31 Mar 2009

readings (xvii)

A Carla Maia de Almeida regressa da Feira do Livro Infantil de Bolonha
cheia de novidades (a par de brilhantes polaroids) que promete contar-nos :)

intimism (xxxvii)

Gostava de palavras cruzadas. De jornal.
Coleccionava-as meticulosamente quando não havia tempo para as resolver. Gostava de leite com café. Mais leite que café que lhe haviam dito ser fundamental para acalmar a úlcera que há anos lhe queimava o estômago. Gostava de gelados Super Maxi. Só Super Maxi. Retirava cuidadosamente a parte fina do chocolate e deliciava-se depois com a nata. Devagar. Saboreando.
Gostava de andar a pé. Andava muito a pé o que até ao fim da vida contribuiu para a figura esbelta que mantinha, sem esforço. Separava o lixo quando ainda ninguém separava coisa nenhuma. E escrevia cartas à mão. Imensas. Para toda a família, principalmente a que estava a milhares de quilómetros de distância. Quando recebia resposta, quase sempre, felizmente, sentava os netos em seu redor e lia. Devagar, pausadamente, saboreando as palavras escritas que lhe acalmavam a saudade do peito e lhe marejavam os olhos de água. Olhos de um verde profundo, quase cinza, expressivos e amendoados. Gostava da vida, a minha avó.
Das coisas simples da vida. Como palavras cruzadas e gelados de nata. E notícias de quem está longe.

Hoje, ao deixar a minha princesa no ATL, cuja vivenda fica no bairro onde morámos, fui abordada por uma senhora de idade, que reconheci vagamente, que sorrindo e acariciando o cabelo da minha mais que tudo me pergunta a menina desculpe, mas é neta da Ladikê, não é?
Perante o meu ar incrédulo mas confesso, murmura que sou a cópia viva daquela que foi uma grande amiga. A melhor amiga que já tive, diz-me, dando-me um abraço. Ainda hoje lhe sinto tanto a falta.

Também eu. Tanto ..

30 Mar 2009

thinking (viii)


Dificilmente resolverás o problema se sistematicamente apagares o enunciado.
A origem.
Dificilmente terás alguma hipótese de vingar num futuro
se o antecipares na base: faz-de-conta que o passado não existiu.
..

readings (xvi)

O Luís Filipe Cristóvão no Homem que queria Ser luis filipe cristóvão,
um registo diferente do de 1979 mas igualmente .. viciante ;)

count down (ii)

a week to go ;)







rhythmic .. balance

Torneio de Páscoa de Ginástica Rítmica

Parabéns Meninas! Parabéns Treinadoras!

Pela primeira vez desde que começou a adorada equitação ao domingo de manhã, a princesa pede desculpa ao seu mais-que-tudo Nepal pela pressa, e desarvora a correr para o carro, depressa mummy, elas já começaram. Fazemos o caminho de volta mais depressa que o costume, chega a casa, toma duche, prende o cabelo e troca de roupa para as cores do Ginásio.
Faz parte da equipe de apoio e tem como função, até às 18h00, ajudar as pequenitas a vestir, controlar o abastecimento de águas e barritas energéticas, entregar as medalhas. São as meninas da rítmica geral que ou ainda não têm preparação ou foram excluídas nas eliminatórias. Não é por tal que deixam de estar presentes para apoiarem as colegas, mesmo as concorrentes ou ajudarem as organizadoras em tudo quanto seja necessário. Eu disse que ficaria por uma hora, a filha de uma amiga que se iniciou na prática aos quatro anos de idade é uma das esperanças (hoje com sete) e havia prometido gritar o texto da claque em plenos pulmões ;)

Acabei por ficar mais que isso.
Para me encantar com o profissionalismo de quem ainda não tem altura e peso suficientes para arcar com a responsabilidade de defender uma medalha. Para me comover com os gritos de apoio sempre que a bola, que na maioria dos casos parece colada nos pequenos corpos, foge, o arco revira ou as massas não obedecem à ordem do upa upa e volta! Para me encantar com a solidariedade latente nas meninas que, até aos 16 anos, querem levar para casa uma medalha mas ainda assim entendem que o propósito é comum a todas e se não for eu .. que sejas tu. Para apreciar os dotes de organização de tantas outras que pelos motivos acima não participam mas estão lá, atentas, com as cores do seu clube, e correm, e gritam, e andam de um lado para o outro para que tudo corra bem e nada falte.
Para corar, no fim quando dei os parabéns à treinadora, ela própria atleta olímpica no seu tempo, que os recebeu contente dando-me um abraço e sussurrando preparada? A sua é outra esperança. Dentro de dois anos falamos, afastando-se e piscando-me o olho! Já tínhamos tido uma conversa difícil sobre o tema. Pedi-lhe simplesmente na altura que fosse ela a explicar à minha filha que vida terá se enveredar pela competição. Lembro-me de ter ela corado, confessando-me Nunca uma mãe me pediu tal coisa. Mas fique descansada. Explicarei.

Meninas atletas. Meninas com uma talvez diferente prioridade na vida. Que as leva num Domingo de sol a um ginásio para tentar ganhar uma medalha, no exercício de uma actividade difícil, exigente, pautada por desoras de trabalho árduo, pedindo ao músculo que em borracha se transforme.
Actividade que, a par da natural competição, lhes forma também um outro carácter e lhes estipula uma diferente ordem de primados? Como em todos os desportos, arriscaria, sem dúvida.

27 Mar 2009

intimism (xxxvi)

Entrei a medo no passado.
Pé ante pé, sem barulho.
Olho à volta e vejo-me rodeada de memórias, sons e sorrisos, suspiros e sonhos.
O meu quarto está intacto.
A colcha de renda imaculada cobre a cama e na escrivaninha antiga de madeira tosca e cravada empilham-se livros que me esqueci de ter lido.
Há uma boneca de loiça em tamanho de menina crescida encostada a um canto por debaixo da janela que me olha sentida, de lágrimas nos olhos, dizendo-me baixinho também te esqueceste de mim.
A lanterna na primeira gaveta da mesa-de-cabeceira já não tem pilha, tanto serviu para ler debaixo dos lençóis, livros proibidos, surripiados ao controle paterno da estante da sala.
Há uma bicicleta sem roda e uns patins sem patim. A mochila pende da maçaneta da porta tal como a deixei, uma caneta de tinta seca lá dentro e um pequeno bloco com apontamentos que não recordo ter .. apontado.
Nas paredes as fotografias empalideceram .. mas ainda sorriem.
Olho em volta o meu passado.
Procuro os sonhos que tive, e penso que fiz para os concretizar?
Entro a medo no passado, para me comover.
Vendo de onde vim .. aceito o sítio onde cheguei.
Porque é meu.
Porque sou eu.

____
Bom fim-de-semana :)

There's no sense as the sixth one :)



Explicação aqui


Não estou muito certa do que pensar do assunto, que tenho de reler para formar opinião.

À primeira vista pode parecer um substituição do fantástico, algo "sensual" e significativo sexto-sentido que nos "gabamos" de ter. Mas é muito mais que isso. A simples projecção holográfica acompanhada de um gesto (usando obviamente o device) fez-me sorrir.

Confesso que o meu .. feito de experiência, ego ao alto, algum convencimento e alguma ilusão, já falhou vezes sem conta e acertou outras tantas.

Mas é neste equílibrio que está a pessoa que sou. E se puder ser uma pessoa melhor? Será com esse objectivo que se substitui um sense por uma machine? Soa a ficção cientifica não é?
E acaba por ser.


26 Mar 2009

.. time!

Chega a princesa a casa com uns papeis na mão e um mummy preciso da tua autorização, se concordares .. lembrei-me imediatamente do O Pai autoriza? perguntado em reverência e olhos quase no chão a fazer figas atrás das costas, ainda que normalmente a resposta fosse não, e sorrio da sintonia e da distância a que me obriguei na educação que lhe dou.
O tratamento é mais leve, a reverência está lá à mesma no se e sabe que se o se se converter num franzir de sobrolho tem poucas hipóteses de levar a água ao seu moinho, ainda que, e ao contrário do antigamente, lhe seja dada uma explicação. Não argumentativa como vejo por vezes ao meu redor em que a criançada esperta satura pelo cansaço, mas explicativa. Com tempo e com calma. Para que entenda ainda que possa, está no seu direito, não concordar.
E lá estou eu a sair de Lisboa para o Algarve passando pelo Porto ;)

Os papeis eram da biblioteca da Escola e a autorização que teria de dar permite-lhe ser Monitora.
Desde a passada 2ª feira, a menina ginasta bailarina, excelente aluna, pré adolescente, estudante, amazona e last but not least filha de uma mãe (isto soa assim assim) insuportavelmente orgulhosa (uff .. safei-me) passa a bibliotecária duas vezes por semana, com direito a estante que tem de manter em rigoroso registo alfabético. Mum, tive imensa sorte com a estante .. já li a maioria e posso falar dos livros a quem os vier procurar.
Olha que sorte ..! para eles ;)

Eu?
Dei autorização, claro. Sorrindo e pensando como será que tem tempo para tanto e lembrando-me do tanto que eu tinha tempo para tanto na idade dela. E depois.

count down (i)



para uma merecida semana de férias .. ;)


Agora que já escolhemos destino Mum, parece que falta menos tempo!
Wise girl!

25 Mar 2009

silly me ;)


Todos os anos temos esta euforia no sentir e no fazer sentir e penso até para mim, já inclusive confirmei esta teoria à custa de lágrimas e risos, que é por aqui que nos renovamos e evoluímos mais que por qualquer meio, meio esse que pode parecer mais culto e intelecto, mais viajado e ambicioso, mais perfeito e completo. Desenganem-se .. !
Ufa ..! é também nesta altura que tenho muito mais fôlego, como se pode ver neste parágrafo!

O sol brilha, o calor sente-se na pele, há um natural despir de roupa pesada e já sem graça, um sapatinho aberto que se coloca, casaco leve e decote pronunciado, um sorriso que pode parecer pateta ao incauto que observe mas não é: tenha tento oh incauto que o sorrisinho que pode parecer pateta, não é!

Há um calorzinho no ar, algumas alergias à mistura pelos espirros que oiço, uma euforia aliada a um cansaço de quem precisa urgentemente de uma pausa (ainda não escolhi destino .. ) mas ao mesmo tempo quando abro o estore ou afasto o cortinado de manhã e vejo o sol que já brilha e os jacarandás quase carregados, as pequenas flores de pessegueiro que já despontam e os matutinos na rua, invade-me uma paz que chamo primaveril, que me aconchega e me faz, de bem comigo, evoluir? .. também! ;)

present Perfect

A mais pequenita da família fazendo alarde dos imensuráveis olhos azuis, benza-a Deus, como se diz na terra do meu Pai, guincha assim que se lhe viram as costas.
O rapazote de quase três anos, caracóis loiros e grandes olhos castanhos, corre para ela aflito e no ímpeto quase a atropela. Sai a minha, menina crescida do cimo dos seus onze anos, em defesa do bebé segurando airosa a cadeira e apanhando a chucha em voo picado. Disputam-lhe o colo e ela ri-se à gargalhada tentando colocar ordem: uma perna para cada um e mai nada!
O menino dos olhos negros, cabelo igual ao do Pai, grosso e liso, cinco anos acabados de fazer, vem ter comigo à cozinha e desabafa: what a mess tia, can i have your attention here? fazendo-me rir com gosto que lhe sei as artes do it’s my turn now!

Meu Deus, penso, Obrigada!
Obrigada pela repetição da história. Há bem pouco tempo éramos nós .. agora são eles. E eu de avental sujo de farinha, uma mão no clique do microondas onde ferve um biberon (que obviamente aqueceu demais) e outra a equilibrar um tabuleiro de taças de cereais (caiu uma .. de três .. não está mal mas tenho de treinar) dou graças(?)
.. devo estar doida. Só posso estar doida.

;) Mãe, Tia, Madrinha .. isto é muito para uma mulher só ! É? É nada!

24 Mar 2009

past .. not as perfect as that


Dobrava pacientemente as meias e a restante roupa interior.
Como quem cumpre um ritual. Meia do direito, meia volta sobre o pulso, parte de fora para dentro e assim sucessivamente.
A restante roupa era cuidadosamente colocada no cesto para passar. O ferro de aspecto rude mas leve no trato estava ainda a aquecer. A tábua de madeira com um pano branco imaculado por cima, devidamente armada no meio da cozinha.
No fogão a lenha crepitavam as brasas e fervia vagarosamente uma sopa de caldo verde.
A favorita dos meninos. No tabuleiro do forno rangia a gordura de uma farta peça de carne. Cabrito com batatas pequenas que aloirariam no molho daqui a pouco.
Sentiu-a chegar subindo as escadas devagar em passo cadenciado e murmurando uma pequena melodia que havia trazido na memória numa das ultimas deslocações à cidade. Um leteendien era assim que o percebia mas tinha a noção que não seria assim que se diria.. era inglês parecia-lhe e dessa língua áspera que raramente se ouvia por ali, ela não entendia nada. Nem uma palavra.
Entrou na cozinha e abraçou-a. Gostava daquele jeito como a agarrava abraçando-a sem conseguir dar-lhe a volta ao corpo. Ficava a mirá-la com os grandes olhos castanhos e rasgados, curiosos de menina pequena a caminho de menina mulher. o Pai está Beatriz? .. a pergunta sacramental. O Pai está. Como quem se quer assegurar que se está já não sairá e se não está há que ir à sua procura. O que fazia sempre que chegavam as 19h00 e o senhor ainda não estava em casa. Menina a caminho de mulher com responsabilidades bem maiores que os seus treze anos. Ainda não, menina respondera-lhe, vendo alterar-se a feição para um ar ligeiramente preocupado. Girou a cabeça para o relógio de pêndulo pendurado no corredor. Eram 18h45.
E os manos?, era a pergunta seguinte, enquanto escolhia uma tangerina suculenta da fruteira e a descascava à mão para dentro do balde do lixo. Velho aquele balde. Havia que o substituir rapidamente.
No quintal, menina. A roupa toda dobrada agora no cesto para passar. Mais uma volta na carne para se assegurar que já poderia deitar as batatas. A sopa feita, era a altura de lhe juntar as finas rodelas de chouriço pelas quais discutiam à mesa: tens mais duas que eu.
Sorria a Beatriz. Gostava daqueles meninos que tinha visto nascer. Todos eles. Há muito que servia naquela casa. Ainda antes do senhor se casar, já servira o seu pai. O Senhor Doutor. Homem bom e justo mas de poucas falas. Depois da sua morte, ficou contente por poder continuar a servir o menino. Menino agora senhor.
.. tal como a menina! exclamou, fazendo-a voltar-se de admiração. Um dia terei de tratá-la por senhora, sabia? disse sorrindo, rugas muito profundas ladeavam os olhos, dando-lhe um ar trocista mas meigo ao mesmo tempo.
Prometes-me Beatriz?, perguntou-lhe, parando de comer e olhando-a séria. Tão séria aquela face de menina. Tão tristes agora os olhos escuros e rasgados.
Prometo o quê menina? atirou-lhe parando o que estava a fazer e afagando-lhe os cabelos que lhe caíam em cascata pelos ombros. Prometes-me que sairás à minha procura se algum dia eu não aparecer?
______________________________
Texto já editado nos "velhos tempos" do Once :)
.. Porque o trago de novo à ribalta? Porque preciso.

acordo .. entre o quê?

Os dez anõezinhos da Tia Verde-Água é um conto de Teófilo Braga, Mummy, e eu vou representar a tia verde água que empresta os anões à mulher desleixada que não trata da casa, não vai à fonte nem prepara a janta do marido e por isso andam sempre a discutir.
Sabes quem são os anões não sabes mummy?
Quer dizer este conto é do teu tempo não é?
vá lá .. não verbalizou o antigamente que aposto lhe queimou os lábios naquele instante! ;)
Palavra de honra que fiquei surpreendida com a motivação da Professora de Português para colocar em cena (no ginásio do liceu) uma peça deste teor, rematada e politicamente incorrecta nos dias que correm em que tantos pensam que as crianças são seres acéfalos e tem de lhes ser vedado tudo o que as possa chocar!
Ou dar-lhes ideias. Ou, e tenho para mim que esta hipótese é a mais genuína, tudo os que os adultos se esqueceram já de como justificar.

A garota, com aplicado sotaque nortenho (!), ensaia as falas
Oh mulher bons olhos te vejam! Que fazes tu aqui com essa cara de Páscoas?
"Cara de Páscoas! O meu homem anda num sino. Bendita sejas mulher. "

Sem ter nada a ver com o assunto, e ouvindo-a no quarto a repetir as falas até à exaustão (minha, claro), dou por mim a pensar como é que o acordo ortográfico vai respeitar estas particularidades tão repletas e expressivas da nossa língua-mãe.

prize


Diz-me o Carlos do alto das crónicas do seu rochedo ;) envaidecendo-me.
Obrigada *

23 Mar 2009

intimism (xxxv)

Gosto de ginásios no Inverno. Nem sei bem que me leva a escrever sobre isto hoje, mas como diz o Once e bem, cada vez mais escrevo sobre tudo e sobretudo sobre nada.
Portanto, hoje falo de ginásios. Assunto inócuo e suficientemente desinteressante ;)

Mas escrevia, gosto de ginásios no Inverno. Particularmente.
Habituada a exercício físico que já não dispenso, aliás fico tão ou de mais mau feitio quando tenho de faltar a uma aula como fico quando não bebo a minha almoçadeira de café pela manhã; e igualmente inibida de funcionar, prezo a hora que estafo o corpo, os minutos do duche retemperador, e a sensação de nuvem com que saio das aulas, sejam personalizadas seja o programa de cardio nas inúmeras máquinas disponíveis. E de inverno, são realmente inúmeras. Com direito a mudar de máquina a cada cinco minutos, se quisermos. As aulas conjuntas não têm mais de 12 ou 14 pessoas, os balneários em metade da possível ocupação e os armários da parede leste, a minha preferida, todos por minha conta!
Depois, a partir de Maio, começo a arranjar desculpas para umas férias prolongadas até finais de Agosto. Aparecem em verdadeira multidão as donzelas tão bem retratadas neste postal da Patti, e tão bem retratadas que me abstenho de vos descrever como ficam de fato de treino, top sem soutien e calças dois números abaixo.

Gosto de ginásios no Inverno. E da sensação de aliar um corpo saudável .. a uma mente inquieta .. ou será the other way round? ;)

may I? You must.

Pode e deve (perder) ganhar algum tempo a educar uma criança.
Noções de resposta quando interpelada, agradecimento quando agraciada e pedido por favor quando necessitada.
Noção de silêncio para não interromper alguém que conversa, de espera e de pausa.
Ao fim e ao cabo saber estar, saber ser.
Pode e deve (perder) ganhar algum tempo, de preferência nos primeiros anos de vida, a educar uma criança.
Com os adultos, não vale a pena.

20 Mar 2009

cristal

sinto-me minimalista
.. já vem de há uns tempos isto ;) minimalista, algo cansada, a sonhar com férias e desejosa de um fim-de-semana .. chega de defeitos?
Nice week-end*

upclose

Are we human or are we dancers?
My sign is vital,
my hands are cold
And I'm on my knees
looking for the answer
Are we human or are we dancers?
(The Killers)

Dou-me mal com partidas, eu.
E com abandonos.
E com faltas de notícia a quem quero bem.
Se pudesse carregava ao colo todos aqueles que fizeram já parte da minha vida e me fizeram bem, a quem fiz bem. Sem excepção.
Sou incapaz de chorar num funeral mas já chorei lágrimas amargas pela perda de um amigo, de um amor, de uma presença, de um colo.
Não sou carpideira da vida mas lembro todos os instantes passados com alguém de quem gosto.
E com quem já não passo instante algum.
Considero e respeito as mudanças de vida, de feitio, de maneira, de país e até de sentimento.
Respeito as mudanças quando provêm de uma vontade própria.
Dou-me conta que não consigo respeitar a morte.
Gostava que o meu mundo fosse constante e sereno. Com as amizades de sempre, as antigas e as recentes, com os predicados e os defeitos de todos quantos fui aprendendo a considerar .. gostando. Com o respeito que os mesmos têm pelo meu feitio, pela minha forma de estar e de ser. Sem questões.
Isto é o que eu gostava. Mesmo.
E ao chegar ao fim deste texto suficientemente naif para comprovar a dualidade zodiacal (you see? ;)) dou-me conta ainda que também gostava de voltar a escrever composições como na 2ª classe, sobre o Bem e o Mal, A Primavera e as Férias, as Festas e os Aniversários.
Coisas simples. Cheias e simples. Sem mistério.

19 Mar 2009

kindness

Three things in human life are important.
The first is to be kind. The second is to be kind.
And the third is to be kind.
Henry James
A senhora é muito simpática, desculpe dizer-lhe assim, cora o rapazito técnico na instalação de novo cabo para tv, internet e telefone na morada desta vossa diarista. Sim, claro que as coisas não correram bem com a outra cabo. E tenho para mim que quando as coisas não correm bem com prestadores de serviço, havendo mais, troca o disco e muda a música.
Invisto normalmente uma carga de esforço e compreensão, dedicação e paciência em pessoas, não em coisas.

Nem calcula a quantidade de pessoas menos simpáticas que se apanham neste serviço, continua, de joelhos no chão, a colar fio imperceptível pelos rodapés fora. Às vezes penso para mim mesmo, que se é para nos tratarem mal porque recorrem aos serviços e marcam horas de instalação. Sabe? E olha para mim, que em silêncio devo ter dado a ideia que não o estava a ouvir: sabe ? reforça .. se as pessoas fossem mais simpáticas, assim como a senhora, eu acho que nehuma das instalações daria problemas. Mas por vezes, estou tão desejoso de me ir embora que me esqueço de um botão ou de uma luz e tenho de voltar à morada. Não vai ser o seu caso que me sinto aqui muito bem.
A esta hora a princesa do reino revira os olhos ao tecto e brinca disfarçadamente com um pedaço de fio e eu, sorrindo e agradecendo, retiro-me para a cozinha na preparação do jantar.
Se as pessoas fossem simpáticas, as coisas corriam melhor.

Se ele tiver de voltar, vos garanto que vou brincar com o assunto ;)
Até lá, só me resta acreditar em alguém que se sente bem com o acolhimento simpático por parte de quem precisa dos seus serviços.
E se pensarmos melhor está carregado de razão o rapazito gentil.

readings (xv)

I think life is very beautiful, Hugh said after a long pause I have no patience with people who are always sighing and complaining, always talking of the cold world, the hard lot of man, and the sufferings of the humanity. I always felt sure that they themselves have no taste for beauty, no affection for their friends, or enthusiasm for great deeds, and, judging others by themselves, of course they are always looking for double motives in the kindest actions and hypocrisy in the most unselfish impulses.

Constance Fenimore
The Old Stone House

Judging others by ourselves .. quite a dangerous thing to do.

18 Mar 2009

readings (xiv)

"Não será a própria arte uma espécie de visto de residência, temporária entre mundos políticos, geográficos e temporais, supostamente distintos?" David Soares in NContrast

Numa altura em que tudo tem de ser definido e quase cientificamente provado para ser válido, em que o caminho que abrimos à criatividade e à emoção é demasiado estreito .. arriscaria responder que sim. Infelizmente, sim. Ainda que em minha opinião se pretendesse livre de amarras e fronteiras, pura na visualização do seu autor, intemporal e acessível.


fotografia Rotimi Fani-Kayode
site da revista www.ncontrastcp.com

intimism (xxxv)

Desarma-me a Directora de Turma da mais que tudo lá de casa. Encontramo-nos no baile de carnaval, organização primorosa de Professores e Auxiliares e entretemo-nos na conversa, enquanto ela, atenta, controla a criançada e eu de sorriso pateta encanto-me com as coreografias da miudagem.
Os rapazes, alguns, trocistas, a um canto, a mal-dizer as mascaradas que, indiferentes aos olhares, continuam o desfile animadas como convém à época. A princesa desceu a Ciências, lembro-me de ter chegado a casa furiosa com o Bom +, e com a Professora que disse alto e bom som a sua nota numa advertência à turma que se espalhara ao comprido nos sistemas respiratório e circulatório. Fui dar com posts-it colados em cima das figuras do livro e eu consigo estudar com essas coisas nojentas aí a olhar para mim? refira-se que por “coisas nojentas” ela entende os pulmões e as veias, artérias e vasos..
Ri-se a Directora, dos episódios, conta-me uns outros, e remata a frase com A Mãe tem uma das crianças mais bem formadas que já alguma vez tive a honra de ensinar. Isto a propósito de um outro incidente, que me pormenoriza com detalhes de malvadez não vá eu não acreditar, a respeito de um descuido de uma amiga e da forma como a minha deu a volta à situação sem provocar qualquer alarde ou desconfiança por parte de quem estava presente e evitando a gozação até ao final do período lectivo! Ou depois disso ..
A honra de ensinar é uma frase bonita e cheia de significado na boca de uma Professora, nos dias que correm. Principalmente nos dias que correm. Uma criança bem formada penso que seja o sonho de qualquer Mãe. De qualquer Pai. O que senti na altura fica para mim. Ainda que não esperasse dela outra atitude que não a tomada.
E fica para mim por uma razão simples, não quero ser responsável por mais nenhuma reclamação sobre teclados que deixam de repente de funcionar. Humidade, dizem .. ;)

17 Mar 2009

He makes no friend who never made a foe
Alfred Tennyson
Porque ontem revi o Dead Poets' Society .. para me apaixonar de novo.

it's time

Conheciam-na como um porto de abrigo. Daqueles a que recorremos sempre que algo não corre bem, ou corre menos bem. Ou não corre como esperado. Levou a vida a limpar joelhos esfolados, a preparar chás calmantes, a contar histórias que fizessem a mente do interlocutor viajar por países distantes, miríades tentadoras. Ouviu vezes sem conta os mesmos dramas, as mesmas acusações à vida, essa madrasta, secou choros e acalmou raivas, proporcionou momentos de bonança, desculpando, relativizando como só ela o sabia fazer. Serena e um sorriso inalterado no rosto pequeno e meigo pronto, pronto, já passou e passava. Sabiam com o que podiam contar e em puro egoísmo contavam-lhe os desaires, os desgostos, culpando a educação, o trauma, o namorado e o marido, a mulher ou o patrão, e até a pedra da calçada. A tudo respondia sem voz, com um aceno de cabeça que se calculava compreensivo o cordato.
Cresceram. Formaram famílias. E continuavam a procurar o colo tentador de quem nunca achava que seriam verdadeiramente culposos.
Até ao dia em que sentados à grande mesa da sala, na companhia de quem haviam escolhido por companhia, e com uma prole considerável, continuavam as queixas que os caracterizava quando ainda eram todos crianças. Ela sentada num sofá a cerzir meias numa altura em que já ninguém cerzia meias mas pelo simples facto que lhe fazia a maior das impressões deitar fora o que ainda não era um trapo, ouvia-os. Apreciava-lhes o semblante carregado, a culpa alheia tão esmiuçada como se fossem personagens de uma qualquer peça de teatro a quem o encenador havia trocado os papéis. Os pequenos, em seu redor, sempre os pequenos em seu redor no adivinhar do que era o seu feitio condescendente.
Pousou o trabalho, fitando-os.
Fez-se um silêncio natural de quem se preparava para receber mais um pano quente sobre a mente inquieta.
Está na altura meninos, proferiu. Está na altura de arregaçarem as mangas e fazerem algo pela vossa vida, meus queridos. Pelo bem inestimável que é a vida que vos foi concedida. E está também na altura de crescerem definitivamente e tomarem a rédea das vossas decisões. Deixando de culpar o destino como se a ele fossem alheios. Deixando de culpar o passado como se o não entendessem. E dando azo ao futuro que carregado de oportunidades vos espreita às escondidas e arrepia caminho sempre que vos vê desistir.
A mais pequena da prole de crianças guinchou sentada na cadeira e abanou os bracitos como que a concordar com o que ouvira.
Eles? Bom .. primeiro ficaram algo furiosos pela admoestação. Tão diferente do discurso de pronto, pronto com o qual cresceram, sabendo que naquele colo eram inimputáveis e quase sempre desculpados de todos os trambolhões que insistiam em dar ainda que sem pedras pelo caminho. E cabisbaixos, interiorizando o que havia sido dito, partiram prometendo fazer pela vida, o que queriam fazer .. da Vida.

Dizem que continua a cerzir meias, ainda hoje. Já rodeada de bisnetos que lhe procuram o colo e o leite morno aquecido ao fogão com uma colher de mel, para acalmar as dores do mundo, diz ela mais enrugada mas ainda de olhos negros, vivos, atentos e protectores.

É o nosso país esta velha cerzideira.
E está na altura de lhe provar que os seus filhos são capazes.
Digo eu ..

16 Mar 2009

intimism (xxxiv)

O parlamento concentrava o poder legislativo, debita a mais que tudo, além de nomear e poder demitir o Presidente da Republica ainda tinha de concordar com os Ministros que o Presidente da Republica elegia para formar Governo.
Mummy!
What?
Sabias que tivemos 9 presidentes da republica em 14 anos?
Yep.
Safa ..! e mais não sei quantos Ministros e Governos a fazerem-se e desfazerem-se de um dia para o outro ..
Sim, querida.
E Mummy?
Sim?
.. se foi o povo que elegeu aqueles que se tornaram Membros do Parlamento, era por vontade do Povo que tantas alterações aconteciam?

Porque que é que ela não se limita a ler o que está no livro de História? ;)

parental_idade (?)


Chocou-me a notícia da passada sexta-feira.
Ouvi muitos comentários e li tantos outros por este e outros meios fora. Ora atacando ferozmente o Pai da criança, ora desculpando-o pela vida que se leva hoje em dia de stress e prioridades invertidas, atribuindo a culpa a uma entidade para mim ainda não clara. Palpável: a Sociedade; a Vida, e a forma como a vivemos como se nos fosse imposta. Não é.
Confesso que me abstive de julgar o acontecimento. Procurando uma justificação para algo que me parece de todo improvável acabei por encontrá-la no psicólogo entrevistado sobre o assunto por um dos canais de televisão. Há pessoas que muito pura e simplesmente não estão preparadas para a parentalidade.
Para a responsabilidade que acarreta uma criança a cargo, e não se pretende aqui referir o encargo financeiro assumido com o nascimento de um filho. Nem a escolha adequada de uma escola. Nem tão-pouco a altura correcta e eficaz de uma consulta de dentista.

Há pessoas que muito pura e simplesmente não estão preparadas para a parentalidade, dizia o senhor entrevistado; e cujos cérebros não emitem o alerta necessário de quem tem, acima de tudo o que tem na vida para fazer, uma tal responsabilidade.

13 Mar 2009

intimism (xxxiii)

Felizmente a partir de hoje posso dedicar-me só à História Mummy! Desabafa a minha mais que tudo entre escalas e percentagens, regras de três simples e valores iniciais. Chatinha a Matemática, penso para mim, que lhe fugi no final do 9º ano de escolaridade e nunca mais pensei no assunto. Ainda que saiba ainda as tabuadas de cor e salteado ;)

Levei-lhe umas pesquisas que fiz sobre Portugal no Sec XIX, embrenha-se na Primeira Republica com teste agendado para a próxima semana e procura tudo o que tenha a ver com o Regicídio que não entende como fomos capazes; e no verbo está o princípio de consciência social que gosto de lhe ver e incentivo. Como fomos .. como pudemos, como vamos fazer, ao invés do habitual sacudir do capote uma culpa que não se desculpa e se agudiza, precisamente por se pensar .. alheia.

Espera-nos um fim-de-semana de mais estudo * em contagem decrescente para um merecido período de férias .. enquanto ela se dedica ao como pudemos e sabendo eu a infeliz resposta, vou dedicar-me a escolher destino .. estamos a precisar de nos afastar da cidade, cenário de quase todo o ano. Sem culpas ;)

Have wonderful week-end *

Caminhos

(foto minha - por-de-sol em Viana)



Regalia de quem lê.

Letras, versos, poesia, textos .. sensíveis. E sensatos.
Onde na "imensidão por vezes encontro o Sol" :)
Parabéns Júlia *

12 Mar 2009

Mourning

Chegou vestido de negro e vinha para matar. Dirigiu-se à sala 10D, entrou e atirou sobre tudo o que mexia. Uma. Duas vezes.
Antes da terceira rajada, olhou nos olhos os que ainda respiravam e perguntou: "Ainda não estão todos mortos?" E voltou a disparar.


Porquê é a pergunta que se lê no meio de velas que muitos acenderam quem sabe se para facilitar o caminho até ao céu daqueles que tão violenta e prematuramente partiram. Era esta a teoria da princesa lá de casa quando as via acesas na Igreja depois dos Avós falecerem. Iluminar o caminho até ao céu porque lá fora está escuro.
Porquê? Que leva um garoto de dezassete anos a empreender uma “vindicta” contra a vida alheia matando a torto e a direito, matando-se?
Porquê? .. angustiante a sensação de impotência que sinto neste momento, sem resposta, ao mesmo tempo que me invade uma tristeza opaca, pelos lares que se desfizeram quando nada o faria prever.
Assim. Simplesmente.
Por uma vontade alheia e injustificada. Injusta.
Na mira de uma arma.
Num tiro. Ou em vários.


“A curiosidade, instinto de complexidade infinita, leva por um lado a escutar atrás das portas e por outro a descobrir a América”

Eça de Queirós

11 Mar 2009

intimism (xxxii)


Numa recente troca de correspondência com alguém que estimo recordei os selos e os postais em férias.

Engraçada a memória que nos prega partidas atirando-nos, de repente, não mais que de repente como diz o Poeta, para determinadas alturas, situações, vivências, cheiros e sabores.
Felizes os que a ela podem recorrer. Aliás, escrevendo sobre isso, dou-me conta que o meu maior medo é um dia poder ficar sem a minha memória. Confesso que se há quem atente no tamanho dos dedos das mãos, ou no tipo de sapato que traz o interlocutor do momento, eu desiludo-me sempre que a pessoa com quem converso, mais que dedos toscos ou sapatos esburacados e sem marca definida, utiliza frases como não me recordo ou não trago esse tipo de recordações, passado é passado .. estranho sempre quando quem comigo argumenta acabou de chegar, como se de presente fosse feita a vida.

Mas relembrando os postais de férias, principalmente quando a família partia para o merecido mês de praia e as avós e tios ficavam em Lisboa, era uma tarde bem passada aquela que prescindindo da areia e do mar, normalmente em dias nebulosos e algo frios, passávamos pela estação dos correios para escolher os postais mais ilustrados e bonitos, fieis representações do local onde estávamos, para os dedicarmos a quem longe tinha ficado. Os meus terminavam invariavelmente com molhos de saudades ou um kiss, kiss, lots of love e um beijo que depositava no nome do destinatário. Como se assim que tocasse o papel grosso de fotografia meio amarelada o pudesse receber, sentindo.

Gosto das minhas memórias. E dou-me ainda conta de um fenómeno gracioso. As difíceis e penosas vão gradualmente cedendo lugar àquelas que me fazem sorrir. Não esquecendo mas relevando. Não deixando de sentir mas deixando de magoar. Sem trauma. Sem ter de negar.
Talvez por ter chegado ao patamar aconchegado da explicação aceitável.
Talvez porque mesmo nos maus momentos passados, péssimos momentos passados, consegui crescer? Ou simplesmente (o que eu queria ter este poder de síntese, Patti) porque sei que comigo estou segura?

Talvez porque a vida me corre bem.

readings (xiii)

10 Mar 2009

.. mulher sofre ;)

Sempre a achei uma mulher bonita.
Madura e bonita.
Com aquela beleza que se obtém quando estamos bem connosco e com a vida. E a vida corria-lhe bem.
De um dia para o outro começou a abusar das gangas. Não que nos exijam um restricted dress code por aqui mas ainda assim.. camisas de fora a esconderem o pneu que de disfarçável passou a proeminente. Cortou o cabelo e pintou-o e começar a proferir palavras que até então me eram desconhecidas na sua maneira de ser .. operações plásticas e botox, rugas e dietas.
Passou semanas a comer cenouras para aparecer lisa e sem mácula, sendo que na semana seguinte, os quilos surripiados à constituição eram devolvidos em força .. e em dobro.
Passou a frango cozido e o cheiro na cozinha tornou-se insuportável.
Somou café sem açúcar e sumo de limão com fartura a qualquer hora .. todas as horas, e a tez de levemente bronzeada que combinava na perfeição com o cabelo que havia sido encaracolado, passou a lívida, olheiras profundas e um mau humor permanente.
Inconstante oscilava entre a euforia e a apatia. Tornou-se difícil dialogar. Havia um sem número de problemas para resolver, sempre, que lhe consumiam a inteligência que havia sido .. imensa:
Era a bainha das calças que escondia nas botas altas, próprias de fim-de-semana, a camisa que não caía como pretendia, a ruga no meio da testa que teria de voltar a encher.

Ao mesmo tempo outra alteração curiosa. O telemóvel até então sossegado, não parava de apitar com mensagens recebidas ao minuto e respondidas enquanto se atarefava no trabalho diário.
De chofre, no outro dia, e fruto de uma intimidade para com quem comigo trabalha há demasiado tempo, atirei-lhe .. Mouro na costa, Madame? .. o olhar toldou-se, o lábio inferior tremeu, carregou a ruga da testa, agora sim visível e respondeu-me: dez anos mais novo que eu .. nem calculas o que tenho passado!

readings (xii)

Giro mal o silêncio porque, mais tarde ou mais cedo, este traz consigo a definitiva ausência de som e, de repente, nem o chilrear dos pássaros, nem o arrulho das ondas, nem o embalo da poesia quando dobro a finisterra da noite.


Gostei .. muito.
E há por ali muita coisa com a qual me identifico na hora .. ainda que, em contradição assumida, preserve (ou aprenda a?) os meus silêncios.

9 Mar 2009

blogchallenge (iv)


Convida-me aqui o João Severino para algo que já respondi ainda que tenha feito a pura da batota ;) na altura envolvida numa tradução peguei deliberadamente no objecto a traduzir.
Assim .. e como o que actualmente tenho em mão não tem 161 páginas, detenho-me na última frase lida:

“I hope it is not dangerous”, said patient Aunt Faith, who associated the Birthday of Independence with visions of boys disfigured for life.
The Old Stone House, Constance Fenimore

Como quase todos os nascimentos .. provenientes do caos, atrevo-me a acrescentar.

Obrigada João :)

thinking (vii)

A ânsia é inimiga da ponderação (II)

Exemplo segundo:

Na correria de interpretar as letras procurando o aplauso fácil que diariamente recebia, nem percebeu, coitada, que desta vez, imagine-se, não era da própria que se falava.

readings (xi)

Constance Fenimore Woolson (novelista) 1840-1894

Nas palavras de Henry James “Constance possuía um capital extraordinário de reserva e autonomia e parecia não haver nela o menos desejo nem de agradar nem de impressionar. Vivia a sua interioridade com uma veemência inusitada e possuía uma estranha e activa independência que não se permitia prescindir”.

É engraçado acompanhar a evolução de relacionamento entre Henry James e Constance Fenimore, apreender todos os traços da personalidade desta Senhora pela pena intimista do escritor e depois deixar-me surpreender com a identificação da maneira de ser de Constance, das suas oportunas e breves afirmações, da inteligência pertinaz e algo afoita para a época, na personagem de Isabel Archer da novela Portrait of a Lady, escrita por Henry James dois anos depois de ter conhecido aquela que sempre foi considerada a sua maior amiga, fiel confidente, leitora atenta e crítica.

Isabel Archer é sem dúvida Constance Fenimore. E sente como ela, pensa como ela, veste-se como ela.

O abismo entre o exercício integral da inteligência por parte das mulheres e as consequências desse exercício” é uma frase atribuída a Constance Fenimore e plenamente defendida por ela à época. Consequências que Isabel bem sentiu na pele.

Chegou-me agora às mãos (thank you*) depois de algumas voltas e semi-desistências, “The Old Stone House” escrito por Constance, aka Anne Woolson.

Começo a deixar-me encantar por Aunt Faith que gerindo de forma exemplar o desespero de uma vida solitária com a qual não sonhou, cria, guarda e protege e acarinha um rancho de cinco sobrinhos órfãos, cada um particularmente diferente de todos os outros.

E nas linhas que devoro tenho presente que a Mestra destas letras teve uma vida .. para além do livro, para além da ficção.

6 Mar 2009

readings (x)

Gosto muito do que a Carla Maia de Almeida escreve por aqui, e agora, a acompanhar também aqui. Parabéns!

O Tiago escreve bem. E eu não dispenso uma visita aos "retalhos".

Um respirar fundo, de alívio, até esta Minha Amiga que espero, agora sim, regresse breve, breve e em força ;)

.. um excelente fim-de-semana para todos que, se forem gulosos, têm muito com que se entreter ;) e até não sendo .. * Óbidos não carece desculpas para uma visita.

interpretações (iii)



Que quereis que vos leia se loucos em desatino não me escutam, não me dizem?
Quereis que vos leia sobre a vida?
Silêncio, então. Silêncio!
Achais porventura aqui escutar a voz que vos dará a solução dos males, achais?
Pobres cândidos e infantis, cheios de certezas de aqui encontrar decifrações.
Que quereis que vos diga, por Deus, que quereis? Silenciem-se.
Escutai o bater do vosso coração no vento que arrasta as árvores lá fora, e se vos mantiverdes de pé, mais fortes que a Natureza, voltai.
.. que quereis que vos diga?

you're so right!


Da maneira como o Governo aposta na informática, sem qualquer espécie de visão crítica das coisas, se gastasse um quinto do que gasta, em tempo e em recursos, com a leitura, talvez houvesse em Portugal um bocadinho mais de progresso. O Magalhães, nesse sentido, é o maior assassino da leitura em Portugal – António Barreto na Ler. Também aqui

5 Mar 2009

saudade


Vôvô Tsongonhana, (significa Avô Pequenino) relata a história de um menino abandonado, reflexo das sociedades actuais, que foi acolhido por um velhote que fazia peças de artesanato. A criança foi crescendo e aprendendo com ele, até decidir ele próprio conhecer o mundo de outra forma. “
Sinto uma grande necessidade de mexer com as palavras e escrever” confessa-nos Augusto Carlos, escritório moçambicano deste livro que, intercalado com o de leitura obrigatória e, desconfio, superando-o em interesse, tem feito as delícias dos serões da princesa.
Ontem lia-me em voz alta, exercício de que ambas gostamos, as frases mais marcantes do capítulo “.. todos os meninos gostavam do vôvô tsongonhana, aliás posso dizer-vos que era um daqueles avôs que todos os meninos têm o direito de ter.”

Fez uma pausa a narradora.
Olhou-me séria e adivinhei-lhe uma lágrima nos olhos límpidos.
Mummy .. ? sim querida.
Tenho saudades dos meus avós.
Eu sei, querida.
(também eu, pensei, enquanto controlo o nó na garganta e a abraço. tantas.)

Oferta



ao Pedro Correia, na sequência de uma troca de pensamentos, para a fabulosa rubrica "Passado Presente" :)

Orgulhosamente na família, esta *





4 Mar 2009

thinking (vi)

Do not mind anything that anyone tells you about anyone else.
Judge everyone and everything for yourself.
(Henry James)

"ai Portugal .. Portugal"

Os Colombos

Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

Fernando Pessoa, Mensagem

A culpa foi sua Caro Confrade .. achei eu, na minha admiração pelo Mestre, que merecia continuação.

sorrow


Lembro-me de ter acordado em susto pelo temor que sentiste, acordando
Lembro-me de te ver fechada na despensa, em plena escuridão a salvo da agressão
Concentras-te no respirar.
Não posso fazer barulho a respirar, penso, ou denunciar-te-ei.
Não posso denunciar-te
Lembro-me de ter pensado que seria desta que morreria, se morresses.

Fiquei toda a noite sentada à porta, tomando conta.
Horas desfiadas e desfeitas na escuridão ansiando pela ténue luz que inundando o pesado reposteiro, me dissesse que estás a salvo.
Que estou a salvo.
Tarda a luz.
Tarda o dia.
Perdemos, desta vez.

3 Mar 2009

thinking (v)

Atribuir aos outros a nossa infelicidade, massaja-nos o ego.
Responsabilizar outrem pela nossa felicidade, diminui-nos.

Would you please think with me?
se o destino colocou a nossa vida nas nossas mãos, como poderia atribuir a alguém mais, dois dos sentimentos mais poderosos e infinitamente próprios?

interpretações (ii)


fotografia de LB em Outros Olhares

Vem cá, chamou a mãe ternamente, chega aqui. Queres ouvir uma história? A pequena de vestido esvoaçante, entretida com os peluches que enfileiravam no pequeno muro onde os tinha posto a dormir, fingiu não ouvir.

Contava ela uma história de “nanar” para que sossegassem os petizes que haviam estado na brincadeira. Uma história colorida, como as flores do seu vestido. Meigamente ajeitava-os, todos em fila, deitados de lado como via a mãe fazer com o mano bebé. Sussurrava-lhes palavras imperceptíveis que eles entendiam sossegando, adormecendo.
Vem cá! Insistia a mãe .. vais adorar esta. E a pequena, certa que os meninos não se mexeriam nos próximos minutos tão calmos estavam, aninhou-se no colo conhecido, preparada para ouvir. Com toda a atenção. Sabia que teria de a repetir, palavra por palavra, quando eles acordassem.

thinking (iv)

"O comportamento é um espelho em que cada um vê a sua própria imagem "
Johann Goethe

Era! Não gosto particularmente de Goethe provavelmente pela sua postura demasiado austera conferida por uma dura nacionalidade, mas nesta frase destaco a ambivalência de interpretações.

O comportamento actual é mais um espelho em que cada qual projecta a imagem que quer que os outros tenham de si. O que se torna deveras cansativo ainda que colha frutos extemporâneos. Porque se fosse o espelho em que projectamos a nossa imagem, haveria por aí muito espelho partido Mr. Goethe .. com a natural parafernália de azares que a superstição advoga ;)

2 Mar 2009

thinking (iii)

É fácil apagar as pegadas;
difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.
Lao-Tsé

Porque me encanta a sapiência dos simples.
Porque me afugenta a soberba de quem não sente o que diz.

Poetry

Torquato da Luz, o poeta que canta o Amor .. com Amor, alguma nostalgia, esperança e honestidade – os ingredientes indispensáveis para que a Poesia, a verdadeira e intemporal .. entre na pele.
Na voz sonante e cheia de sentimento de João Severino, o poema Zombies de Lisboa atingiu o zénite dramático da carga fatídica que o mesmo encerra.
Brilhante.
A Letra escrita. A letra declamada.

Obrigada Poeta .. Obrigada João, foi um excelente final de tarde o que nos proporcionaram :) e .. queremos mais!

Once & Princess *