22 Apr 2009

earth


Segurou o pequeno globo num misto de temor e excitação que lhe fazia tremer os pequenos dedos rechonchudos e limpou-o cuidadosamente.
Muito cuidadosamente, quase em afagos disfarçados. Lá dentro, em tons transparentes de ventos idos, pequenas sementes de uma vida verde desconhecida pontuavam uma terra castanha que adivinhou molhada .. cheirosa. Seres minúsculos atarefavam-se em direcção a nada, vidas corredias, nervosas, estranho pensou o garoto .. para onde vão?
Um barulho, que em surdina ensurdecia, oprimia o silencioso suspiro que o globo soltava de quando em vez. Um suspiro dorido, profundo e calado. Calado pelas máquinas de um amarelo vivo, muitos maiores que os pequenos seres que lhe prenderam a atenção. Que fazem? perguntou-se, no mesmo instante em que percebeu que arrancavam, com ares ferozes, as pequenas sementes verdes que tinha visto nascer lá mais em cima. E a terra.. aquela terra castanha que achava cheirosa de chuva, transformava-se no mesmo instante num deserto árido, rachado em rasgos que pressentiu de dor. Calado por outras máquinas, desta vez em tons de cinza e negro, que lançavam uns fogos coloridos que o fizeram sorrir a principio, até perceber que onde caiam aqueles fogos coloridos transformavam em cinza e chama tudo em redor. E pequenos corpos daqueles seres, jaziam pelo chão sem ninguém os levantar. Horror, pensou o garoto, virando de propósito o pequeno globo para afastar tais visões.

Em algumas zonas uma nuvem de fumo negra pairava ameaçadora ensombrando o sol pintado a amarelo e suspenso em fio de pesca imperceptível. Como é que não a vêem, indagava-se de novo, observando atentamente aquela vida estranha, segurando o pequeno globo com todo o cuidado. Indiferentes os pequenos seres continuavam as suas labutas, quais formigas minúsculas, ocultas. Um brilho de vidro azul e branco chamou-lhe a atenção. O mar explicara-lhe o Pai quando lhe trouxera aquele tesouro. até isso destruíram, ouvira comentar com a Mãe ao jantar, julgando-o absorto. Como assim destruíram?, apeteceu-lhe perguntar .. sabia contudo que a pergunta iria colocar nos olhos do pai aquela sombra triste e amarga que lhe via com frequência. Pergunto amanhã, na escola, pensou.

Era lindo o seu tesouro. Já tinha ouvido falar dele nas aulas de História Antiga e Civilização.
Havia ali ainda uma vida, pensou .. uma vida cansada, mas que ele na ingenuidade dos seus 12 anos, acreditava, ainda esperançada. Oxalá eu pudesse ajudar esta Tero, desejou escutando de novo aquele lamúrio triste, profundo .. arrepiante Hey! gritou abanando o Globo com força, como se o pudessem ouvir os minúsculos e indefinidos seres que via de um lado para o outro em azáfamas que lhe pareciam tolas. Hey! Não vêem que estão a magoá-la?!
Pareceu-lhe, por impossível que possa parecer, que por uma milésima de segundo algo parou no buliço do seu tesouro .. ilusão .. milésima de segundo mais tarde, tudo retomou o seu ritmo alucinante de quem parece não escutar, não ver .. não sentir.


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texto já editado.