27 Mar 2009

intimism (xxxvi)

Entrei a medo no passado.
Pé ante pé, sem barulho.
Olho à volta e vejo-me rodeada de memórias, sons e sorrisos, suspiros e sonhos.
O meu quarto está intacto.
A colcha de renda imaculada cobre a cama e na escrivaninha antiga de madeira tosca e cravada empilham-se livros que me esqueci de ter lido.
Há uma boneca de loiça em tamanho de menina crescida encostada a um canto por debaixo da janela que me olha sentida, de lágrimas nos olhos, dizendo-me baixinho também te esqueceste de mim.
A lanterna na primeira gaveta da mesa-de-cabeceira já não tem pilha, tanto serviu para ler debaixo dos lençóis, livros proibidos, surripiados ao controle paterno da estante da sala.
Há uma bicicleta sem roda e uns patins sem patim. A mochila pende da maçaneta da porta tal como a deixei, uma caneta de tinta seca lá dentro e um pequeno bloco com apontamentos que não recordo ter .. apontado.
Nas paredes as fotografias empalideceram .. mas ainda sorriem.
Olho em volta o meu passado.
Procuro os sonhos que tive, e penso que fiz para os concretizar?
Entro a medo no passado, para me comover.
Vendo de onde vim .. aceito o sítio onde cheguei.
Porque é meu.
Porque sou eu.

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Bom fim-de-semana :)