite de Ópera, ou uma birra do embaixador que assistia aos anos, mas ainda a conseguia surpreender nos caprichos diários.
Ela acabava invariavelmente por saber o que levava a avó à sua Blessed Kitchen com um assomo de vontade como se de repente houvesse sido incumbida de cozinhar para o resto da população mundial.

Convivi por estas ou outras razões entre tachos e panelas, tratando os temperos por tu, espetando garfos no ponto, medindo a olho, deitando a gosto. Anos mais tarde, comecei orgulhosamente a minha actividade profissional para pagar a faculdade, num pronto a comer, casa pequena, arejada e de bom gosto onde as pessoas iam comprar ao jantar, servido em pequenas caixas transparentes, a fumegar. Aprendi outros tantos segredos, pendurada na bata da Beatriz que cheirava constantemente a coentro e sal.
Na família da Beira a cozinha é igualmente um local sagrado. Uma outra Beatriz, outro fogão a lenha, uma mesa comprida e os tachos brilhantes, frigideiras e testos orgulhosamente pendurados nas paredes em filas ordenadas. Salgava-se à mão cheia, o termo q.b. substituía todos os ml e os dl de receitas que eram passadas de boca em boca, mães para filhas e para noras, sem anotações à margem de como fazer. Avental à cintura e cara suja de farinha, risotas e “prova aí” em colheres de pau puídas de tanto uso.

Recordo. E mesmo não tendo hoje o tempo para me dedicar, ou as gentes para alimentar, de outros tempos, recordo com saudade as alturas em que o “vais tu para a cozinha?” me fazia encolher os ombros num “e tenho outro remédio?” .. frase igualinha àquela que a princesa ontem me lançou enquanto estendia a massa para a tarte. Convenientemente terminada com “sabes mummy, eu vi no supermercado umas caixas com esta massa já feita .. just in case