8 Jan 2009

quanto a Vós não sei ..

mas a mim, não me apetece nada sair do espírito este ano ..

Vésperas de Natal. Dia 24 de Dezembro de um ano qualquer. Acordou mais cedo que o costume, arranjou-se mais rapidamente que o usual. O coração batia descompassadamente e tinha no rosto aquele sorriso meio tolo, meio feliz. Num saco preparou a roupa a levar. Dois dias. Pouca coisa. Deixou no aquário do peixinho encarnado a pedra de comida que duraria na ausência e atestou o comedor do periquito azul que o brindou com trinados à entrada na cozinha. Um pão na caixa de pão, e sorriu de novo ao lembrar o ensinamento da avó .. uma peça de roupa estendida e um pão na caixa de pão durante as ausências. Nunca percebeu porquê.
Olhou em volta antes de fechar a porta da rua e fazer-se à estrada.
Bom Natal, murmurou como se deixasse alguém para trás. Feliz Natal.
A viagem era longa, mas este ano era a sua vez e nem pensar em chegar depois. Sem grandes excessos de velocidade percorreu os largos quilómetros que separavam a sua morada actual das suas raízes.
Antecipava o momento de abrir a porta da casa de pedra que pertencera aos avós, religiosamente mantida pelos Pais, por ele e pela irmã.
O momento.
Na gasolineira, a menina atrás do balcão sorriu à encomenda, dois pastéis de nata embrulhados e um café bebido de um trago. Vai à terra? perguntou-lhe .. vou à terra, sorriu na resposta. Terra. Não via a hora de chegar.

Ao percorrer a quelha de acesso à porta principal quase conseguia ouvir os gritos da rapaziada a chamá-lo, de madrugada, para o tiro aos pardais. Pressões de ar afinadas, chumbinhos minúsculos numa paródia hoje politicamente incorrecta mas na altura. Ai nessa altura .. ! Franqueou a entrada da casa, já quase noite cerrada mas ainda cedo no ponteiro de relógio. Sabia-os a chegar dentro de uma hora, no máximo. Era o tempo que tinha para tudo preparar. Para os surpreender.
Primeiro a lareira, toros inclinados encostados à parede, pilha aberta para respirarem dissera-lhe o avô em tempos idos, ensinamento precioso para que o fogo pegue à primeira na pinha seca que o ateia. Arredou a mesa para o meio da sala, acendeu todas as luzes da casa e subiu ao primeiro andar para verificar o aquecimento nos quartos.
Por a mesa .. sorria. Por a mesa de Natal. Para o Natal.
E ouvia em murmúrios a voz da avó na ladainha cantada enquanto esticava nos joelhos a massa das filhoses, à moda da beira, e os sonhos crepitavam a secar no papel pardo grosso e ligeiramente acastanhado. E o avô batia os pés com força à entrada da porta da rua, como que a deixar os muitos graus negativos na ombreira da porta, impedindo-os de entrar.

Inspirou fundo e cheirou-lhe a inverno.
A inverno e a memória, essa coisa doce e por vezes traiçoeira que se apega no coração e na alma e nos faz sentir .. acompanhados.