21 Jan 2009

vidas (viii)

A Inês é uma menina branca numa turma de meninos negros.
Faço este tipo de introdução ao texto que escrevi e para a publicação do qual pedi autorização aos Pais da Inês, não por qualquer tipo de racismo, não tenho estigmas de raças, só de pessoas, e antes que se ergam as vozes das "consciências de serviço", mas porque é esta a realidade que vive a Inês.
A Inês tem 10 anos acabados de fazer. Terminou com sucesso a primária na escola do bairro onde vive, e ingressou em Setembro de 2008 na escola preparatória Bartolomeu Dias. Como todos os meninos de dez anos, acabados de entrar no liceu dos crescidos a Inês queria fazer novos amigos, integrar-se, aprender, brincar, jogar e correr .. como a minha filha .. como todas as crianças que conheço.

No primeiro dia de aulas a Inês levou uma sova. Não percebe até hoje o porquê daquela recepção. Ao longo do primeiro período foram mais os dias que teve de fugir à frente de alguém do que aqueles em que a deixaram brincar, com as duas amigas que havia já feito. Amigas que entretanto a abandonaram por sofrerem pressões, dizem os professores, estalos e pontapés afirma a Inês, por serem amigas dela.
O Avô da Inês vai muitas vezes buscá-la ao portão da escola. Em dias que a neta lhe liga a chorar por ter levado mais que a conta .. invariavelmente são apedrejados no caminho de volta .. até saírem do raio de visão das outras crianças. Dos colegas da Inês. Crianças? .. tenho algumas dúvidas mas a sua estatura assim o confirma. Crianças.
A Inês é uma menina branca numa turma de meninos negros. E os professores não sabem lidar com isso. Quando por acaso apresentou queixa à professora de EVT a Inês ouviu “vai para o raio que ta parta”. Não sabe esta docente lidar com o factor destabilizador. Pelos vistos naquela escola é a Inês esse factor. Mais valia Senhora Docente que se dedicasse em exclusivo .. às greves.
A Inês ultimamente apanha no recreio, no refeitório e até na sala de aula. Sim, na sala de aula. Porquê? Porque é diferente.
Às inúmeras queixas dos Pais da Inês, o Conselho Executivo responde com cinco dias de suspensão aos alunos identificados. Cinco dias de descanso, talvez mais um pouco, porque a vingança serve-se fria por ali.
Na última semana ficou em casa.
Tem um olho negro e muitas nódoas no coração. E um buraco no "acreditar" dos seus dez anos de idade.
Foi a última vez que lhe bateram.
Os Pais da Inês procuram desesperadamente uma outra escola para a filha. Ainda à espera de respostas tentam sem sucesso contactar o Conselho Directivo da Escola, que se mantém inexplicavelmente .. mudo. Sem sucesso depois de todas as queixas apresentadas, de todas as comunicações escritas, de todas as participações na polícia local.
Numa das vezes ouviram do responsável pela esquadra um “é normal, são miúdos”.

Não Senhor Agente, digo-lhe eu. Não é normal. Nem tão pouco são simplesmente miúdos.

(reportagem a passar na TVI na próxima semana.
Quando tiver data certa, informarei)