4 Feb 2009

vidas (ix)

A princesa em casa de uma amiga para mais um trabalho de grupo. Apresentação em slide show sobre o tema Ensino .. oportuno não? Se têm mencionado o estrangeirismo na minha altura de estudante de 6º ano, estragavam-me o percurso!
A mãe dedica-se à roupa por passar, que cresce a olhos vistos, tenho a pequena teoria comprovadíssima cientificamente que o monte de roupa para passar a ferro tem vontade própria, e vinga-se da nossa falta de disponibilidade com um acrescento de peças, daquelas que não nos apetece passar nunca. O meu, dado a manobras maquiavélicas, assume proporções de frigorífico dentro do cesto. Capitulo.
Ligo a aparelhagem na minha rádio preferida, som acima dos decibéis autorizados, tábua na cozinha, portas abertas. Vou sensivelmente a dois terços do monte, contente comigo própria, a pensar na recompensa, quando me tocam à porta. O pensamento imediato é: não está cá ninguém, pode ir andando, mas o toque insiste, quiçá alguém preocupado com o facto de eu ter saído com a música naqueles propósitos. Espreito pelo óculo. É a vizinha do lado, de novo. Mas por Deus, não poderiam ser os meninos da MEO, os da Zon para fazermos as pazes, por exemplo, ou os outros a vender qualquer coisa que não me apeteça comprar. Tudo é preferível à seca que me espera. E hoje eu até comprava, digo para mim.
Abro a porta, num sim vizinha, coisa idiota da qual já me penitenciei há tempos, nunca, mas nunca se pergunta sim? a alguém que só espera a interrogação para nos bombardear com hectómetros de conversa que não interessa a ninguém. A sério.
Estive quinze minutos contados pelo velho mostrador do relógio antigo, herança de outros tempos, mostrador que me moteja a paciência num tic-tac solene e cadenciado, a ouvir um matraquear algo maldoso, sinistro e inverosímil, de alguém que além de espreitar as visitas alheias, passear um cão caquéctico, e gritar ao telefone com seres imaginários, não tem na vida, mais nada para fazer. É triste, mas é verdade.
Não! Não me peçam para reproduzir. Lembro-me dos meus “hum .. hum” e do sorriso, de indisfarçável alívio, que lhe dediquei à única frase que recordo, e agora que a recordo até a acho ligeiramente assustadora .. “obrigada pelo desabafo vizinha, não a maço mais, mas fique atenta, eles andam aí!”
Ele há vidas .. !