12 Jan 2009

nonsense? maybe not ..

"children need examples .. more than critics"

O restaurante estava vazio e enquanto esperávamos pela picanha como só o Pedro sabe fazer, a princesa explicava-me a peça de Natal. Intercalava com notícias da escola, do ATL, as amigas e os amigos, os testes finalmente acabados, as notas de final de período, e todo um detalhe do que lhe enche a vida .. cheia. A minha atenção, shame on me, já aqui me retratei, mas a minha atenção vai da audição ao tacto, cheiro e visão e portanto, se os sentidos são cinco .. não há equilíbrio, já o disse David Mourão Ferreira, que isto não seja novidade para ninguém.
Entra um casal com duas crianças pequenas e no restaurante que estava vazio, pedem licença para se sentar na mesa ao nosso lado, usando inclusive uma das cadeiras que nos “pertencia”. A princesa cala-se de imediato, olha-me interrogativa, e avança “como na praia mummy” baixinho, num sussurro, fazendo-me sorrir. A criança mais pequena tem uns cinco anos talvez, e a outra a idade da minha. Acho. Trocam-se olhares, piscadela de olho e sorriso, aparece o Pedro tentando separar mesas e perguntando ao “chefe” da família se por acaso não prefere aquela mesa junto à janela, mais confortável.
A resposta sai torta e mal-educada, a criança mais nova deita a língua de fora à princesa que lhe vira a cara, enquanto a outra escarafuncha o papo-seco para lhe retirar o miolo. A mulher pequena, sumida, muito morena, cabelo preso em rabo-de-cavalo e casaco de cor indefinida, torna-se ainda mais pequena, tentando esconder-se debaixo da cadeira. A princesa cora de raiva, eu pego numa faca com um pouco de manteiga e barro um pedaço de pão. A criança mais velha acabou de fazer bolinhas minúsculas com o miolo retirado, molha-as na boca e faz pontaria ao televisor pendurado numa esquina da parede. O pai ri-se alarvemente, de boca aberta, de cada vez que a sua princesa consegue acertar no écran. A mais pequena continua incansável a deitar a língua de fora, agora à mãe, enquanto por detrás do balcão o Pedro me faz um sinal de pedido de desculpa. Abano levemente a cabeça, nada a desculpar.
Chega a picanha, na travessa, cheia de rodelas de limão, a carne ainda estornica carregada de sal, como gostamos, média bem passada que os laivos de sangue não são digeríveis, uma outra travessa mais pequena de tomate e queijo mozzarela, sal e pimenta, e uma pequena malga de feijão preto cozido com chouriço como a pequena gosta.
Sou completamente tradicionalista nos sítios que frequento. Tratem-me bem e jamais procurarei outros :)
A mesa do lado é servida quase ao mesmo tempo. O Pedro traz os pratos de barro com os bitoques pedidos, carne com um excelente aspecto, batata frita, arroz e ovo. A criança mais pequena começa aos gritos que quer um prato igual ao da minha filha. Esta, nem olha para ela provocando-me o riso. A mais velha pergunta se pode comer aquele pão branco que nós temos em cima do tomate, e eu começo finalmente a perceber o que sentem as espécies em vias de extinção.
O Pedro tenta segurar a mais velha que salta entretanto por cima do pai para aterrar, literalmente, ao pé de nós ficando a ver-nos comer. A mãe grita para ela se sentar à mesa, no seu lugar e comer sossegada “como essa menina estás a ver como ela se porta” discurso que ainda funciona com um dos meus sobrinhos, o de dois anos. A princesa ergue os olhos do prato, endireita as costas, e pergunta à garota: és servida? Ao que a outra lhe responde “hum”.
Agora o Pai grita com a mãe para que não grite com a filha que não é assim que a educa. Estou, contra todas as vozinhas interiores que me mandam estar calada, e para meu grande espanto, prestes a concordar quando me começam a cair no prato as bolinhas de miolo de pão que haviam ficado presas no écran da televisão. Foi um sinal. Afasto o meu prato ainda por servir e peço outro ao Pedro que consternado e de semblante pesaroso me murmura um “desculpe, desculpe” como se culpa tivesse no cartório pela porta aberta ao público.
A garota mais nova, cansada de reclamar sem sucesso devora o bitoque da irmã, depois de ter esquartejado o dela .. penso intimamente que gostava que a minha comesse assim pelo menos uma vez por semana. Esta atitude da comilona provoca a ira da irmã mais velha que entretanto havia regressado à mesa, não sem antes ter tirado outro papo-seco do nosso cesto de pão. Estive quase, quase a desafiá-la para a construção de algo menos peganhento desta vez. A mãe prescinde do seu bife para lhe dar, ao que a pequena responde que não quer. Com o punho a bater na mesa, acompanhando as palavras, “Quer’um só p’ra mim”! .. quatro murros na mesa. O pai grita-lhe agora furioso, contra os pergaminhos que ainda há pouco defendia, que se não quer o da mãe, não almoça! E assobia ao Pedro para lhe trazer outra imperial “gelada..!” enquanto assenta uma palmada no tampo da mesa fazendo entornar um dos copos de coca-cola das filhas e provocando nova gritaria.

Começo a imaginar uma encenação com a cena que presencio.
Realização, takes, acção!
Risos e gargalhadas pelo ridículo da situação.
Toca a colar de novo as bolinhas de pão no écran que a cena tem de ser repetida.
Era bom que não passasse disso mesmo. Mas passa. E passa-se.