9 Jan 2009

intimism (xxv)

A princesa, no sofá, lê. Pernas dobradas, papéis no colo, lê atentamente meia dúzia de folhas A4 impressas em algo do tipo TNR 10. Letra pequena e condensada, texto extenso que lhe capta a atenção. Os sobrolhos erguem-se à vez, fazendo-me sorrir, aplica-se. Tem de completar um guião, baseado num conto de Selma Lagerlof. Conto-lhe um pouco sobre a vida desta escritora – a primeira a receber o prémio Nobel da Literatura em 1909. Falamos de prémios, de como se premeia .. e porquê. Pergunta-me pelos critérios .. (!) Generalizamos tanto a conversa que de repente interrompo, levantando-me e dizendo-lhe: trabalha, anda .. ! ao que se ri.
Concentra-se. Gosta imenso de ler a minha mais que tudo. Gosto herdado ou vinculado, sem dúvida. E gosta de ler como eu. Várias coisas ao mesmo tempo, manifestando uma capacidade de memória fantástica, lembrando-se dos detalhes de cada história, de cada livro. O conto de Selma é profundamente religioso com uma lição de moral forte e impressionante. A morte provoca-lhe a lágrima ao canto do olho que não tenta disfarçar. O alívio ao chegar ao fim e ver que afinal, tudo acabou bem .. ou melhor do que se poderia esperar ao longo da narrativa, volta a fazê-la sorrir. O irmão leigo por oposição ao abade profundamente imbuído do espírito da salvação, o salteador e a sua mulher que a fizeram desconfiar das verdadeiras intenções, e vai preenchendo as lacunas propostas pela professora de português. De repente estaca numa das frases. Mummy? .. "o abade e o irmão leigo têm diferentes interpretações para o que vêm. Explica” .. leio e olho-a .. “so?” pergunto .. percebeste onde ou como pelo que leste?
Percebi mãe mas tenho de explicar o conto inteiro para me justificar.
Resume .. tenta! Digo-lhe, como se o acto fosse tão fácil quanto o articulato ;)
.. Desde o inicio da empreitada que têm os dois visões muito diferentes sobre os acontecimentos que vão vivendo na procura da rosa de natal. Rosa que serviria de moeda de troca para que o Arcebispo perdoasse o salteador e a familia deste fosse aceite na Aldeia a tempo de festejar a Quadra - explica-me
E porquê? Reforço.
Porque, mãe, o Abade acredita em tudo e o irmão leigo não acredita em rigorosamente nada. Nem nele próprio.

Está a aprender a resumir a minha filha.
E a resumir com conteúdo. Isto volta a repor-me a confiança nas gerações vindouras ;) .. nem tudo se herda, felizmente.
;) tenham um aconchegado fim-de-semana *