5 Feb 2009

vidas (x)

Tem três filhos a Lúcia.
Dois no segundo ciclo, um no primeiro. A mais velha anda na turma da princesa lá de casa. São amigas. Sinto que a minha filha a admira. Bastante. Ontem chegou a casa a pedir-me um favor. Posso levar a mochila preta para emprestar a uma amiga mãe? Anui, mas quis saber porquê. Ela contou.
A Lúcia acorda todos os dias às 5h30 da madrugada. Na cozinha prepara o almoço e os lanches dos três filhos que andam numa escola oficial. Tem um cuidado extremo na preparação das refeições. Pode faltar tudo menos comida! É o ditado lá de casa.
Entra às 08h no primeiro emprego. São três as casas que limpa diariamente. Limpa, passa a ferro, lava e enxuga, cozinha e faz as compras. Tem de ser. Está sozinha e sem ajudas. O Pai das crianças fugiu para parte incerta quando a soube grávida do último. Podia ter optado diferente mas não o fez. Hoje é o benjamim da família, um terror com cara de anjo diz a minha que o conhece de por vezes acompanhar a irmã.
A Andreia, é a filha mais velha, tem 12 anos. Sai de casa com os dois irmãos, um de nove e o benjamim de seis. Deixa-o na primária e segue para o ciclo com o outro que já anda no 5º ano. À saída faz o percurso inverso, passando na primária para levar o irmão que tem actividades, felizmente, até às 17h30. Chega a casa, senta-os a fazer os trabalhos de casa e faz os seus.
A mãe aparece pelas 19h30. Normalmente mais cansada que .. o jantar é o ponto de encontro desta família que se ama, se ajuda, não se queixa. Falamos todos ao mesmo tempo, conta a garota. A mãe por vezes desata a rir porque não nos entende. Parecem italianos! costuma dizer-nos.

Uma família feliz? sem dúvida. Mesmo quando o dinheiro não chega para comprar uma mochila. Mesmo quando os horários não deixam ao tempo da mãe o tempo para acompanhar mais os filhos. E acompanhar mais será acompanhar melhor?
Porque nem tudo é linear nesta vida, como escrevi ontem num comentário a propósito de medidas que, a serem aprovadas, vão obrigar os estabelecimentos de ensino a estar abertos até mais tarde.
Porque há vidas que se cumprem cedo demais como li num comentário há dias sobre aquilo que escrevo. (Obrigada Patti).
E porque a felicidade, o carinho, o acompanhamento e o cuidado não se medem por bitolas de especialistas que falam nos meios de comunicação, baseados em estatísticas.
Acaba a minha princesa o relato .. e eu penso, abraçando-a, contente e orgulhosa pela disponibilidade que mostra em ajudar a amiga: Ainda bem que a Andreia existe. Boa sorte Lúcia* toda a sorte.