17 Mar 2009

it's time

Conheciam-na como um porto de abrigo. Daqueles a que recorremos sempre que algo não corre bem, ou corre menos bem. Ou não corre como esperado. Levou a vida a limpar joelhos esfolados, a preparar chás calmantes, a contar histórias que fizessem a mente do interlocutor viajar por países distantes, miríades tentadoras. Ouviu vezes sem conta os mesmos dramas, as mesmas acusações à vida, essa madrasta, secou choros e acalmou raivas, proporcionou momentos de bonança, desculpando, relativizando como só ela o sabia fazer. Serena e um sorriso inalterado no rosto pequeno e meigo pronto, pronto, já passou e passava. Sabiam com o que podiam contar e em puro egoísmo contavam-lhe os desaires, os desgostos, culpando a educação, o trauma, o namorado e o marido, a mulher ou o patrão, e até a pedra da calçada. A tudo respondia sem voz, com um aceno de cabeça que se calculava compreensivo o cordato.
Cresceram. Formaram famílias. E continuavam a procurar o colo tentador de quem nunca achava que seriam verdadeiramente culposos.
Até ao dia em que sentados à grande mesa da sala, na companhia de quem haviam escolhido por companhia, e com uma prole considerável, continuavam as queixas que os caracterizava quando ainda eram todos crianças. Ela sentada num sofá a cerzir meias numa altura em que já ninguém cerzia meias mas pelo simples facto que lhe fazia a maior das impressões deitar fora o que ainda não era um trapo, ouvia-os. Apreciava-lhes o semblante carregado, a culpa alheia tão esmiuçada como se fossem personagens de uma qualquer peça de teatro a quem o encenador havia trocado os papéis. Os pequenos, em seu redor, sempre os pequenos em seu redor no adivinhar do que era o seu feitio condescendente.
Pousou o trabalho, fitando-os.
Fez-se um silêncio natural de quem se preparava para receber mais um pano quente sobre a mente inquieta.
Está na altura meninos, proferiu. Está na altura de arregaçarem as mangas e fazerem algo pela vossa vida, meus queridos. Pelo bem inestimável que é a vida que vos foi concedida. E está também na altura de crescerem definitivamente e tomarem a rédea das vossas decisões. Deixando de culpar o destino como se a ele fossem alheios. Deixando de culpar o passado como se o não entendessem. E dando azo ao futuro que carregado de oportunidades vos espreita às escondidas e arrepia caminho sempre que vos vê desistir.
A mais pequena da prole de crianças guinchou sentada na cadeira e abanou os bracitos como que a concordar com o que ouvira.
Eles? Bom .. primeiro ficaram algo furiosos pela admoestação. Tão diferente do discurso de pronto, pronto com o qual cresceram, sabendo que naquele colo eram inimputáveis e quase sempre desculpados de todos os trambolhões que insistiam em dar ainda que sem pedras pelo caminho. E cabisbaixos, interiorizando o que havia sido dito, partiram prometendo fazer pela vida, o que queriam fazer .. da Vida.

Dizem que continua a cerzir meias, ainda hoje. Já rodeada de bisnetos que lhe procuram o colo e o leite morno aquecido ao fogão com uma colher de mel, para acalmar as dores do mundo, diz ela mais enrugada mas ainda de olhos negros, vivos, atentos e protectores.

É o nosso país esta velha cerzideira.
E está na altura de lhe provar que os seus filhos são capazes.
Digo eu ..