24 Mar 2009

past .. not as perfect as that


Dobrava pacientemente as meias e a restante roupa interior.
Como quem cumpre um ritual. Meia do direito, meia volta sobre o pulso, parte de fora para dentro e assim sucessivamente.
A restante roupa era cuidadosamente colocada no cesto para passar. O ferro de aspecto rude mas leve no trato estava ainda a aquecer. A tábua de madeira com um pano branco imaculado por cima, devidamente armada no meio da cozinha.
No fogão a lenha crepitavam as brasas e fervia vagarosamente uma sopa de caldo verde.
A favorita dos meninos. No tabuleiro do forno rangia a gordura de uma farta peça de carne. Cabrito com batatas pequenas que aloirariam no molho daqui a pouco.
Sentiu-a chegar subindo as escadas devagar em passo cadenciado e murmurando uma pequena melodia que havia trazido na memória numa das ultimas deslocações à cidade. Um leteendien era assim que o percebia mas tinha a noção que não seria assim que se diria.. era inglês parecia-lhe e dessa língua áspera que raramente se ouvia por ali, ela não entendia nada. Nem uma palavra.
Entrou na cozinha e abraçou-a. Gostava daquele jeito como a agarrava abraçando-a sem conseguir dar-lhe a volta ao corpo. Ficava a mirá-la com os grandes olhos castanhos e rasgados, curiosos de menina pequena a caminho de menina mulher. o Pai está Beatriz? .. a pergunta sacramental. O Pai está. Como quem se quer assegurar que se está já não sairá e se não está há que ir à sua procura. O que fazia sempre que chegavam as 19h00 e o senhor ainda não estava em casa. Menina a caminho de mulher com responsabilidades bem maiores que os seus treze anos. Ainda não, menina respondera-lhe, vendo alterar-se a feição para um ar ligeiramente preocupado. Girou a cabeça para o relógio de pêndulo pendurado no corredor. Eram 18h45.
E os manos?, era a pergunta seguinte, enquanto escolhia uma tangerina suculenta da fruteira e a descascava à mão para dentro do balde do lixo. Velho aquele balde. Havia que o substituir rapidamente.
No quintal, menina. A roupa toda dobrada agora no cesto para passar. Mais uma volta na carne para se assegurar que já poderia deitar as batatas. A sopa feita, era a altura de lhe juntar as finas rodelas de chouriço pelas quais discutiam à mesa: tens mais duas que eu.
Sorria a Beatriz. Gostava daqueles meninos que tinha visto nascer. Todos eles. Há muito que servia naquela casa. Ainda antes do senhor se casar, já servira o seu pai. O Senhor Doutor. Homem bom e justo mas de poucas falas. Depois da sua morte, ficou contente por poder continuar a servir o menino. Menino agora senhor.
.. tal como a menina! exclamou, fazendo-a voltar-se de admiração. Um dia terei de tratá-la por senhora, sabia? disse sorrindo, rugas muito profundas ladeavam os olhos, dando-lhe um ar trocista mas meigo ao mesmo tempo.
Prometes-me Beatriz?, perguntou-lhe, parando de comer e olhando-a séria. Tão séria aquela face de menina. Tão tristes agora os olhos escuros e rasgados.
Prometo o quê menina? atirou-lhe parando o que estava a fazer e afagando-lhe os cabelos que lhe caíam em cascata pelos ombros. Prometes-me que sairás à minha procura se algum dia eu não aparecer?
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Texto já editado nos "velhos tempos" do Once :)
.. Porque o trago de novo à ribalta? Porque preciso.