31 Mar 2009

intimism (xxxvii)

Gostava de palavras cruzadas. De jornal.
Coleccionava-as meticulosamente quando não havia tempo para as resolver. Gostava de leite com café. Mais leite que café que lhe haviam dito ser fundamental para acalmar a úlcera que há anos lhe queimava o estômago. Gostava de gelados Super Maxi. Só Super Maxi. Retirava cuidadosamente a parte fina do chocolate e deliciava-se depois com a nata. Devagar. Saboreando.
Gostava de andar a pé. Andava muito a pé o que até ao fim da vida contribuiu para a figura esbelta que mantinha, sem esforço. Separava o lixo quando ainda ninguém separava coisa nenhuma. E escrevia cartas à mão. Imensas. Para toda a família, principalmente a que estava a milhares de quilómetros de distância. Quando recebia resposta, quase sempre, felizmente, sentava os netos em seu redor e lia. Devagar, pausadamente, saboreando as palavras escritas que lhe acalmavam a saudade do peito e lhe marejavam os olhos de água. Olhos de um verde profundo, quase cinza, expressivos e amendoados. Gostava da vida, a minha avó.
Das coisas simples da vida. Como palavras cruzadas e gelados de nata. E notícias de quem está longe.

Hoje, ao deixar a minha princesa no ATL, cuja vivenda fica no bairro onde morámos, fui abordada por uma senhora de idade, que reconheci vagamente, que sorrindo e acariciando o cabelo da minha mais que tudo me pergunta a menina desculpe, mas é neta da Ladikê, não é?
Perante o meu ar incrédulo mas confesso, murmura que sou a cópia viva daquela que foi uma grande amiga. A melhor amiga que já tive, diz-me, dando-me um abraço. Ainda hoje lhe sinto tanto a falta.

Também eu. Tanto ..