3 Feb 2009

intimism (xxviii)

Multiplicam-se os alertas nas notícias e eu cansada de tanta cretinice desligo o rádio.
Ponto.
Voa-me a memória para a neve onde me enterrava até ao joelho a caminho da vila para a tarde passada em casa dos primos, todos de férias. Ou para o calor abrasador de lenço forte na cabeça e as recomendações do Sr. Dionísio “olhe que escalda menina, olhe que escalda”. Os banhos no tanque de água gelada sem ninguém nos vir dizer, com direito a tempo de antena, que se não fizéssemos a digestão .. ou a ida aos ninhos, politicamente incorrecto eu sei, mas nunca os tirávamos do sítio nem mexíamos nas crias.. nunca? bom, até ao dia em que me desafiaram a fazê-lo acusando-me de maricas o pior insulto que me podiam fazer aos oito anos de idade e eu lembro-me partir a cavalo sem sela sem nada tal a fúria e fui buscar um ninho depois de me ter esfolado toda a subir um dos mais altos pinheiros, carregados de resina e lagartas que hoje me arrepiam só de olhar.
Arrepiante foi o olhar do meu Pai que me fez gelar ainda que com mais de 40º à sombra, obrigando-me a tratar daquelas pobre crias que miraculosamente sobreviveram. O verdadeiro castigo? Passei os três meses de férias a escrever vinte vezes por dia o poema Sei de um ninho .. Aprendi a lição.
Os alertas continuam e não pára de chover. De que se queixam afinal se estamos no Inverno, pergunta-me o Sr. Dionísio em recente visita. Olhe menina eu só quero que me cheguem um braçado de lenha que já não sou capaz. O resto? Olhe .. para o antigamente até está bom. Quentinho. E eu sorrio porque lá fora há gelo preso na haste nua da laranjeira e o frio entra por todos os lados fazendo tremer mesmo em frente à lareira.
Que mal preparados estamos, Senhor! Que mal preparados.
E que aborrecidos nos tornámos.