11 Mar 2009

intimism (xxxii)


Numa recente troca de correspondência com alguém que estimo recordei os selos e os postais em férias.

Engraçada a memória que nos prega partidas atirando-nos, de repente, não mais que de repente como diz o Poeta, para determinadas alturas, situações, vivências, cheiros e sabores.
Felizes os que a ela podem recorrer. Aliás, escrevendo sobre isso, dou-me conta que o meu maior medo é um dia poder ficar sem a minha memória. Confesso que se há quem atente no tamanho dos dedos das mãos, ou no tipo de sapato que traz o interlocutor do momento, eu desiludo-me sempre que a pessoa com quem converso, mais que dedos toscos ou sapatos esburacados e sem marca definida, utiliza frases como não me recordo ou não trago esse tipo de recordações, passado é passado .. estranho sempre quando quem comigo argumenta acabou de chegar, como se de presente fosse feita a vida.

Mas relembrando os postais de férias, principalmente quando a família partia para o merecido mês de praia e as avós e tios ficavam em Lisboa, era uma tarde bem passada aquela que prescindindo da areia e do mar, normalmente em dias nebulosos e algo frios, passávamos pela estação dos correios para escolher os postais mais ilustrados e bonitos, fieis representações do local onde estávamos, para os dedicarmos a quem longe tinha ficado. Os meus terminavam invariavelmente com molhos de saudades ou um kiss, kiss, lots of love e um beijo que depositava no nome do destinatário. Como se assim que tocasse o papel grosso de fotografia meio amarelada o pudesse receber, sentindo.

Gosto das minhas memórias. E dou-me ainda conta de um fenómeno gracioso. As difíceis e penosas vão gradualmente cedendo lugar àquelas que me fazem sorrir. Não esquecendo mas relevando. Não deixando de sentir mas deixando de magoar. Sem trauma. Sem ter de negar.
Talvez por ter chegado ao patamar aconchegado da explicação aceitável.
Talvez porque mesmo nos maus momentos passados, péssimos momentos passados, consegui crescer? Ou simplesmente (o que eu queria ter este poder de síntese, Patti) porque sei que comigo estou segura?

Talvez porque a vida me corre bem.